Loading...

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Foucault, Blanchot e a Literatura


Pensador crítico, Michael Foucault preocupou-se com a relação entre linguagem e pensamento, e teve na obra de Mauce Blanchot uma influência decisiva

por Henrique Iafelice*

Commons

Michael Foucault é um pensador que faz parte da tradição crítica. Seu trabalho filosófico pode ser descrito, grosso modo, como uma história crítica do pensamento. Para Foucault "uma história crítica do pensamento seria uma análise das condições em que são formadas ou modificadas certas relações entre sujeito e objeto na medida em que estas são constitutivas de um saber possível." (HUISMAN, 2001, p. 389).
Foucault não cansou de repetir que um projeto geral acompanhou toda a sua obra: compreender a constituição do sujeito. Compreender os diferentes modos de pensamento e ação que constituem o sujeito. Conhecer as condições nas quais uma determinada forma de conhecimento emergiu recebendo o estatuto de verdade. Assim, para Foucault, "A questão é determinar o que deve ser o sujeito, a que condição ele está submetido, que situação deve ter, que posição deve ocupar no real ou no imaginário, para torna-se sujeito legítimo, deste ou daquele tipo de conhecimento; em suma trata-se de determinar seu modo de 'subjetivação' (...)" (HUISMAN, 2001, p.389).
Se o tema principal de suas análises foi a constituição do sujeito, não podemos negar que outros dois temas estiveram correlacionados com aquele: a ética e a política. Foucault, ao tentar compreender os diversos modos de constituição do sujeito a partir das diversas forças do poder e do saber presentes na história, busca a partir de suas análises novos modos de vida, outras formas de agir e de pensar que pudessem alterar significativamente o presente. Em síntese, Foucault pôde demostrar que "verdades" e "fatos" se fazem a partir de certas condições, de certos regimes e discursos de verdade que, de acordo com condições específicas, tornam-se legítimos e inquestionáveis pelas suas próprias regras e condições.
Assim, engana-se aquele que acredita que Foucault buscou em suas análises a verdade sobre as diferentes formas de subjetivação. A própria ideia de verdade ganha em Foucault outra dimensão. O que importa não é "descobrir as coisas verdadeiras", mas antes, as regras, os "jogos de verdade" que estabelecem e legitimam discursos e práticas segundo as quais um sujeito é legitimado a pensar, a agir e a dizer sobre um determinado conhecimento. Foucault não vai se debruçar sobre quaisquer regras de verdade, mas somente sobre aquelas em que o próprio sujeito é colocado como objeto de um saber possível. Assim, a figura do louco, do delinquente, as práticas da psiquiatria, a sexualidade serão temas riquíssimos para ele, pois retratam "a formação dos procedimentos pelos quais sujeito é levado a observar-se, analisar- se, decifrar-se, a reconhecer-se como possível". (HUSISMAN, 2001, p.389).
Em seu primeiro período de pesquisas denominado de "período arqueológico", momento em escreveu duas de suas mais importantes obras, A História da Loucura e As Palavras e as Coisas, Foucault acreditava que a Literatura trazia em seu interior a possibilidade de estabelecer novas formas de pensamento que se distanciavam das construções narcísicas e identitárias da formação do sujeito. Dessa forma, a Filosofia do Sujeito, diante da Literatura, tornava-se fragilizada, abalada pelas características próprias do espaço literário que colocava em questão a figura do sujeito. De forma geral, pode-se dizer que para Foucault a Literatura apresentava uma fala anárquica que não se submetia a nenhum tipo de influência determinada pelos interesses institucionais, sociais ou mercadológicos.
Porém, com o passar do tempo, após um período de intensas aproximações com a Literatura, Foucault toma outra posição. Para ele, a Literatura teria perdido seu caráter de ruptura e transgressão a partir do momento em que se alinhou às forças de mercado e ao sistema de consumo. A partir disso, Foucault procurará pensar em outras formas de ruptura, não acreditando mais na força da exterioridade da linguagem literária.
Maurice Blanchot
Escritor, filósofo, ensaísta e crítico literário francês, Maurice Blanchot (1907- 2003) é autor de obras como O livro por vir (WMF Martins Fontes, 2005).

Commons

Foi Maurice Blanchot - autor que teve grande influência no pensamento de Foucault - que lhe indicou o caminho para se abandonar a Literatura devido à perda de seu caráter de contestação e de exterioridade com as formas de sujeição. Segundo Foucault, aquele que estava mais tomado pela Literatura (Blanchot), foi o que nos obrigou a sair dela. Se o papel da Literatura era revelar-nos os processos de dominação efetuados pelo poder, agora, ela mesma estaria fazendo parte deste poder.
Sujeito, linguagem e infinito
Em 1963, Foucault escreve um importante texto sobre a linguagem denominado "Linguagem ao infinito". Foucault inicia este trabalho com a frase de Blanchot "escrever para não morrer". A narrativa tem o poder de suspender o tempo. Em Homero, os infortúnios lançados pelos deuses aos mortais tinham o objetivo de fazer com que estes pudessem narrar os seus próprios infortúnios, fazendo com que a palavra pudesse encontrar em si mesma um infinito manancial. "O discurso, como se sabe", escreve Foucault, "tem o poder de deter a flecha já lançada em um recuo do tempo que é seu espaço próprio". De forma semelhante, a morte como o fato mais soberano, abre no próprio ser e no presente do homem um vazio "a partir do qual e em direção ao qual se fala". Assim, a própria linguagem seria uma maneira dos homens se afastarem, pelo menos momentaneamente, do encontro final e derradeiro com a morte. "As mais mortais decisões, inevitavelmente, ficam suspensas no tempo de uma narrativa (...) Os deuses enviam os infortúnios aos mortais para que eles os narrem; mas os mortais os narram para que esses infortúnios jamais cheguem ao seu fim, e que seu término fique longínquo das palavras, lá onde elas enfim cessarão, elas que não querem se calar." (FOUCAULT, 2009, p.48).


A linguagem está ligada à morte por uma relação ambígua, ao mesmo tempo em que ela necessita da aproximação com o vazio da morte (a partir do qual se fala) para poder seguir seu caminho ao infinito, por outro lado, busca da própria morte um afastamento também infinito; esta relação não seria outra coisa que a manutenção infinita da própria linguagem estendendo a vida para além dos limites da morte. "É bem possível que a aproximação da morte, seu gesto soberano, sua proeminência na memória dos homens cavem no ser e no presente o vazio a partir do qual e em direção ao qual se fala" (FOUCAULT, 2009, p.48).
Se pensarmos nessa continuidade infinita da própria linguagem (a linguagem indo além dos limites da morte), percebermos o quanto a linguagem pode estar livre das determinações individualizantes do Eu. O sujeito, o Eu e a consciência de si só podem ser pensados a partir de um limite, de uma identidade, mas a linguagem, ultrapassando toda determinação, pode ser pensada ao infinito.
O pensamento do exterior ou do fora
Reconhecendo a importância e a influência de Blanchot sobre seu próprio pensamento, Foucault escreve, em 1966, um belíssimo texto intitulado "O pensamento do exterior". Analisaremos algumas de suas principais ideias.

