Loading...

terça-feira, 21 de junho de 2011

PARA PENSAR

GUSTAV-ADOLF SCHULTZE

Por que Nietzsche não é cristão?


Por Gerson Nei Lemos Schulz*


      Friedrich Nietzsche (1844-1900) ainda hoje é um autor que
chama a atenção de muitos leitores. Seja porque Foucault,
Heidegger ou Sartre o tenham citado amplamente, seja
porque tantos outros o chamaram de maldito
(em relação à sua herança: as críticas à religião cristã).
Ou ainda por causa das deturpações que sua irmã,
Elisabeth Nietzsche, promoveu em suas obras;
especialmente em Vontade de Potência, paraagradar
Adolf Hitler e os nazistas e se promover na década de 1930.
Nietzsche escreveu sobre arte  (literatura e música), moral e ética,
religião, antropologia, teoria do conhecimento e também é autor
de um romance losó co, o Assim falou Zaratustra. A di culdade para
ler Nietzsche está no fato de, além das traduções do alemão para o
português nem sempre serem éis, ele não separar tais assuntos em
obras sistematizadas (por exemplo, Kant - 1724/1804 - o fez),
mas aqueles que querem escutar Nietzsche por meio de suas
obras devem executar verdadeiro trabalho de pesquisador atento,
pois são muitos os jogos de linguagem que ele usa, os trocadilhos
e ironias, interjeições etc.
      Mas Nietzsche era um lósofo do porvir, como gostava de salientar,
e isso porque talvez, mais do que um a Feuerbach (1804-1872)
ou um Schopenhauer (1788-1860), tenha vivido na própria carne
seu tempo e as mazelas da Europa de m de século com a Guerra
Franco-Prussiana, que abalou as bases culturais do continente.
Enquanto Feuerbach desmisti cava o cristianismo
(em sua A essência do cristianismo) e Schopenhauer
losofava racionalmente (aos moldes ocidentais em
O mundo como vontade e como representação)
sobre a ideia oriental budista da a ascese, e fazia avançar
o pensamento humano para considerar a existência da
possibilidade de uma "vontade cega" que guia o universo,
concluindo, com isso, que não há sentido último no universo,
que o mundo não está aí para o homem se deleitar com seus
frutos (ao contrário, tudo está aí por mero acidente), não há
planejamento, não há deuses por trás das coisas, o homem,
grosso modo, para Schopenhauer, também é um acaso
da "vontade cega" que comanda o universo.

FEUERBACH
 Teólogo, filósofo e antropólogo nascido em Landshut, no atual território da Alemanha, 
Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872) foi um pensador humanista que se destacou
por suas obras em que abordou a religiosidade, como A essência do cristianismo. 
Considerado um dos "jovens hegelianos", a filosofia de Feuerbach exerceu 
influência na obra de Karl Marx, que analisou a contribuição feuerbachiana 
no livro A ideologia alemã.
DOMÍNIO PÚBLICO



NIETZSCHE E AS CRÍTICAS AO CRISTIANISMO

      Nietzsche não é o primeiro autor moderno a criticar a religião cristã. Feuerbach, Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) já o tinham feito. Feuerbach mostra que foi o homem quem criou "deus" e não o contrário, e isso se deu quando o homem projetou em um ser imaginário tudo aquilo que desejava ter: imortalidade, sabedoria,
onipresença, onipotência e onisciência.
       Marx mostrou que são as condições econômicas e materiais que
condicionam as ideias do ser humano e que eles estão atrelados
a seu horizonte histórico. Além disso, a sociedade, para Marx,
é constituída pela luta de classes (que é o motor da história),
sendo assim há uma luta entre proprietários dos meios de produção
(burgueses) e operários (proletários), estes últimos são espoliados
pelos patrões, que se bene ciam deles pela mais-valia
(o lucro que o trabalhador produz e que vai para o bolso do patrão);
logo Marx advoga pelo m dessa luta, ou seja, a abolição das
classes sociais, o socialismo. Isso para que todos tenham acesso
às benesses da vida moderna (e não apenas alguns poucos que
podem pagar por isso). Consequentemente, Marx a rma que
a religião também desapareceria, pois "Deus" não passa de
uma criação do homem para justi car a vida de sofrimentos
que tem na Terra (com ideias como pecado e redenção
ou sofrimento e recompensa no além).
Mas aí surge Nietzsche com outro foco crítico contra a
doutrina cristã, a moral e sua gênese. E é para entender
isso que não se poderia inescrupulosamente apresentar o
autor sem seu contexto histórico e sem aqueles que o antecederam.
Da mesma forma como é importante avisar àqueles que tomam
primeiro contato com Nietzsche e suas polêmicas declarações de
que ele não con ita apenas uma das igrejas cristãs, mas todas.

