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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

MORRE MATTHEW LIPMAN

Matthew Lipman, o pai da filosofia para crianças morreu no último domingo (26/12) em Nova Jersey.


Matthew Lipman (nascido em 24 de agosto de 1922, em Vineland, Nova Jersey , faleceu em 26 de dezembro de 2010, em West Orange, New Jersey ) é reconhecido como o fundador do programa de Filosofia para Crianças

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

POR QUE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO

Texto apresentado no dia 18 de dezembro de 2010 no Seminário Sociologia e Filosofia no Ensino Médio: Por quê? Para quê?  (Universidade Federal do Ceará)



Porque Sociologia e Filosofia no ensino médio


Prof. Dr. Amaury Cesar Moraes – FEUSP/SBS



Introdução

      Considero importante a presença dessas disciplinas por dois motivos: 1) porque elas, em si, têm muito a contribuir, quer porque trazem informações que os alunos não recebem de outras disciplinas (nem história, nem geografia, nem língua portuguesa – considerando aquelas que são as humanidades); quer porque elas oferecem modos de pensar - argumentos, perspectivas, metodologias - diversos de outras disciplinas. São disciplinas que conjugam uma tradição (filosofia mais longa, sociologia mais recente) e tratamento direto da realidade em que os alunos estão envolvidos: política, sociedade, artes, ética, economia, mídia, etc.; 2) porque a simples idéia de elas poderem estar nos currículos chega a provocar todo um debate sobre o currículo. Infelizmente, no entanto, esses debates no Brasil não acontecem com honestidade, nem dentro, nem fora da escola. Assim, sociologia e filosofia acabam parecendo intrusas e seus defensores corporativos, mas ninguém discute o que estão fazendo pela formação dos jovens estas outras disciplinas que, pelo que dizem os resultados de exames nacionais e internacionais, não têm contribuído muito. Eu esperava que fosse esta a oportunidade de todos discutirem o tal do currículo e não ficarem guardando o seu latifúndio improdutivo armados até os dentes.