"Penso, logo existo". Nesta frase, Descartes revela a certeza indubitável do Eu. Sabemos da força deste princípio cartesiano junto à Filosofia. Em verdade, a Filosofia é, e muito, tributária deste princípio. Até hoje, mesmo depois do grande abalo ocorrido a partir do pensamento dos três grandes filósofos da suspeita, Nietzsche, Freud e Marx, a ideia de um Eu, de um sujeito, de uma consciência de si, que acompanha toda experiência é ainda, para muitos, uma certeza inquestionável. Assim, a Filosofia Cartesiana afirma-se como a Filosofia do Sujeito, estabelecendo o sujeito como instância imprescindível para a relação entre homem e mundo. Mas será possível experimentar algum tipo de pensamento em que o sujeito possa estar ausente?
Talvez, o que mais encantou Foucault ao ler Blanchot foi exatamente esta experiência de dessubjetivação. A abertura oferecida pela literatura de Blanchot revela um espaço neutro no qual a unidade subjetiva do eu já não está presente. Foucault repetiu inúmeras vezes que a constituição do sujeito - por mais que isso não apareça de forma explicita - foi sempre o objeto, o assunto, o pano de fundo de suas diferentes fases de pesquisas. Assim, Foucault vai buscar na Literatura, e em especial nas obras de Blanchot, a possibilidade de se pensar um espaço neutro, espaço em que há uma elisão do sujeito, em que o Eu se apresenta destituído de toda a sua hegemonia imposta pela tradição.
Habituou-se a crer que a Literatura Moderna caracterizase por um redobramento que lhe permite designar-se a si mesma: nessa autorreferência ela teria encontrado o meio, ao mesmo tempo de se interiorizar ao extremo (de ser apenas o seu próprio enunciado) e de se manifestar no signo cintilante de sua longínqua existência
Para explicar a diferença entre o pensamento do interior, em que o Eu (ou o sujeito) se reconhece ou se representa como unidade subjetiva da experiência, e o pensamento do exterior, onde essa unidade subjetiva se dissolve e se apaga, serão analisadas duas formas de discurso: "Eu penso" e "Eu falo". No primeiro caso, há uma presença de um sujeito que se representa como figura soberana, é o sujeito cartesiano, inquestionável pela própria certeza do pensar. No segundo caso, algo de muito diferente acontece. No "Eu falo", diz Foucault, "há um vazio que circunda o próprio discurso afirmando seu caráter transitivo, de passagem". Ou seja, no "eu falo", tudo o que existe é a própria linguagem enquanto linguagem, o vazio a circunda tanto no instante anterior quanto no instante posterior ao seu discurso. Esse estado fugaz, de falta de conteúdo e fragilidade é menos uma fraqueza da linguagem do que a possibilidade de abertura para um espaço infinito que, ao invés de fundamentar a presença indispensável de um sujeito, o dispensa, pois neste espaço de "pura linguagem" não há lugar para o estabelecimento de algo que não seja ela mesma, a própria linguagem.
Segundo Foucault, pensa-se ingenuamente que a Literatura Moderna é uma forma de linguagem que apresenta como característica principal um fechamento, um redobrar-se em si mesma, que lhe seria natural. "Habituou-se a crer que a Literatura Moderna caracteriza-se por um redobramento que lhe permite designar-se a si mesma: nessa autorreferência ela teria encontrado o meio, ao mesmo tempo de se interiorizar ao extremo (de ser apenas o seu próprio enunciado) e de se manifestar no signo cintilante de sua longínqua existência." (FOUCAULT, 2009 p. 220).
Tal afirmação desconhece que, numa abordagem menos superficial, percebe-se que a literatura possui uma linguagem que se afasta de si mesma. A linguagem neste contexto "coloca-se fora de si", dispersa-se, afasta-se fazendo com que o sujeito da literatura "o que fala nela e aquele sobre o qual ela fala" se torne menos positividade e substancialidade, e sim, vazio, ausência que se revela no "eu falo". "Na escrita, não se trata da manifestação ou da exaltação do gesto de escrever; não se trata da amarração de um sujeito em uma linguagem; trata-se da abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não para de desaparecer." (FOUCAULT, 2009. p. 224).
Ficção e verdade
Se antigamente tratava-se de encontrar a verdade por meio da linguagem, hoje, diz Foucault, torna-se necessário pensar a ficção. Pensar a ficção é pensar os caminhos que a Literatura Moderna tomou, distanciando a linguagem cada vez mais de si mesma, se a linguagem era determinada em sua origem a ser mito ou retórica, agora, alcança uma exterioridade que a faz afastar-se de si mesma. Segundo Foucault, o momento inaugural da Literatura ocorreu no final do século 18 com o aparecimento das obras de Sade e dos romancistas do terror. Foi a partir dessas obras que uma nova língua pôde surgir. Estas obras trazem tipos de linguagens que são forçadas a sair para fora de si. São linguagens que se representam a si mesmas. Elas tratam do "indizível", do "gesto sem palavra", do "estupor", do "êxtase".

A tradição de eu penso, afirmava a existência de um sujeito, de um eu interior. Essa tradição ao afirmá-lo estabeleceu também o lugar do objeto, fixando uma forte soberania daquele sobre este. Essa estrutura delimitou o pensamento, estreitando possibilidades, fixando relações. Todas as imagens deixadas por Blanchot não possuem poder em si mesmas, mas, ao contrário, é por meio dos espaços e dos desvios deixados por elas que o vazio se faz presente afirmando o eu falo como ficção. É somente neste espaço que a ficção pode surgir, sem sujeito, sem objeto, pura linguagem de matéria invisível. Todas as múltiplas imagens utilizadas por Blanchot, quartos, corredores, lugares fechados ou proibidos, se apresentam menos pela sua referência concreta e espacial e mais por apresentarem o negativo, a ausência e o vazio. "O fictício não está nunca nas coisas nem nos homens, mas na impossível verossimilhança do que está entre eles: encontros, proximidades do mais longínquo, absoluta dissimulação lá onde nós estamos." (FOUCALT, 2009, p. 225).
Bataille
Georges Bataille (1897- 1962) foi um filósofo francês celebrado por toda uma geração de pensadores, de Michel Foucault a Jean Baudrillard. Publicou, entre outros, História do olho (Cosac Naify, 2003).

