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sábado, 20 de setembro de 2014

A nova fronteira da incomunicação

Quanto mais se aperfeiçoam os recursos, as técnicas e as possibilidades que o homem tem de se comunicar, aumentan também, em idêntica proporção, as suas incapacidades. Uma análise sob o ponto de vista de Bauman e Slavoj Zizek

Imagem: Shutterstock

 

Talvez seja impossível pensarmos o desenvolvimento da vida humana sem o aprimoramento contínuo das tecnologias comunicativas, estabelecendo, assim, a aproximação interpessoal inevitável para a criação de relações sociais que promovem os mais diversos níveis de progresso material das civilizações. "Quem não se comunica, se trumbica", já dizia o saudoso ícone da comunicação popular José Abelardo Barbosa de Medeiros (1917-1988), carinhosamente conhecido como Chacrinha.
A essência da condição humana estaria fundamentada na capacidade social de interação e comunicação com outrem. Aristóteles já expressara em sua Política a tese de que o homem é por natureza um "animal social" e que "a fala tem a finalidade de indicar o conveniente e o nocivo, e, portanto também o justo e o injusto".¹ Por conseguinte, a comunicação promove ações sociais que são úteis para o progresso da vida comunitária mediante a associação entre os indivíduos que, de alguma forma, apresentam afinidades entre si, sejam religiosas, culturais, linguísticas.
O advento da Modernidade e o seu inerente progresso técnico ocasionou uma curiosa situação em nossas relações sociais: apesar de inúmeras tecnologias comunicacionais disponíveis em nossa civilização técnica, não conseguimos estabelecer, de modo geral, relações comunicativas profundas com nossos interlocutores. Não se pode negar, obviamente, o aprimoramento da velocidade dos processos comunicacionais e suas trocas informativas, mas em que isso melhorou o desenvolvimento de uma consciência ética conectada plenamente aos grandes problemas do mundo, estimulando as pessoas a se libertarem de suas particularidades pessoais e suas limitadas percepções da realidade?
A MAIS TRIVIAL AMEAÇA DE QUE NÃO PODEREMOS NOS CONECTAR AO MUNDO VIRTUAL É CAPAZ DE NOS CAUSAR PAVORES TERRÍVEIS, PROFUNDAS CRISES EMOCIONAIS
TECNOLOGIA E ALIENAÇÃO
Ao invés de aproximar as pessoas e mobilizá-las para a efetivação de causas comuns, o uso alienado das tecnologias comunicacionais, em verdade, gera o distanciamento pleno entre as pessoas, pois o interlocutor é estigmatizado como uma mera coisa, desprovida de subjetividade. Fica claro, obviamente, que o problema fundamental da incomunicação humana não se encontra nos instrumentos técnicos, nos aplicativos, nas redes sociais, mas sim na falta de disposições éticas que permeiem as ações humanas nesse novo contexto cultural da sociedade de informação, que poderia talvez promover uma revolução política de escala global caso o amor pela liberdade e pela justiça fossem os motores do engajamento comunicacional dos indivíduos na era da virtualização das informações.
PARA BAUMAN,
a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada, ou mais segura, do que compartilhar o terreno doméstico comum
Talvez não haja nada mais escabroso do que estabelecer um projeto de conversa com uma dada pessoa e esta, em vez de olhar nos seus olhos e demonstrar efetivo interesse por aquilo que é dito, prefere estar concentrada nos aplicativos do seu aparelho celular, mantendo-se alheia em relação ao mundo que a rodeia. Esses dispositivos eletrônicos são verdadeiros fetiches tecnológicos, aos quais projetamos todos os valores superiores de nossa existência industrial e idolatramos como instrumentos sagrados, sem os quais seria impossível vivermos. Com efeito, que habitante da grande sociedade de informação consegue conceber hoje uma vida feliz e digna sem celulares ou internet?
A mais trivial ameaça de que não poderemos nos conectar ao mundo virtual ou de que uma dada rede social será extinta é capaz de nos causar pavores terríveis, profundas crises emocionais. Essa mesma indignação histriônica não é direcionada, por exemplo, pela defesa de causas sociais, políticas, culturais e ambientais muito mais nobres. O indivíduo autocentrado da era tecnológica é informado de diversos acontecimentos ocorridos pelo mundo, mas não conhece as contradições mais violentas que estão encrustadas no seio de sua própria sociedade, como a criminalização da pobreza, a repressão policial, os preconceitos de toda espécie. Esse indivíduo somente toma ciência de que seu mundo encantado das redes virtuais é sujo e feio quando seu celular é roubado por um infrator ou quando seu notebook pifa, impedindo-o momentaneamente de interagir com seus contatos virtuais.