Porque Sociologia no Ensino Médio

      Começamos por dizer que a disciplina escolar "Sociologia" consagrou um espaço para as outras Ciências Sociais, a Ciência Política e a Antropologia que, juntamente com a primeira, trazem uma ampliação do debate em torno dos fenômenos sociais. Não se pode ignorar que tanto a História como a Geografia vêm incorporando traços constituintes das ciências sociais. A geografia humana ou a história social são tributárias da Sociologia, da Antropologia ou da Ciência Política. E reconhecemos também que estudos como Casa Grande e Senzala ou Raízes do Brasil são obras que, originalmente produzidas no campo das Ciências Sociais, tornaram-se com o tempo referências para as ciências humanas como um todo, rompendo fronteiras. Sabemos também que as críticas ao ensino tradicional de História e Geografia só foram possíveis a partir de perspectivas transdisciplinares e, sobretudo, que as alternativas a essa forma de ensino decorreram também das relações menos preconceituosas ou corporativistas que historiadores e geógrafos foram mantendo com sociólogos, antropólogos e cientistas políticos.
      As razões pelas quais a Sociologia deve estar presente no currículo do ensino médio são diversas. A mais imediata é essa sobre o papel que essa disciplina desempenharia na formação do aluno e sua “preparação para o exercício da cidadania”, até para atender o disposto em lei (LDB 9394/96). Não se pode entender que entre 15 e 18 anos, após 8, 9, 10 anos de escolaridade, o jovem ainda fique sujeito a aprender “noções” ou a exercitar a mente em debates circulares, aleatórios e arbitrários. Parece que nesta fase de sua vida, a curiosidade vai ganhando certa necessidade de disciplinamento, o que demanda procedimentos mais rigorosos, que mobilizem razões históricas e argumentos racionalizantes acerca dos fenômenos – naturais ou culturais. Mesmo quando está em causa promover a tolerância ou combater os preconceitos, a par de um processo de persuasão que produza a adesão a valores, resta a necessidade de construir e demonstrar a “maior” racionalidade de tais valores diante dos costumes, das tradições e do senso comum.
      Por outro lado, na medida em que a escola é um espaço de mediação entre o privado – representado pela família, sobretudo – e o público – representado pela sociedade (Hannah Arendt, 1968) -, esta deve também favorecer, por meio do currículo, procedimentos e conhecimentos que façam essa transição. De um lado, o acesso a informações profissionais é uma das condições de existência do ensino médio; de outro, o acesso a informações sobre a política, a economia, o direito é fundamental para que o jovem se capacite para a continuidade nos estudos e para o exercício da cidadania, entendida estritamente como direito/dever de votar, ou amplamente como direito/dever de participar da própria organização de sua comunidade e País.
      Numa sociedade como a nossa, em que se acumularam formas tão variadas e intensas de desigualdades sociais - efetivadas por processos chamados por alguns de “exclusão social” e por outros de “inclusão perversa” -, em que a lentidão nas mudanças é uma constante, o acesso ao conhecimento científico sobre esses processos constitui um imperativo político de primeira ordem.
      Chegamos, então, à presença da Sociologia no nível médio. Aqui caberia transcrever as palavras de Florestan Fernandes, em artigo publicado nos anos 50 e que tratava justamente d’O ensino de Sociologia na escola secundária brasileira (ATAS do 1o Congresso Brasileiro de Sociologia, São Paulo: 1954) Parece que, atualizando as palavras, reorientando as intenções, valem os mesmos objetivos e justificativas ainda hoje. Fernandes diz:
“... a transmissão de conhecimentos sociológicos se liga à necessidade de ampliar a esfera dos ajustamentos e controles sociais conscientes, na presente fase de transição das sociedades ocidentais para novas técnicas de organização do comportamento humano.”
Citando Mannheim, ele acrescenta:
“as implicações desse ponto de vista foram condensadas por Mannheim sob a epígrafe ‘do costume às ciência sociais’ e formuladas de uma maneira vigorosa, com as seguintes palavras: ‘enquanto o costume e a tradição operam, a ciência da sociedade é desnecessária. A ciência da sociedade emerge quando e onde o funcionamento automático da sociedade deixa de proporcionar ajustamento. A análise consciente e a coordenação consciente dos processos sociais então se tornam necessárias”.
      Como se vê, as razões para que a Sociologia esteja presente no ensino médio no Brasil não só se mantêm como têm-se reforçado. As estruturas sociais estão ainda mais complexas, as relações de trabalho se atritam com as novas tecnologias de produção, o mundo está cada vez mais “desencantado”, isto é, cada vez mais racionalizado, administrado, dominado pelo conhecimento científico e tecnológico. No campo político os avanços da democratização têm sido simultâneos aos avanços das tecnologias de informação e comunicação, tendendo a corromper-se esse regime político em novas formas de populismos e manipulações. No campo social, o predomínio do discurso econômico tem promovido uma “renaturalização” das relações, reforçando aqui o caráter ambíguo (e perverso) da racionalidade contemporânea.
      O ensino médio pode ser entendido como momento final do processo de formação básica, uma passagem crucial na formação do indivíduo - para a escolha de uma profissão, para a progressão nos estudos, para o exercício da cidadania conforme diz a lei -, e para isso a Sociologia tem importantes contribuições a dar. Porque ela traz informações que os alunos não recebem de outras disciplinas (nem história, nem geografia, nem língua portuguesa – considerando aquelas que são as humanidades); quer porque ela oferece modos de pensar - argumentos, perspectivas, metodologias - diversos de outras disciplinas. É uma disciplina que conjuga uma tradição ao tratamento direto da realidade em que os alunos estão envolvidos: política, sociedade, artes, ética, economia, mídia, etc..
      Ao lado das propostas clássicas, temáticas e intervencionistas, podemos pensar o ensino das Ciências Sociais a partir de objetos: a literatura, a música popular, o cinema, os meios de comunicação, o teatro e a própria educação. Muitas vezes nos perguntam para que ensinar sociologia? Podemos perguntar: em que medida é possível discutir literatura, música popular, cinema, meios de comunicação, teatro e educação fora da influência esclarecedora das Ciências Sociais? Seria algo muito pobre e muito pouco útil discussões que negassem essa contribuição. E a confiar no que dizem sobre o homem globalizado, nenhuma ciência prepara melhor esse homem do que as Ciências Sociais: quer no sentido de compreender e atuar nesse mundo presente, quer no sentido de superá-lo oferecendo crítica e alternativas para um mundo futuro.