Radio France 2012

Em Blanchot, o discurso possui um modo de ser específico que se dirige para o vazio, para o ausente, para o espaço, afastando-se assim do pensamento interior que reivindica um Eu. E é nesse movimento que o discurso pode caminhar para o próprio ser da linguagem, para o pensamento do exterior. Para Foucault, o ser da linguagem só pode efetuar sua existência na medida em que há um desaparecimento do sujeito. O próprio termo "exterior" se diz a partir de um sujeito, de um Eu, que não reconhecem em si mesmos o discurso ausente, vazio e invisível pertencente à linguagem.
O discurso reflexivo e a experiência do exterior
É possível uma linguagem que possa expressar esta experiência do exterior? A linguagem reflexiva tende a reduzir a experiência do exterior à dimensão da interioridade. Foucault descreve o discurso reflexivo como incapaz de se separar da experiência de uma consciência determinada à "experiência do corpo, do espaço, dos limites do querer, da experiência indelével do outro". Assim é necessário se pensar em uma outra linguagem que possa expressar aquilo que a linguagem reflexiva é incapaz de fazer. Esta outra linguagem não deve buscar sua própria certeza em uma instância interior (em uma consciência, em um sujeito, em uma vontade, etc.), mas sim em seu limite onde o vazio, e não a positividade, é o lugar em que a negação do próprio discurso marca o movimento para um exterior. "Negar o seu próprio discurso (...) é fazê-lo incessantemente passar para fora de si mesmo, despojá-lo a cada instante não apenas daquilo que ele acaba de dizer, mas do poder de enunciá-lo." (FOUCAULT, 2009 p.224).

É importante não esquecermos a influência da Literatura em Foucault a partir, também, de outros autores que, como Blanchot, o influenciaram de forma decisiva, mas que não foram citados aqui, pois fugiriam da perspectiva deste trabalho. Autores como Bataille, fornecendo uma experiência fundamental do homem com o seu "limite", ou de Nietzsche que mostra a descontinuidade do "Além do homem", entre outros, foram figuras caríssimas para a própria constituição da filosofia de Foucault.
Henrique Iafelice é graduado e mestrando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
E-mail: hiafelice@yahoo.com.br

Referências
FOUCAULT, Michel. Prefácio à Transgressão. Ditos e Escritos III. Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Trad. Inês Autran Dourado Barbosa. 2 ed. Rio de janeiro: Forense Universitária. 2009. ps 219-241.
__________. Linguagem ao Infi nito. Ditos e Escritos III. Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Trad. Inês Autran Dourado Barbosa. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2009. ps 47-59
___________. O que é um Autor? Ditos e Escritos III. Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Trad. Inês Autran Dourado Barbosa. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2009. ps 264-298.
HUISMAN, Denis. Dicionário dos Filósofos. Trad. Claudia Berliner, Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes. 2001






quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O JOVEM SÓCRATES
LANÇAMENTO SEXTA-FEIRA (16/11) AS 19:30
ESTANDE 92 -EDITORA EDJOVEM
X BIENAL DO LIVRO DO CEARÁ

domingo, 16 de setembro de 2012

Coleção Um Novo Olhar Filosófico


Autor: Nonato Nogueira

Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 6º ano - Fundamental 1
Formato: 20,5 x 27,5
Sobre a obra: Através da investigação, este livro coloca o aluno do 6o Ano em contato inicial com o saber filosófico. Apresenta uma definição do que seja filosofia, na sua origem, e define de forma bastante clara o perfil do filósofo. Seu traçado permitirá aos alunos explorar a evolução da filosofia, com vistas a despertar o filósofo existente em cada um deles, levando-os a questionar a si próprio como ser pensante
Autor: Nonato Nogueira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 7º ano - Fundamental 1
Formato: 20,5 x 27,5
Sobre a obra: Este livro amplia e aprofunda os conteúdos abordados no livro anterior desta coleção, à medida que faz um traçado histórico da evolução da filosofia, levando em consideração os primeiros filósofos, as diversas formas de conhecimento, a aparente discrepância entre ciência e filosofia e as diferentes correntes de pensamentos, concluindo com o conceito do que é a lógica. Portanto, vê-se claramente que o objetivo deste compêndio é despertar o poder intelectual dos alunos, por expandir-lhe a capacidade cognitiva, incentivando-os a investigar, questionar, refletir e discutir sobre os diversos aspectos filosóficos.

Autor: Nonato Nogueira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 8º ano - Fundamental 1
Formato: 20,5 x 27,5
Sobre a obra: À medida que o saber filosófico passa a fazer parte da vida dos alunos, é inevitável que eles lancem um outro olhar sobre o mundo ao seu redor, predispondo-se a transformar a experiência vivida em experiência compreendida. Pensando nesse processo, este livro ajudará os alunos do 8o Ano a investigar fundamentos importantes, próprios do seu universo a ser desvendado, como a ética (que envolve ato moral, virtudes e vícios, valores sociais, etc.), a liberdade humana, o amor e a paixão, a adolescência e suas facetas e a sexualidade, fase intermediária do desenvolvimento humano. 
Autor: Nonato Nogueira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 9º ano - Fundamental 1
Formato: 20,5 x 27,5
Sobre a obra: Neste estágio, o último livro da Coleção Um Novo Olhar Filosófico confronta o ato de filosofar com a realidade vivenciada pelo ser humano. Focaliza a atenção do aluno na relação existente entre o mundo do trabalho e a sociedade do consumo. Conduz o aluno na investigação sobre a política e o poder, a força e a atuação do homem enquanto ser (ou ente) político. Estabelece também, no mundo das artes, a relação entre o belo e o feio. Trata, ainda, da diferença conceitual de cidadania dos tempos antigos com a cidadania dos nossos dias.

