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sábado, 17 de março de 2012

Heidegger e a metafísica do "nada"

      O presente artigo trata fundamentalmente da importância de se entender o nada negligenciado pela ciência e até por nós mesmos, segundo o pensamento de Martin Heidegger. Para tanto, tomaremos por base uma preleção realizada por esse pensador em 14 de julho de 1929 como aula inaugural que atendia o convite de ocupar a cátedra de Filosofia em Freiburg, preenchendo a vaga de seu mestre a Edmund Husserl. Na oportunidade, Heidegger "realiza uma analítica da existência científica e a partir dela procura responder o que é metafísica. Não define a metafísica". (STEIN in HEIDEGGER, 1999, p. 45). Ele diz ser mais fácil apresentar a todos a própria metafísica desenvolvendo uma questão que os situassem no seu interior.
Para tal intento, Heidegger resolve expor, inicialmente, o que caracteriza uma questão metafísica. Em primeiro lugar, "toda questão metafísica abarca sempre a totalidade da problemática metafísica". (HEIDEGGER, 1999, p. 51). Em segundo lugar, toda questão metafísica problematiza o indivíduo que a questiona (HEIDEGGER, 1999).
 O "nada" constituiu-se em uma (angustiante) questão metafísica no pensamento heideggeriano, principalmente quando se analisa a primeira fase da obra do filósofo alemão. 

      Fica claro que uma questão genuinamente metafísica remete a toda metafísica, inclusive, apesar de transcender o indivíduo que a questiona, ela só pode ser formulada se esse que a questiona também for indagado. Ou seja, - ele pode realizar tal questionamento? Em que condições? Quais as possibilidades? - para Heidegger a filosofia ocidental pegou um desvio do verdadeiro questionamento acerca do sentido do ser, buscou esse sentido num transcendentis, enquanto verdadeiramente ele encontra-se no ente que o próprio homem é. "[...] a interrogação metafísica deve desenvolver-se na totalidade e na situação fundamental da existência que interroga." (HEIDEGGER, 1999, p. 51).
Já sabemos que esse ente que interroga é o próprio homem. Ele tem sua existência determinada pela ciência (HEIDEGGER, 1999). A ciência é uma de suas formas de ser enquanto ocupação. Sabemos também que a ciência se caracteriza por ser autoritária e dar a primeira e a última palavra em relação a certas coisas. Mas devemos reconhecer que, acima de tudo, é nesse fazer ciên cia que o homem se revela como "um ente na totalidade dos entes" (HEIDEGGER, 1999, p. 52), onde tudo é nele, por ele e para ele. Tudo o que há no mundo é um utensílio para o agir desse ente que irrompe ao fazer ciência.
 

Expoente da fenomenologia, o filósofo e matemático Edmund Husserl (1859- 1938) nasceu em Prossnitz, Morávia, sob Império Austríaco. Seu pensamento influenciou o existencialismo de Sartre e a filosofia de pensadores da categoria de Merleau-Ponty e Heidegger.

"(Trad. do al. Seiende, de sein: ser). Empregado para traduzir o termo grego toon e o alemão das Seiende, particípios presentes do verbo ser, o termo 'ente' aparece, na filosofia de Heidegger, para designar o ser que existe, o ser concreto. Há uma confusão entre o existente (designado o homem) e o ente, 'designando tudo o que nos encontra, nos cerca, nos conduz, nos constrange, nos enfeitiça e nos preenche, nos exalta e nos decepciona' (Heidegger), sem nos apresentar o ser em si, o ser absoluto. Esse ente geral se distingue dos entes particulares (objetos, astros, pedras etc.) por seu caráter de totalidade." (JAPIASSÚ, MARCONDES, 2001, p. 62).
      No entanto, conforme Heidegger (1999, p. 52-53), "[...] o estranho é que precisamente, no modo como o cientista se assegura o que lhe é mais próprio, se fala de outra coisa. Pesquisado deve ser apenas o ente e mais - nada; somente o ente e além dele - nada; unicamente o ente e além disso - nada". A ciência não questiona o nada por ele não ser um ente, nem muito menos um objeto.
      Há muito, o saber tem por finalidade coisas externas; ele deixou de ser um fim em si mesmo. Com essa mudança no horizonte do pensamento moderno, questões como a que aqui buscamos - o nada - são tratadas como mera especulação. A prova disso é simplesmente a ausência de tratados a respeito desse assunto - onde a ciência se preocupou com a questão do nada? Em lugar algum.
A ciência finge ter esquecido o nada. Cabe aqui uma simples consideração, é justamente aí, onde a ciência finge não ligar para a questão do nada, que ela o admite como existente (HEIDEGGER, 1999). Ignorar o nada, portanto, é aceitar sua existência. Afinal de contas, a questão do nada nesse aspecto se assemelha ao paradigma lógico da questão da inexistência de Deus que, para ser concebida, deve antes aceitar Deus como algo possível de existir. Portanto, indiretamente, a ciência diz não ter relevância a questão do nada, e nesse dizer o afirma como existente.
      Está formulada a questão. Se a pergunta sobre a metafísica deve ser desenvolvida na situação do indivíduo que a formula e, se esse indivíduo que nós sabemos que é o "homem" tem sua existência na comunidade determinada pela ciência, logo, ao sabermos que essa ciência, que se caracteriza por acribia, negligenciou uma questão que aqui julgamos ser de fundamental importância no desvelamento do ser do homem, temos a grande responsabilidade de saber o que aconteceria se agora o nada voltasse a ser indagado.
"Que acontece com este nada?" (HEIDEGGER, 1999, p. 53). Que mudança ocorreria no horizonte do pensamento ocidental se esse nada agora fosse concebido como existente e dotado de essência?
Fica claro que nossa investigação resume-se simplesmente à tentativa de mostrar o quanto, para Heidegger, o nada é uma questão metafísica e de fundamental importância para a determinação de nossa existência enquanto seres que questionam e fazem ciência. Dentre o que demonstraremos, será feita também uma simples relação entre o ofuscamento da autorreflexão e o esquecimento do nada pelo homem.



A existência do nada e seu desvelamento
      O nada existe. A ciência, ao tentar explicar sua própria essência, concebe a existência do nada dizendo ser diferente dele. Vale salientar também que nós mesmos usamos de forma obtusa o termo "nada", até o atribuímos à ideia de "ausência". Como depois dessas considerações o nada poderia não existir? Sua inexistência já se tornou impossível, pois ele dá sentido a tudo que não é ele. Doutro modo, ele existiria pelo simples fato de estarmos à sua busca e de o termos inicialmente suposto "como algo que 'é' assim e assim" (HEIDEGGER, 1999, p. 53).

       Para Heidegger (1999, p. 54), "o nada é mais originário que o 'não' e a negação", ou seja, existe o não e a negação em virtude de antes deles existir o nada. Em outras palavras, recorremos ao nada sempre que em nosso pensamento atribuímos "não" a algo. Logo, essas comprovações justificam nossa busca, pois não se busca algo a menos que possa ser encontrado, nas palavras de Heidegger (1999, p. 54) "se o nada deve ser questionado - o nada mesmo -, então deverá estar primeiramente dado. Devemos poder encontrá-lo". Portanto, "seja como for, nós conhecemos o nada".
Fonte:
 http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/33/artigo243157-1.asp

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