CONTRAPOSIÇÃO: A ÉTICA CRISTÃ
NEGA A VIDA NA TERRA
      Para Nietzsche, o Ocidente, adotando a ética cristã,
negou a vida real (material). Então, segundo ele,
a doutrina judaico-cristã, com o conceito de
"Deus castigador", moralista e juiz de homens
como no Antigo Testamento, serviu apenas como um "cabresto".
Jesus, com ideias como "ressurreição" e "mundo melhor"
após a morte, apenas contribuiu para que todos se
penitenciassem para escapar do pecado original.
Mas esse pecado é impossível para Nietzsche quando
ele pressupõe que o homem não tem "alma"
(no sentido de algo que sobrevive após a morte)
e que "Deus" não existe fora da mente humana.
O homem, então, é concebido apenas pela força
da natureza e se perece com a morte. Caso isso seja
verdade, infere Nietzsche que o "pecado" não passa
de invenção que alimenta o medo (medo de morrer e
ir para o "inferno"), medo este que é o fundamento da
moral cristã. Em sua Genealogia da Moral, Nietzsche
a rma que primeiramente a moral foi criada para impedir
o homem de cair no niilismo e para dar explicações para
a vida e seus sofrimentos. Entretanto, seu principal fator
de fundamentação se constituiu no medo
(NIETZSCHE, Genealogia da Moral In: Os Pensadores, p. 333).
Quer dizer, o que o autor percebe de nocivo aí é que não há
nenhuma relação de amor ou gratuidade com um suposto "Deus",
o que há é o culto de "Deus" pelo homem porque o homem é
um "covarde da vida". Teme suas mazelas e se esconde atrás de "Deus",
que serve como muleta.
       Nietzsche diz que é esse medo que gera a angústia diante da vida
e acarreta a busca do perdão de "Deus". O problema para Nietzsche
está no administrador do perdão, o sacerdote. Para Nietzsche, a lei,
falando pela boca do sacerdote, transforma-se na moral vigente.
Há uma máscara sobre "Deus", porque o sacerdote ganha para si
o poder da lei, personi cando "Deus". E, como a lei vem de um "Deus"
que precisa de intérpretes (pois os textos bíblicos são a única manifestação
que o crente aceita como tal), os homens elegem o sacerdote como
o intérprete de "Deus". Mas aí surge outro problema, diz Nietzsche:
se "Deus" é juiz dos homens e o sacerdote (padre ou pastor cristão)
é seu porta-voz, então, na realidade, é o sacerdote quem julga os homens?
Sim, diz ele, porque mesmo que "Deus" exista quem dá a última palavra é
o sacerdote.
       Assim, o sacerdote, se é quem controla o divino
(porque interpreta a lei e "sabe" o que "Deus" quer dos homens),
controlando o mundo terreno e controlando as coisas da Terra,
controla o comportamento das pessoas por meio da moral.
Assim Nietzsche mostra como os homens se deixam aprisionar
por uma metafísica, ou seja, moral cristã, que é reproduzida de
geração a geração e pela qual são punidos aqueles que desejam
apontar suas contradições. É por isso, conclui Nietzsche,
que a moral é uma "prisão" para os homens.
      Quanto ao crente (cristão), este se deixa guiar passionalmente
por acreditar que o sacerdote o levará ao paraíso com a graça
de "Deus". Mas, para Nietzsche, esse "Deus" (como já foi dito)
é uma muleta que serve para o homem amenizar sua fraqueza
carnal diante do mundo real. Logo, Nietzsche rejeita a doutrina
cristã, chamando-a de "moral de rebanho". "Moral de fracos"
que se unem para louvar "Deus" (o cabresto) e pedir perdão a "ele".
A moral cristã que arrebanha crentes para cultuar "Deus"
recruta culpados para que "ele" seja reconhecido como tal.
O menosprezo pelo homem que eleva "Deus" torna-o algoz do homem.
Foi por isso que Nietzsche a rmou no Anticristo: "Deus está morto".
Fonte:
http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/30/
ensaio-o-contundente-anticristianismo-de-friedrich-wilhelm-nietzsche-219564-1.asp

Nenhum comentário:

Postar um comentário