DISTRIBUIDORES DA EDITORA EDJOVEM

EDITORA EDJOVEM LTDA
Rua Vicente Leite, 2900 - Parque Adahil Barreto
Cep.: 60.170-151 - Fortaleza/Ce.
CNPJ: 09.698355/0001- 57
Tel.: (85) 3257 4596
http://www.editoraedjovem.com.br/
E-Mail: editoraedjovem@hotmail.com
VENDA DIRETA
Fones: (85) 3257-4596/3257- 4996
FAX: (85) 3257-4596DISTRIBUIDORES REGIÃO NORDESTE CEARÁ EDITORA MUNDIAL Av. Filomeno Gomes, 670 - JacarecangaCep. 60010-281Fortaleza/Ce Tel (85) 3238-2323E-mail: mundialceara@uol.com.br CASA DO PROFESSORRua Soriano Albuquerque, 330Cep.60130-160Fortaleza/CEFone/Fax: (85)3099.2112E-mail: casadoprofessor@live.com PIAUÍ   EDITORA MUNDIAL Rua Albertino Neiva, 2176 –São JoãoCep. 64-002-280Fones: (86) 3221.3998Teresina- PIE-mail: mundialp@uol.com.br

PARAÍBA

MDL DIST. DE LIVROS LTDA.
Rua Joaquim Nabuco, 163- Roger
Cep: 58020-510 – João Pessoa -PB
FONE: (83) 3222.1166
  
MARANHÃO
MUNDIAL EDITORA LTDA
Av. Getúlio Vargas, 181- Apeadouro
Cep: 65040-000 – São Luís –MA.
FONE: (98) 3243.0353
 IMPERATRIZ – MAMUNDIAL DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDARua Rafael  de Almeida Ribeiro, 25 A- São SalvadorCep: 65903-405 – Imperatriz – MAFone: (99) 3072.0409 / 9651.2628E-mail: marivaldocardoso@yahoo.com.br 
ALAGOAS

D.P. COMÉRCIO E REP. DE LIVROS LTDA.
Parque Gonçalves Lêdo, 08 – C. Farol
Cep: 57051-340 Maceió – AL
Fone: (82) 3336.8277

BAHIA

PAROLE COM. E REP. DE LIVROS LTDA.
Rua Machado de Assis, 16 – Brotas
Cep: 40285-280 — Salvador –BA
Fone: (71) 3277.8621
E-mail: vendas@parolebooks.com 
RIO GRANDE DO NORTE

MUNDIAL EDITORA LTDA.
Av. Rio Branco, 414 – Cidade Alta
Cep: 59025-000 – Natal – RN
Fone: (84) 3211.0790
 
SERGIPE

JP LIVROS E PRESENTES LTDA
Praça Olimpio Campos, 697 – Centro
Fone: (79) 3211.2018/ 3214.0514
Cep: 49010-040 – Aracaju - SE
  REGIÃO NORTE 
PARÁ

SOMENSI UNO CONSTRUÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E SERVIÇOS LTDA
Rua Tv São Pedro, 406
Cep: 66023-540 – Belém – PA
Fone (91) 4006.5666

TOCANTINS

TOCANTINS EDUCATIVA DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA
104 Norte Conj. 02 Lote 02- Salas 01 e 02
Cep: 77006-208 – Palmas – TO
Fone: (63) 3213.1303

 
REGIÃO SUDESTE

ESPÍRITO SANTO

REPRESENTAÇÕES PAULISTA LTDA.
Av. José Martins M. Rato, 947 – B. de Fátima
Cep: 29160-790 – Serra – ES
Fone: (27) 3204.7474

MINAS GERAIS

RHJ LIVROS – BELO HORIZONTE
Rua Cuiabá, 415 – Prado
Cep: 30410-140 – Belo Horizonte - MG
FONE: (31) 3334.1566 – FAX: (31) 3332.5823

RHJ LIVROS – UBERLÂNDIA
Rua Espírito Santo, 1100 – Bairro Brasil
Cep: 38400-660
Fone: (34) 3211.7004 – FAX: (34) 3211.7008

RIO DE JANEIRO

SOLÊRIO DIST. E COM. DE LIVROS LTDA.
Rua da Carioca, 33 – Centro
Cep: 20050-008 – Rio de Janeiro –RJ
Fone: (21) 2210.5101 –FAX(21) 2241.4748

SÃO PAULO

PLANET BOOKS LTDA.
Rua dos Trilhos, 2201 – Moóca
Cep: 03168-010 – São Paulo - SP
Fone: (11) 2976.8868 – FAX:( 11) 2076.8869

REGIÃO CENTRO-OESTE

DISTRITO FEDERAL

RHJ LIVROS
SCRLN, 706/707 – Bloco E Loja 28
Cep: 70740-707 – Brasília - DF
Fone: (61) 3349.6062 –FAX :(61) 3349.0309

GOIÁS

RHJ LIVROS
Rua 70, 386 – Quadra 125 – Lote 40 Setor Central
Cep: 74055.120 – Goiânia -GO
Fone: (62) 3213.3300 – FAX: (62) 3223.7498

MATO GROSSO DO SUL

ALUÍSIO PAULO B.F. DE C. FILHO
Rua Maracajú, 607 – Vila Cidade
Cep: 79002-210 – Campo Grande - MS
Fone: (67) 3321.1077

REGIÃO SUL

CATM COMÉRCIO DE LIVROS LTDA
Rua Santo Antônio, 590 — Rebouças
Cep. 80.230-120 — Curitiba-PARANÁ
Fone: 413306.1000

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Beleza como valor universal


Na contramão do que vem sendo produzido em grande parte do meio artístico na atualidade, o filósofo inglês Roger Scruton clama pela retomada da beleza como critério universal






A estética é o ramo da Filoso- a que, entre outros temas, ocupa-se do belo. Contudo, e como muitos – inclusive pessoas sem conhecimento especí co de estética ou de técnica artística – têm observado, um curioso fenômeno vem ocorrendo nos últimos 150 anos: o conceito de obra de Arte (outro tema do qual a Estética trata) se estendeu consideravelmente: tijolos, camas desarrumadas, mictórios, copos são considerados obras de Arte pela comunidade especializada, expostos em museus e alvo de olhares tanto admirados quanto espantados. Seja qual for a nova de nição de obra de Arte, ela certamente não inclui a beleza como critério indispensável e eliminatório.
Muito provavelmente todos já tiveram a experiência de, ao estar diante de algumas obras de movimentos que podemos reunir sob o nome de “modernistas”, ser preenchido por um sentimento de estranheza. Isso porque essas obras, na maior parte das vezes, não primam pelo tradicional e universal critério da beleza. Podem ser até feias ou simplesmente não ter sentido algum. Por isso, o passo seguinte de quem as vê é rejeitar essas obras e não considerá-las Arte. Essa é a reação do apreciador comum, que os adeptos de correntes artísticas modernas atribuem à incompreensão ou ao preconceito.