IMAGENS: SHUTTERSTOCK/WIKIMEDIA
Hoje, o uso do celular traz consigo a praticidade e, nas suas mais diversas versões, muito mais funções do que a simples comunicação com pessoas que estão em lugares distantes, como foi pensado originalmente por Graham Bell
Visualizemos uma grande família reunida na mesa de jantar com cada membro entretido com seu apetrecho sagrado sem que haja qualquer comunicação mais substancial entre cada um. Nem mesmo conversas triviais ocorrem nesse momento que tradicionalmente servia de integração entre os convivas. Situações similares se repetem em diversas outras ocasiões da vida tecnológica do sujeito, havendo em comum o alheamento em relação aos problemas concretos da existência e ao exercício da introspecção. Viagens longas que poderiam servir para meditações são preenchidas com passatempos, pois o período ocioso motiva o tédio na consciência de quem é incapaz de serenar seu ânimo sem a necessidade de direcionar seus pensamentos para distrações momentâneas.
Na era tecnológica, perdemos definitivamente a capacidade de ouvir o outro. Com efeito, a sociedade individualizada da era tecnocrático-capitalista cada vez mais submete o sujeito ao plano da "idiotia", ou seja, à vida autocentrada, incapaz ou desinteressada em dialogar com qualquer inteligência externa reconhecendo a importância e pertinência do seu discurso. Essa disposição "idiota" se manifesta em diversos aspectos da vida cotidiana atual, seja na nossa incapacidade de nos comunicarmos efetivamente com as pessoas por preferirmos os prazeres sensórios e entretenimentos dos celulares e aplicativos, seja pela sensação de conforto que preferimos manter encastelando-nos nas ilhas de segurança como se não houvesse a miséria no mundo real nos esperando com seu calor, sua sujeira, seu terror.
TALVEZ AS LEIS MAIS VIOLADAS PELOS BRASILEIROS SEJAM AQUELAS QUE PROÍBEM O USO DE CELULARES EM ESPAÇOS EDUCACIONAIS, TEATROS E SALAS DE CINEMA
IMAGENS: SHUTTERSTOCK
Seria o celular um elemento identitário indispensável para a sociedade contemporânea ou um mero fator de alienação e de inautenticidade existencial?
Apesar de todas as facilidades tecnológicas, nossas experiências comunicacionais mediadas por esses instrumentos não promovem a alteridade, apenas o silêncio interior, pois não queremos ouvir o discurso do outro, não valorizamos a arte da escuta, que exige paciência, acolhimento; tanto pior, muitas vezes somos autoritários fascistas, impedimos o outro de falar, de enunciar seu discurso, de transmitir suas ideias para o mundo. Ocorre ainda o excesso discursivo do próprio usuário das redes sociais ou dos meios de comunicação como um todo, refletindo nesses suportes tecnológicos o que ele faz no seu cotidiano: fala sem parar, sem dar tempo de seu interlocutor responder ou mesmo tentar compreender a verborragia que o histérico enuncia com tanta voracidade. Nesse contexto não há comunicação, apenas enunciados solitários, monólogos, típicos das personalidades egocêntricas que não reconhecem nada além de seu próprio eu.
A TECNOLOGIA E A MÁ EDUCAÇÃO
Constantemente debatemos a crise da Educação perante a submissão da docência aos paradigmas espetaculares, circunstância que exige a degradação discursiva do professor para que consiga seduzir consciências estudantis dependentes de estímulos psíquicos intensos. O empobrecimento do vocabulário suprime a riqueza semântica do discurso, pois a consciência alienada rechaça qualquer palavra imputada como difícil, desvalorizando- a em seu mundo simbólico. Para o estudante idiotizado, não basta perseverar no seu desinteresse intelectual em interagir com os conceitos apresentados pelo docente, mas também impedi-lo de transmiti-los através dos meios mais estúpidos. O professor passa seus conhecimentos pedagógicos para uma massa indistinta composta por alunos e aparatos tecnológicos conectados com um mundo global que talvez seja muito mais interessante do que o apresentado pelo docente em sua labuta.

O amor líquido de Bauman
"O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais frequentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida - ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar.
Os contatos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contato - mas entrar em contato não é obstáculo para se permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de um botão. A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. 'Estar conectado' é menos custoso do que 'estar engajado' - mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos." (BAUMAN, 2004, págs. 38-39)
Talvez as leis mais violadas pelos brasileiros sejam aquelas que proíbem o uso de celulares e aparelhos que emitam sinais sonoros em espaços educacionais, teatros e salas de cinema. Nas escolas e universidades é praticamente luta perdida impedir o alunado de acessar seus apetrechos eletrônicos; uma saída plausível seria então o professor integrar tais recursos como ferramentas didáticas nas suas atividades pedagógicas, pois o aluno infantilizado pelo fetiche da tecnologia mostra-se extremamente reativo ao ser inquirido a guardar seus "brinquedos eletrônicos". Já nas salas de cinema, percebemos o grande desrespeito dos usuários para com outras pessoas quando insistem em deixar os aparelhos eletrônicos ligados durante a exibição do filme e, então, o som maldito ecoa pelo espaço, sem esquecermos quando o usuário atende a uma chamada despreocupadamente, pouco se importando com o incômodo causado nos outros, o que representa uma falta de senso de civilidade, de respeito ao próximo e um atentado ao direito do consumidor. Nos teatros a situação se torna ainda mais grave, pois não apenas os sons dissonantes dos aparelhos eletrônicos como também as luzes emitidas pelos mesmos prejudicam os atores, concentrados em seus ofícios dramáticos, e incomodam o público presente. O que leva uma pessoa a querer registrar com suas câmeras o desempenho dramático? Não é esteticamente mais proveitoso contemplar a encenação e fruir desse momento único? Todavia, o homem idiotizado pelo fetiche da tecnologia prefere registrar o espetáculo teatral para que possa depois exibir aos seus "amigos" a sua "presença" nesse acontecimento, sendo que em verdade tal sujeito nada absorveu desse evento cultural, pois seu espírito crítico não estava presente, apenas seu afã histriônico de associar sua imagem nessa encenação. Há muitos selfies tirados nesses espetáculos, mas se indagarem ao sujeito o teor estético da encenação, ele pouco poderá dizer. Mas o que isso lhe importa? Estar presente no espaço cultural lhe é mais importante do que vivenciar a obra encenada, fato que evidencia a ausência de disposições estéticas de grande parte do público que frequenta casas de cultura.
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A infinidade de possibilidades que os atuais meios de comunicação disponibilizam para seus usuários acaba por fazê-los perder a noção quanto a real necessidade do uso desses objetos, a tal ponto que não sabem mais quem é o instrumento
Necessitamos desenvolver uma nova educação estética na civilização tecnocrática da dita pós-modernidade, e um dos pontos cruciais será aprendermos a nos despojar momentaneamente dos aparelhos eletrônicos durante as apresentações culturais, não apenas em respeito às outras pessoas do público e aos artistas, mas também para interagirmos intimamente com as criações artísticas de modo proveitoso em nossa formação cultural. Muito melhor do que colocar a adaptação de uma obra musical de Vivaldi como toque de chamada do celular é poder assistir à apresentação virtuosística de uma camerata que execute as peças musicais do grande gênio italiano sem os incômodos proporcionados pelos incidentes produzidos pelos ruídos desagradáveis dos aparelhos eletrônicos que insistimos em deixar ligados durante as apresentações artísticas.