André Assi Barreto é Bacharel em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (USJT) e Mestrando em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Professor de Filosofia da Escola Estadual Sapopemba www.andreassibarreto.org
Não é isso, porém, que pensa o filósofo inglês Roger Scruton (1944). Ele, que se dedica a essa questão, faz apologia da beleza e clama pela retomada do belo. E faz isso especialmente em duas de suas obras: um documentário encomendado pela BBC, Why Beauty Matters?¹ e o livro Beauty². Para sustentar sua posição, Scruton remete-se a uma longínqua tradição de filósofos: vai de Platão a Kant, passando pelo conde de Shaftesbury, que influenciou o pensamento de Kant. Também relembra que o objetivo da Arte, seja ela expressa em Poesia, Música, Artes Plásticas e até mesmo Arquitetura, para qualquer pessoa letrada que viveu entre os séculos XVII e XIX era a busca da beleza, um valor, segundo o filósofo, universal, equivalente ao bem e à verdade. É importante destacar essa lembrança, tendo em vista que Scruton é um pensador de matriz conservadora e pretende restabelecer parte da ordem de uma certa tradição (leia o box desta página).


A reflexão proposta por Scruton é, como ele próprio enfatiza, estritamente filosófica. Poderia ter um viés tanto psicológico quanto evolucionista3 para explicar a estética, mas, como mostraremos no tópico “A beleza como inerente à natureza humana”, Scruton fundamenta sua concepção estética em termos exclusivamente filosóficos.
Um dos motes para exemplificar sua argumentação é o clássico Urinol do francês Marcel Duchamp (1887-1968). Duchamp assinou um Urinol com um nome fictício e o expôs como obra de Arte, inaugurando a tendência que é alvo da crítica de Scruton. A partir do século XX, assevera Scruton, a Arte deixou de buscar a beleza e passou a promover um culto à feiura, além de ter por objetivo a originalidade a todo custo. Tal tendência não se restringiu apenas às artes plásticas, mas também tomou conta da arquitetura4, que se tornou “desalmada e estéril”, o que, na avaliação de Scruton, explica a quantidade de prédios abandonados e depredados na Grã-Bretanha e a popularidade de pequenos comércios, instalados em prédios construídos nos moldes da arquitetura vitoriana. Em seu documentário, Scruton rememora, com saudosismo, a cidade onde nasceu, um típico vilarejo com construções vitorianas.
O lósofo inglês considera que vivemos em uma época egoísta, individualista ao extremo, em que cada um está ocupado exclusivamente em garantir o próprio prazer. Por mais de dois mil anos, segundo ele, a Arte serviu como remédio para os problemas da sociedade, uma maneira tanto de relatar como de escapar da infelicidade da vida cotidiana; atualmente, em vez disso, a beleza foi posta de lado e a Arte não serve de refúgio, mas dá suporte ao egoísmo dos nossos dias. Roger Scruton aponta o culto à feiura e o pragmatismo como as principais causas do problema.
NO LIVRO A Condição Humana, Hannah Arendt pensa a obra de Arte como fonte imediata da capacidade humana de pensar. Para ela, tal capacidade transforma a dor inarticulada do animal humano em forma polida que transcende e transforma o sentimento primevo e simboliza o ser no mundo
O CULTO À FEIURA E O PRAGMATISMO
Dois cultos são responsáveis, de acordo com Scruton, por essa tendência da Arte moderna, que virou as costas para a beleza: o culto à feiura e o culto ao valor prático das coisas. No primeiro caso, argumenta ele, a Arte, ao abandonar a beleza, perdeu seu principal objetivo, o de fazer com que atribuamos sentido à vida, nos consolando das tristezas, como para Platão, ou ainda, como defendiam os filósofos iluministas, ajudando a galgar alguns degraus da escadaria que nos conduz para longe das banalidades do cotidiano.
A partir de um momento decisivo da história da Arte, a beleza teve sua importância diminuída. O propósito da Arte deixa de ser atribuir sentido à vida e é substituído pelo desejo de causar impacto a todo custo. O caminho mais curto para isso, de acordo com Scruton, foi romper com a moral tradicional e estabelecer o escárnio moral. A quebra de tabus passou a ser a bandeira da Arte dita moderna: profanar e dessacralizar o sacro, cultuar o feio, levando todos, dos especialistas ao apreciador comum, à total confusão. Isso se deve a uma concepção de Arte equivocada, dpresente no discurso de parte da crítica: “O repúdio à Beleza ganha força com base em uma visão particular da Arte moderna e de sua história. De acordo com muitos críticos atuais, um trabalho de justi ca a si próprio ao anunciar-se como um visitante do futuro. O valor da Arte está em chocar: a Arte existe para nos despertar de nossa situação histórica e nos lembrar da interminável mudança, que é a única coisa permanente na natureza humana”5.
Já o culto ao valor prático das coisas levou ao estado atual, que, por sua vez, faz com que o valor das coisas resida na sua utilidade prática – o chamado pragmatismo6. Scruton menciona em seu documentário que Oscar Wilde já a rmava que “toda Arte é inútil”, mesma posição de Hannah Arendt. A beleza (e a Arte) não têm utilidade, mas é justamente por isso, enfatiza Scruton, que podemos ressaltar sua importância como valor universal; valor que, no entender do lósofo inglês, está enraizado na própria natureza humana. Com isso ele remete sua apologia da beleza a Shaftesbury e a Kant.

O OBJETIVO DA ARTE, SEJA ELA EXPRESSA EM SUAS DIVERSAS FORMAS, ERA A BUSCA DA BELEZA, UM VALOR, SEGUNDO SCRUTON, UNIVERSAL, EQUIVALENTE AO BEM E À VERDADE

O filósofo das “causas perdidas”
Roger Scruton nasceu em 1944, na Inglaterra. É graduado em Filosofia pela Universidade de Cambridge. Seus interesses se concentram na estética e o conservadorismo, como indicam seus livros The Meaning Of Conservatism (1980), Thinkers Of The New Left (1986), Conservative Texts (1992) e A Political Philosophy: Arguments for Conservatism (2006). Na estética, os mestres de Scruton são Platão e Kant; este último é considerado por ele um dos maiores filósofos de todos os tempos. O conservadorismo do filósofo inglês inspira-se em Edmund Burke, é uma nostalgia da ordem aristocrática pré-moderna (ou, ao menos, pré-Segunda Guerra). Reconhece a si próprio como reacionário, embora tenha rejeitado a militância política. Como definiu o jornal inglês The Guardian, Scruton, como qualquer reacionário, é um “santo padroeiro das causas perdidas”. É autor de inúmeros livros de elevada qualidade que vão muito além da estética (obras que versam inclusive sobre Filosofia da música, pouco conhecida do leitor brasileiro) e do conservadorismo. Escreveu sobre história da Filosofia, a arte da caça, o pessimismo, os valores da Inglaterra e a supremacia da cultura ocidental. Scruton é altamente rejeitado pela intelligentsia acadêmica, especialmente por sua posição conservadora, sua rejeição explícita do multiculturalismo e suas críticas ferrenhas aos gurus da esquerda contemporânea, mormente francesa (Michel Foucault, Jacques Derrida, entre outros).