AS RELAÇÕES AFETIVAS MEDIADAS PELAS TELAS DE COMPUTADORES E DEMAIS APARATOS ELETRÔNICOS GARANTEM AO USUÁRIO UM RAZOÁVEL NÍVEL DE SEGURANÇA CONTRA TRANSTORNOS AFETIVOS
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Fruto do capitalismo tardio e marcada pela excessiva individualidade, a sociedade contemporânea e seus mecanismos tecnológicos, cada vez mais, impossibilitam o contato genuíno com o outro
DUALIDADE COMUNICATIVA
As redes sociais são estruturas comunicativas que devem ser observadas de maneira bilateral pelo analista da cultura: assim como se tornam centros virtuais de interação capazes de mobilizar pessoas para causas políticas de grande importância social, tais como protestos contra a opressão policial, a corrupção parlamentar e a espoliação do espaço público pela cobiça empresarial, dentre outras justas reinvindicações, também as redes sociais podem se tornar mecanismo de expressão dos mais reacionários sentimentos gregários das pessoas, evidenciando que, apesar dos inúmeros desenvolvimentos tecnológicos das comunicações, ainda permanecemos atrelados a valores tacanhos, primitivos, tais como racismo, xenofobia, misoginia, histerias coletivas e preconceitos religiosos, em uma lista extensa e complexa de barbaridades. Continuamente somos notificados acerca de ações violentas cometidas por hordas populares por conta de boatos difundidos por usuários incautos das redes sociais que difundem informações imprecisas sem qualquer tipo de filtro, ocasionando desastres que nos afastam de toda ideia de sociedade civilizada.

As redes sociais permitem que qualquer pessoa se torne uma formadora de opinião quando, em verdade, o melhor seria promover indivíduos formadores de cultura e de conhecimento. O psiquiatra espanhol Enrique Rojas (1949) postula que "estamos cada vez mais bem informados, mas essa minuciosa e milimétrica informação não é formativa: nunca vem acompanhada de certos tons positivos que ajudam o homem a se enriquecer interiormente, a ser mais completo, mais sólido; em uma palavra, mais humano - com mais critério, melhor".²
² ROJAS, 2006, pág. 111
Não podemos esquecer também do papel glorificador que muitas vezes criamos para nós mesmos nas redes sociais, como se ali houvesse a representação plena de uma vida perfeita, circunstância que simboliza o desejo narcísico de aceitação e bajulação do usuário em relação aos seus contatos. Escondemos as contradições que constituem necessariamente nossas vidas concretas e apresentamos apenas o "lado bom" de nossa própria realidade, criando assim uma falsa representação do que de fato somos. Se porventura as redes sociais democratizaram o acesso das massas ao poder de divulgação de pensamentos, muitas vezes esses pensamentos não passaram pelo crivo da reflexão e da autocrítica. Todavia, ao menos nesse ponto não se percebem muitas diferenças epistemológicas entre os jornalistas profissionais e os comunicadores amadores, pois os primeiros, muitas vezes, apesar de todo o preparo acadêmico obtido em seus estudos universitários, são vendidos aos interesses corporativos e manipulam ideologicamente a opinião pública, enquanto os segundos, ainda que extremamente pretensiosos em seu poder informacional, muitas vezes causam menos estragos sociais quando seus discursos se apresentam imprecisos epistemologicamente ou sectários culturalmente. Afinal, se estudarmos a história recente dos meios de comunicação de massa, constataremos que grande parte das catástrofes sociais foi perpetrada graças à irresponsabilidade profissional dos difusores de notícias, gerando, assim, nas massas inflamadas o sentimento de reparação contra os "infratores" eleitos como tais pela estrutura midiática hegemônica.
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Proibir smartphones durante a aula ou tentar incluí-los no processo pedagógico é um grande dilema para os docentes de hoje em dia
É surpreendente a quantidade de bobagens (isto é, de informações desprovidas de maior relevância para o progresso cultural das pessoas) propagadas diariamente por usuários nas redes sociais sem que haja qualquer reflexão imediata sobre sua pertinência. Isso representa a própria banalização do discurso, sua dessacralização em tempos desprovidos de transcendência. A dissolução das capacidades comunicacionais genuínas motiva uma disposição exacerbada de exposição, sem que exista qualquer compreensão dos problemas humanos em questão.
Curiosamente, muitas pessoas temem iniciar relações afetivas face a face em decorrência do medo de investirem tempo e vitalidade para que sejam, em seguida, descartadas existencialmente e sofram dissabores posteriores. Desse modo, as relações afetivas mediadas pelas telas de computadores e demais aparatos eletrônicos garantem ao usuário um razoável nível de segurança contra esses transtornos afetivos. Para a socióloga Eva Illouz (1961), "a internet dificulta muito mais um dos componentes centrais da sociabilidade, qual seja, a nossa capacidade de negociar com nós mesmos, continuamente, os termos em que nos dispomos a estabelecer relações com os outros [.] A internet proporciona um tipo de conhecimento que, por estar desinserido e desvinculado de um conhecimento contextual e prático da outra pessoa, não pode ser usado para compreendê-la como um todo".³
³ ILLOUZ, 2011, pág. 141-149
Sujeitos retraídos e tímidos no tato pessoal adquirem grande poder de sedução nas interações virtuais, conquistando, dessa forma, parceiros amorosos mais facilmente. O grande problema dessa situação é que tal pessoa jamais estará preparada existencialmente para o risco da perda e da sua subsequente tristeza, sendo assim incapaz de vivenciar o amadurecimento em seu âmago. Zygmunt Bauman (1925) define tanto as "práticas amorosas" virtuais como os relacionamentos afetivos marcados pelo gosto pela efemeridade com o termo "relacionamento de bolso", pois podemos dispor deles quando necessário e depois tornar a guardá-los.4 Nessa conjuntura existencial, somente o que é fácil se torna digno de ser vivido. Trata-se de um amor asséptico, sem perigos para os participantes, mas também sem maiores intensidades afetivas, pois o risco do erro, do sofrimento e da perda é tecnicamente rechaçado por esse tipo de sujeito incapaz de ir até o fundo das coisas. Conforme comenta Slavoj Zizek (1949), "hoje tudo é permitido ao 'último homem' hedonista: tirar proveito de todos os prazeres, mas na condição de eles estarem privados da sua substância, que os torna perigosos".5
4 BAUMAN, 2004, pág. 10
5 ZIZEK, 2006, pág. 132
Mediante as questões apresentadas no decorrer deste texto, fica claro que o grande problema que envolve as relações humanas na era da virtualização das comunicações não consiste de modo algum nas próprias inovações tecnológicas, mas em seu uso inadequado pela grande miríade global de usuários que, encantados por tanta facilidade de se tornarem "senhores" dos processos informacionais eletrônicos, não desenvolvem o salutar senso de suspeita, de dúvida e de crítica constante no ato de difusão e compartilhamento de conteúdos, assim como nos comportamentos sociais desempenhados na grande rede.
IMAGEM: WIKIMEDIA
De acordo com o filósofo esloveno Slavoj Zizek, a realidade virtual é reponsável por criar uma realidade privada de substância
Uma grande seara está aberta para a vida humana no futuro das comunicações potencializadas pelos avanços tecnológicos, e talvez encontremos nesses novos dispositivos informacionais saídas efetivas para vencermos o monopólio comunicacional tradicional controlado pelas grandes corporações. Contudo, para que possamos efetivar essa mudança de paradigmas epistemológicos na vida social, é imprescindível que, não obstante todo poder de entretenimento e interatividade proporcionado, a internet deve ser convertida e compreendida como um instrumento político capaz de retirar o ser humano de sua menoridade existencial, isto é, sua dependência aos ditames externos tradicionalmente instituídos. Para tanto, a capacidade crítica do usuário deve se tornar soberana em suas manifestações comunicativas, de modo que as tecnologias eletrônicas de fato se efetivem como as novas extensões do homem, ampliando seu poder de participação na esfera pública, que, nos tempos da vida digital, integrou no que chamamos de real a potência ubíqua do virtual.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Política. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília: Ed. UnB, 1997.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
ILLOUZ, Eva. O amor nos tempos do capitalismo. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
ROJAS, Enrique. O homem moderno: a luta contra o vazio. Trad. de Wladir Dupont. São Paulo: Mandarim, 1996.
ZIZEK, Slavoj. A subjetividade por vir: ensaios críticos sobre a voz obscena. Trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Lisboa: Relógio d'Agua, 2006.