A Primavera, têmpera sobre madeira de Sandro Botticceli (1445-1510), é um exemplo clássico da beleza necessária à obra de Arte, conceito defendido pelo filósofo Roger Scruton
 
A QUEBRA DE TABUS PASSOU A SER A BANDEIRA DA ARTE DITA MODERNA: PROFANAR E DESSACRALIZAR O SACRO, CULTUAR O FEIO, LEVANDO TODOS À TOTAL CONFUSÃO

Scruton critica o Urinol de Marcel Duchamp dizendo tratar-se de um “culto à feiura”, que tira da Arte o objetivo de dar sentido à vida e embelezar o cotidiano
A fruição estética é uma atividade desinteressada e, portanto, inútil. Mas isso desmerece em algum sentido a contemplação? Não, no mesmo sentido em que a amizade, o amor, o ato de ouvir uma música ou ainda o sorriso de um bebê, embora não tenham “utilidade prática”, não perdem seu valor nem passam a ser coisas que dispensamos sem sofrer algum tipo de consequência. Mesmo sem ter uma utilidade prática de nida, você já se imaginou sem amor, sem amizade, sem apreciar boa música, bom cinema? Ou, lembrando de novo a arquitetura – inútil, da perspectiva pragmatista –, não nos sentimos muito melhor em um prédio belo? A busca das pessoas, na Grã-Bretanha, de prédios construídos no período vitoriano não corroboraria essa hipótese?
O segredo da Arte tradicional, que servia de bálsamo para a vida, era a valorização da criatividade, ao passo que os movimentos artísticos atuais primam pela exaltação do banal e pela quebra de tabus morais, o que conduz, em primeiro lugar, à impressão e depois à óbvia certeza a que todos, nós e Scruton, chegamos: boa parte do que aí está, e que vem sendo considerado obra de Arte, não o é. Algo não é transformado em Arte, num passe de mágica, por reproduzir as frivolidades cotidianas (como An Oak Tree, de Michael Craig, 1973, que mostra um copo sobre uma prateleira de vidro, ou My Bed, de Tracey Emin, 1998, que é uma cama desarrumada). E nada pode ser chamado obra de Arte por decreto verbal do artista. Para que a Arte retome sua trilha, defende Scruton, é preciso que ela retorne para a beleza, como foi prescrito por lósofos e praticado por artistas de uma tradição de mais de dois mil anos.

L’Estasi di Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), é outra obra que se encaixa no conceito de belo de Scruton. Para o filósofo, não existiria gosto estético “melhor” ou “pior”. Todos teriam como referência um padrão de beleza comum à humanidade.
ADEUS À RAZÃO?
A crítica de Scruton não se limita à Arte, mas repousa sobre um diagnóstico muito mais amplo, que também é marca registrada de nossa época: o desprezo à razão7, tão valorizada pelos lósofos iluministas em especial e pelos modernos em geral. Deixam de existir os critérios universais – sejam lógicos ou de gosto – e todas as opiniões passam a ser igualmente válidas, todas as culturas expressam formas de conhecimento igualmente dignas de consideração e têm o mesmo valor epistêmico. Grosso modo: trata-se do relativismo radical apregoado pela maior parte dos lósofos pós-modernos, que também são alvo da crítica feroz de Scruton, como Gilles Deleuze, Felix Guattari, Michel Foucault e Richard Rorty.
Certamente que, num mundo onde a Ciência é considerada apenas o mito da nossa era, líderes religiosos islâmicos e prêmios Nobel são autoridades dignas de igual atenção tanto em matéria de física como de biologia, pois, a nal, há apenas o choque de culturas, nem “nossa” cultura está certa em permitir que homens e mulheres votem, tampouco a cultura islâmica está errada em des gurar a face das mulheres adúlteras com ácido, trata-se apenas de culturas diferentes, dignas de igual respeito e consideração. Qualquer coisa diferente disso não passa de “preconceito ocidentalista”, argumenta Scruton em algumas de suas obras e artigos.
Inserindo a discussão estética nesse contexto mais amplo, ca claro que não há o menor espaço para a admissão de um gosto estético “melhor” ou “pior”, alega Scruton; só existiriam gostos estéticos (sempre no plural). Se o seu diz que uma lata contendo excrementos (Artist’s Shit, de Piero Manzoni, 1961) é Arte, quem são todos os outros para dizer que não? Isso porque não há verdadeiro ou falso, não há bem ou mal, certo ou errado; se nada disso existe, por que haveria espaço para o bom ou para o mau gosto estético?
Estética e beleza
Sendo a Estética (ou Filosofia da Arte) o ramo da Filosofia ocupado com os problemas levantados pela Arte, com considerações sobre a beleza e com as demais formas de expressão da cultura, ela procura responder a perguntas como “o que é Arte?”, “o que é uma obra de Arte?”, “o que é o belo?” Procura, também, analisar as questões surgidas na busca de respostas a essas perguntas e nas próprias respostas. O substantivo foi introduzido da literatura filosófica por Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762) em 1750 com um livro homônimo (Aesthetica)¹.
A beleza, objeto de estudo da estética, é assim tratada por Scruton: “A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada, profana, pode ser hilariante, atraente, inspiradora, reservadamente. Afeta-nos numa ilimitada variedade de maneiras. Contudo, nunca é vista com indiferença: a beleza demanda que seja anunciada, fala diretamente a nós como a voz de um amigo íntimo. Se existem pessoas que são indiferentes à beleza, então isso se deve claramente ao fato de elas não a perceberem”².
¹Abagnanno, Dicionário de Filoso a, 2007, p. 426.
² Beauty, 2009, p. IX. Tradução nossa.

EM UM CONTEXTO NO QUAL TUDO É PERMITIDO, É ESSENCIAL CENSURAR O PROIBIDOR, É UM TOTALITARISMO QUE EXCLUI TUDO AO SEU REDOR, EXCETO OS RELATIVISTAS

Artist’s Shit, do italiano Piero Manzoni (1933- 1963), um dos precursores da Arte Conceitual. Manzoni costumava trabalhar com material “natural” com o objetivo, explicou, de “dar forma concreta a valores autênticos”
Trata-se de um apelo colossal a um subjetivismo totalitário, afirma Scruton. Totalitário em que sentido? Nem mesmo os proponentes do relativismo acreditam no que propõem, pois são os primeiros a censurar aqueles que os reprovam. Se todos os gostos estéticos são igualmente válidos, por que se brada contra os que têm um gosto estético fundado na beleza? É muito simples, afirma Scruton: num contexto em que tudo é permitido, em que nada é proibido, é essencial proibir, censurar o proibidor. É um totalitarismo que exclui tudo ao seu redor, exceto os relativistas.
Mas quais as razões que levam Scruton a rejeitar o subjetivismo estético? Como veremos a seguir, ele considera que a beleza é um valor, dentre alguns outros, que estão enraizados na natureza humana.

Artist’s Shit, do italiano Piero Manzoni (1933- 1963), um dos precursores da Arte Conceitual. Manzoni costumava trabalhar com material “natural” com o objetivo, explicou, de “dar forma concreta a valores autênticos”
BELEZA INERENTE À NATUREZA HUMANA
Talvez soe demodé falar de natureza humana hoje em dia8, quer em relação à Filoso a, quer no campo cientí co, mas a argumentação de Scruton segue esse caminho e indica que tanto a busca como a necessidade da beleza são marcas indeléveis da natureza humana. Como uma das características essenciais da natureza humana é a racionalidade, é justamente na busca racional da beleza, autorizada por nossa natureza, que podemos fugir do subjetivismo estético característico de nossa época: “Nenhum gosto pode ser criticado, (...) já que criticar um gosto nada mais é do que dar voz a outro”9. Na contramão dessa a rmação, Scruton argumenta em Beauty que os juízos estéticos têm uma fundamentação racional e, portanto, objetiva. Tanto o subjetivismo estético, “todos os gostos são equivalentes”, como o ceticismo, “não há verdade nem falsidade, erro nem acerto em relação à estética” são peremptoriamente rejeitados por Scruton.
A beleza não entra em competição ou nem sempre, necessariamente, está lado a lado com a bondade. Mas nossa incansável busca da beleza enraíza ambas em nós e nos de ne como humanos: “A beleza está, portanto, rmemente enraizada no esquema das coisas, tal como a bondade. Ela fala a nós, tal como a virtude fala a nós; trata-se de um preenchimento: não de coisas que desejamos, mas de coisas que devemos fazer, porque a natureza humana as requisita10.
Tal como as formas a prori da razão, apresentadas por Kant na Estética Transcendental, a beleza seria uma característica que nos de ne como sujeitos racionais, capazes de compreender o mundo. Tanto sua busca como sua concretização nas mais variadas formas de Arte são necessidades imprescindíveis a todo ser humano. De modo que abdicar da busca da beleza, como a Arte moderna faz, é abrir mão de uma herança cultural riquíssima, é tornar a vida mais difícil, mais cinzenta, fazendo com que a principal função da Arte – fornecer consolo para o cotidiano, como já foi dito aqui – se perca.

A natureza do feio
Se a discussão sobre a natureza da beleza já remonta mais de dois milênios, a feiura foi, em comparação, muito pouco pensada, tendo sido, inúmeras vezes definida apenas como o “oposto do belo”. Entretanto, assim como seu antípoda, o feio tem características próprias e particulares. Para dar uma face ao feio, o filósofo e prolífico escritor italiano Umberto Eco (1932-) produziu sua História da Feiura, que, irônica e sintomaticamente, só veio depois de sua História da Beleza. A obra explora o “feio, que é relativo ao tempo e a cultura”. Daí observa-se em progressão histórica, em um livro verdadeiramente pictográfico, a lendária feiura de Sócrates contrastada com sua beleza interior além do ícone do horror absoluto da antiguidade: a Medusa. No intuito de ilustrar a feiúra medieval, Eco seleciona uma sequência artística com os três principais tópicos do imaginário cristão da época, sendo elas figuras que mostram o inferno e o demônio, representações da morte e a corporalidade e o sofrimento de Cristo e dos mártires. Uma conclusão é tomada já que feio é, na maioria das vezes, relacionado ao medo. Mas é na última parte do livro que o autor abre o jogo e conceitualiza o que ele quer dizer com feiura. E usa como exemplo esclarecedor o trítono, que é o intervalo entre notas musicais proibido na Idade Média. Isso porque se dizia que ele evocava diabolus por conta da tensão e excitação causada nos ouvintes. Logo, o feio é o que causa tensão, algo explicitado no livro por uma fala de George Romero, diretor do filme clássico e atual em suas escolhas estéticas A noite dos Mortos Vivos.

1Por que a beleza importa?, 2009.
2O livro, lançado em 2009, ainda não tem tradução para o português.
3A despeito da rejeição de Scruton, para os interessados nessa perspectiva sugerimos o lósofo Dennis Dutton, na palestra “A darwinian theory of beauty”. Ver Referências.
4Scruton também tem um excelente livro, este traduzido para o português, sobre arquitetura, intitulado Estética da Arquitetura (Lisboa: Edições 70, 2010).
5 Beauty, 2009, p. 169. Tradução nossa.
6A referência é o pragmatismo atribuído ao lósofo estadunidense Richard Rorty (1931-2007).
7A posição de Scruton pode ser melhor compreendida com a leitura do texto
“What ever happened to reason” de 1999.
8Ou nem tanto, se levarmos em consideração o trabalho esplendoroso do canadense Steven Pinker, psicólogo, professor e pesquisador de ciências cognitivas em Tábula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana.
9Beauty, 2009, p. IX, tradução nossa.
10Idem, p. 147, tradução e grifo nossos.

FONTE: http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/Edicoes/73/artigo265049-2.asp

sábado, 17 de março de 2012

Heidegger e a metafísica do "nada"

      O presente artigo trata fundamentalmente da importância de se entender o nada negligenciado pela ciência e até por nós mesmos, segundo o pensamento de Martin Heidegger. Para tanto, tomaremos por base uma preleção realizada por esse pensador em 14 de julho de 1929 como aula inaugural que atendia o convite de ocupar a cátedra de Filosofia em Freiburg, preenchendo a vaga de seu mestre a Edmund Husserl. Na oportunidade, Heidegger "realiza uma analítica da existência científica e a partir dela procura responder o que é metafísica. Não define a metafísica". (STEIN in HEIDEGGER, 1999, p. 45). Ele diz ser mais fácil apresentar a todos a própria metafísica desenvolvendo uma questão que os situassem no seu interior.
Para tal intento, Heidegger resolve expor, inicialmente, o que caracteriza uma questão metafísica. Em primeiro lugar, "toda questão metafísica abarca sempre a totalidade da problemática metafísica". (HEIDEGGER, 1999, p. 51). Em segundo lugar, toda questão metafísica problematiza o indivíduo que a questiona (HEIDEGGER, 1999).
 O "nada" constituiu-se em uma (angustiante) questão metafísica no pensamento heideggeriano, principalmente quando se analisa a primeira fase da obra do filósofo alemão. 