Fonte: http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/edicoes/98/artigo326614-4.asp

A DEMOCRACIA ACALMA CONFLITOS

Sustentei na última coluna que a democracia moderna, regime que admite conflitos, também gera um certo teor de conflito que poderia não existir

por Renato Janine Ribeiro


IMAGEM: SHUTTERSTOCKSustentei na última coluna que a democracia moderna, regime que admite conflitos, também gera um certo teor de conflito que poderia não existir. Quando um cargo é colocado em disputa, no âmbito político, aparecem candidatos. Ora, não é óbvio que sempre haja divergências, justificando candidaturas opostas. Mas é o que acontece. E, desde que os partidos foram considerados pilares da democracia representativa, a tendência deles é se diferenciarem, oporem-se. Então, a democracia não se limita a retratar divergências existentes na sociedade: ela aprofunda algumas, acentua-as, até mesmo as agrava.
Crítica parecida, por sinal, foi feita por sucessivos inimigos da "democracia dos partidos", que é a principal forma moderna de democracia - desde os totalitários até o presidente francês de Gaulle e pensadores marxistas não autoritários. Mas o regime democrático também cumpre um papel mais reconhecido, mais alardeado, que é a menina dos olhos de quem o defende: ele aceita um teor de conflito na sociedade. Admite como normal que haja tensões entre pessoas ou grupos. Pela primeira vez na história do mundo, desobriga os humanos de viver num todo harmônico, equilibrado. Porque a harmonia é uma empulhação. Na Ásia, o discurso confuciano, assentado na ideia de que a sociedade se organiza como uma família, leva a entender a discordância como traição. No Ocidente, a comparação do Estado a um corpo harmônico e saudável autorizou considerar o divergente um membro gangrenado ou doente, que deve ser amputado. Quem não obedece ao amor do príncipe não é apenas um divergente, uma pessoa livre para pensar de outra forma: é um traidor, um ingrato, um infame.
Diante dessa representação hipócrita das relações sociais como amorosas e da conversão do amor em autoritarismo - porque quem não retribui o amor do ditador obedecendo-lhe em todas as coisas atrai o castigo -, a democracia simplesmente deixa as coisas acontecerem. Discorda? É um direito seu. Haverá regras para dizer a discordância e, mesmo, submetê-las ao voto. A democracia cria procedimentos para garantir o direito de oposição - que também reduzem o teor dos confrontos.
Isso quer dizer que o conflito político não pode ser excessivo, e geralmente não o é. Primeiro, porque a política é a substituição da guerra. Em vez de armas, brigamos com votos. Eles não matam. O adversário não é inimigo. Não está em jogo, ao contrário do que pretendia Carl Schmitt, a extinção do outro. Pelo menos não se quer sua eliminação física, como na guerra, como com o inimigo. Segundo, porque a política se dá com palavras, que manejam emoções que se expressam no voto. Lembremos o que é "voto": o significado deste termo se vê em "votos de felicidades" ou de "feliz ano-novo". Votos são desejos. Expressamos nosso desejo em palavras, as do debate político, elaborando a decisão de votar em Fulano ou em Beltrano.
Assim, a democracia representativa de partidos gera necessariamente conflitos, mas não os deixa transbordar para a forma bélica. Ela exige um certo teor de conflito, mas não excessivo. Não vive sem conflitos, mas morre se o conflito se exacerbar. Uma sociedade à qual se impõe uma autoridade de cima, como na Tailândia, há muito dominada pelo exército em nome do rei, não consegue manter a democracia mais do que poucos anos, até que um golpe a suspende. Uma sociedade como a venezuelana, rachada de cima a baixo, fica à beira da dissolução dos laços sociais e políticos. Entre as duas pontas, há muitas posições possíveis, mas toda democracia tem conflitos, sim, e os administra.
Por isso é importante que nas eleições deste ano saibamos expressar todas as divergências que sentimos - o caráter necessariamente conflituoso da democracia -, mas que também saibamos que os conflitos não devem ser excessivos, que devemos respeitar quem de nós diverge, que devemos nos sustentar com palavras que construam argumentos. Porque, se o conflito for excessivo, a própria democracia fica em jogo - ou se torna apenas um custo, deixando de oferecer as benesses que só ela proporciona.
Fonte:  http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/Edicoes/98/artigo326658-1.asp

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

REVISTA BILROS - HISTÓRIA UECE



http://seer.uece.br/?journal=bilros&page=article&op=view&path[]=783&path[]=810


REVISTA BILROS – HISTÓRIA UECE

v. 1, n. 1 (2013)



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