      Fica claro que uma questão genuinamente metafísica remete a toda metafísica, inclusive, apesar de transcender o indivíduo que a questiona, ela só pode ser formulada se esse que a questiona também for indagado. Ou seja, - ele pode realizar tal questionamento? Em que condições? Quais as possibilidades? - para Heidegger a filosofia ocidental pegou um desvio do verdadeiro questionamento acerca do sentido do ser, buscou esse sentido num transcendentis, enquanto verdadeiramente ele encontra-se no ente que o próprio homem é. "[...] a interrogação metafísica deve desenvolver-se na totalidade e na situação fundamental da existência que interroga." (HEIDEGGER, 1999, p. 51).
Já sabemos que esse ente que interroga é o próprio homem. Ele tem sua existência determinada pela ciência (HEIDEGGER, 1999). A ciência é uma de suas formas de ser enquanto ocupação. Sabemos também que a ciência se caracteriza por ser autoritária e dar a primeira e a última palavra em relação a certas coisas. Mas devemos reconhecer que, acima de tudo, é nesse fazer ciên cia que o homem se revela como "um ente na totalidade dos entes" (HEIDEGGER, 1999, p. 52), onde tudo é nele, por ele e para ele. Tudo o que há no mundo é um utensílio para o agir desse ente que irrompe ao fazer ciência.
 

Expoente da fenomenologia, o filósofo e matemático Edmund Husserl (1859- 1938) nasceu em Prossnitz, Morávia, sob Império Austríaco. Seu pensamento influenciou o existencialismo de Sartre e a filosofia de pensadores da categoria de Merleau-Ponty e Heidegger.

"(Trad. do al. Seiende, de sein: ser). Empregado para traduzir o termo grego toon e o alemão das Seiende, particípios presentes do verbo ser, o termo 'ente' aparece, na filosofia de Heidegger, para designar o ser que existe, o ser concreto. Há uma confusão entre o existente (designado o homem) e o ente, 'designando tudo o que nos encontra, nos cerca, nos conduz, nos constrange, nos enfeitiça e nos preenche, nos exalta e nos decepciona' (Heidegger), sem nos apresentar o ser em si, o ser absoluto. Esse ente geral se distingue dos entes particulares (objetos, astros, pedras etc.) por seu caráter de totalidade." (JAPIASSÚ, MARCONDES, 2001, p. 62).
      No entanto, conforme Heidegger (1999, p. 52-53), "[...] o estranho é que precisamente, no modo como o cientista se assegura o que lhe é mais próprio, se fala de outra coisa. Pesquisado deve ser apenas o ente e mais - nada; somente o ente e além dele - nada; unicamente o ente e além disso - nada". A ciência não questiona o nada por ele não ser um ente, nem muito menos um objeto.
      Há muito, o saber tem por finalidade coisas externas; ele deixou de ser um fim em si mesmo. Com essa mudança no horizonte do pensamento moderno, questões como a que aqui buscamos - o nada - são tratadas como mera especulação. A prova disso é simplesmente a ausência de tratados a respeito desse assunto - onde a ciência se preocupou com a questão do nada? Em lugar algum.
A ciência finge ter esquecido o nada. Cabe aqui uma simples consideração, é justamente aí, onde a ciência finge não ligar para a questão do nada, que ela o admite como existente (HEIDEGGER, 1999). Ignorar o nada, portanto, é aceitar sua existência. Afinal de contas, a questão do nada nesse aspecto se assemelha ao paradigma lógico da questão da inexistência de Deus que, para ser concebida, deve antes aceitar Deus como algo possível de existir. Portanto, indiretamente, a ciência diz não ter relevância a questão do nada, e nesse dizer o afirma como existente.
      Está formulada a questão. Se a pergunta sobre a metafísica deve ser desenvolvida na situação do indivíduo que a formula e, se esse indivíduo que nós sabemos que é o "homem" tem sua existência na comunidade determinada pela ciência, logo, ao sabermos que essa ciência, que se caracteriza por acribia, negligenciou uma questão que aqui julgamos ser de fundamental importância no desvelamento do ser do homem, temos a grande responsabilidade de saber o que aconteceria se agora o nada voltasse a ser indagado.
"Que acontece com este nada?" (HEIDEGGER, 1999, p. 53). Que mudança ocorreria no horizonte do pensamento ocidental se esse nada agora fosse concebido como existente e dotado de essência?
Fica claro que nossa investigação resume-se simplesmente à tentativa de mostrar o quanto, para Heidegger, o nada é uma questão metafísica e de fundamental importância para a determinação de nossa existência enquanto seres que questionam e fazem ciência. Dentre o que demonstraremos, será feita também uma simples relação entre o ofuscamento da autorreflexão e o esquecimento do nada pelo homem.



A existência do nada e seu desvelamento
      O nada existe. A ciência, ao tentar explicar sua própria essência, concebe a existência do nada dizendo ser diferente dele. Vale salientar também que nós mesmos usamos de forma obtusa o termo "nada", até o atribuímos à ideia de "ausência". Como depois dessas considerações o nada poderia não existir? Sua inexistência já se tornou impossível, pois ele dá sentido a tudo que não é ele. Doutro modo, ele existiria pelo simples fato de estarmos à sua busca e de o termos inicialmente suposto "como algo que 'é' assim e assim" (HEIDEGGER, 1999, p. 53).

       Para Heidegger (1999, p. 54), "o nada é mais originário que o 'não' e a negação", ou seja, existe o não e a negação em virtude de antes deles existir o nada. Em outras palavras, recorremos ao nada sempre que em nosso pensamento atribuímos "não" a algo. Logo, essas comprovações justificam nossa busca, pois não se busca algo a menos que possa ser encontrado, nas palavras de Heidegger (1999, p. 54) "se o nada deve ser questionado - o nada mesmo -, então deverá estar primeiramente dado. Devemos poder encontrá-lo". Portanto, "seja como for, nós conhecemos o nada".
Fonte:
 http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/33/artigo243157-1.asp