Porque Filosofia no Ensino Médio

      Há várias razões pelas quais a Filosofia deve constar como disciplina no ensino médio. Sem pretender esgotar, apresentamos a seguir algumas, que não estão ordenadas segundo o grau de importância. A matéria-prima da Filosofia é a cultura, entendida esta no seu sentido mais amplo: artes, ciências, tecnologias, tradições, configurações políticas e sociais, comportamentos, manifestações religiosas, etc. Ora, se considerarmos o currículo escolar – que se quer cada vez mais próximo da vida real – em suas relações com a cultura, percebemos que as aulas de Filosofia são uma oportunidade imprescindível para um debate e aprendizado sobre esses elementos e sobre as formas de compreensão e intervenção nesse aspecto da vida. Nesse sentido, a Filosofia não é só uma parte da cultura, mas uma reflexão e ação sobre a cultura, e nenhuma outra disciplina pode realizar esse objetivo, senão muito parcial e assistematicamente. Se considerarmos as demais disciplinas do currículo e se é o caso de que o aprendizado não seja passivo, mas ativo e reflexivo, percebemos que a Filosofia tem muito a contribuir num debate que se pode instalar em sala de aula, ao tomarmos o próprio currículo – no todo ou na parte – como objeto da discussão filosófica.
      Aquilo que muitas vezes se tenta fazer, a fim de tornar o ensino das Ciências e Matemática menos maçante, ou não somente informativo, recorrendo-se à versões de história das ciências, de um modo geral pouco convincente, porque fora do lugar, a Filosofia, no seu ramo Filosofia da Ciência consegue fazê-lo de um modo ainda mais profundo: aqui não se trata de uma história só informativa ou só modelar – como se os cientistas tivessem um comportamento tão objetivo, teleológico, que pudessem se tornar modelos de ação para os jovens que pretendam ser cientistas... -, mas antes de tudo uma crítica histórica, a que se dá o nome de Filosofia da Ciência: nesse contexto, a história das Ciências e Matemática são analisadas de forma profunda, sem compromissos com os protocolos das Ciências e Matemática, senão com a busca da verdade que a Filosofia se propõe.
      Outra razão, podemos aventar, são as relações que se pode estabelecer entre a política e a ética enquanto questão fundamental para a formação para a cidadania e democracia. Não se trata, então, de uma discussão da política como fatos do dia, mas na busca de sentidos para a ação política, individual ou coletiva. A perspectiva histórica e a perspectiva sociológica (Ciência Política) trazem informações e reflexões importantes, mas estão sobretudo voltadas para a compreensão do como foi e do como é e como esses fenômenos mantêm relação com configurações políticas do e no passado e do e no presente. A Filosofia Política conjugada à Ética aprofunda as reflexões sobre o porquê, abrindo espaço para se pensar o como deveria ser, colocando a ação individual e coletiva no centro do debate: quais os fundamentos da ação política ética?
      Agora tomando as artes como um objeto do ensino da Filosofia, e dentre elas a literatura, a Filosofia teria muito a dizer e contribuir para a formação dos jovens, talvez favorecendo um resgate do próprio ensino da literatura, muita vez mitigado pelo ensino demandado da gramática ou corrompido por um ensino historicista (escolas literárias, resumo da obra, características do autor etc.); pode-se investir num debate eminentemente estético sobre a produção da obra-de-arte, princípios, contexto, sentido. Mas ainda podemos considerar os “conteúdos tradicionais” da Filosofia como sendo necessários para o ensino médio. Pode-se dizer que todos os conteúdos escolares de algum modo se relacionam com a Filosofia: alguns mais intensamente como História, Geografia, Sociologia e Língua e Literatura, referem-se à Filosofia como fonte ou como “cenário” onde muitas das ideias, teorias, fundamentos que as caracterizam foram forjados. Pensamos no iluminismo (Locke, Hume, Rousseau, Voltaire, Diderot, Montesquieu, D’Alembert, Kant), por exemplo, basicamente um fenômeno filosófico que teve repercussões na literatura (romantismo), na política (liberalismo), na história ( Revoluções Inglesas, Americana e Francesa) e na geografia (determinismo, Humboldt, Ritter). Ou pode-se tomar a História da Filosofia ou os ramos ou áreas da Filosofia como fontes de reflexão: é uma longa tradição em que se apresenta o debate sistemático e necessário sobre os mais variados problemas postos pela humanidade. Os alunos em contato com essa tradição ficam convidados a dialogar com os filósofos, aprendendo o que há de essencial no discurso filosófico: um repertório e argumentações. Nesse sentido, o ensino de Filosofia pode contribuir enormemente para o desenvolvimento da competência lingüística e do raciocínio lógico, porque a leitura e comentário de textos dos filósofos e a elaboração de pequenas dissertações sobre temas propostos pelo professor incorporam instrumental, repertório e procedimentos necessários para o domínio daquelas competências.

Tentando um resumo

      Quando pensamos na obrigatoriedade de Sociologia e Filosofia no ensino médio, pensamos em tudo isso, sobretudo numa competência crítica – para usar um jargão híbrido, de tempos e perspectivas diferentes – que essas disciplinas têm trazido à educação e à cultura – para retomar um binômio fundamental de nossa formação. Competência crítica em relação às artes, às ciências, aos costumes, ao poder, às instituições, à renaturalização das relações sociais, ao próprio homem que tanto a Filosofia quanto a Sociologia – sintetizando no ensino médio o campo das Ciências Sociais – têm cumprido: uma, desde a Antigüidade, renovada sempre porque sempre está em diálogo com o seu tempo; e a outra, desde as épocas Moderna e Contemporânea, circunscrevendo problemas e fertilizando saberes, com métodos, perspectivas e informações fundamentais.
      Quando pensamos em Filosofia e Sociologia para além do slogan – formar o cidadão -, reconhecemos-lhes o poder de preencher com concretude essa expectativa social. A Sociologia e a Filosofia detêm um repertório em termos de informação e abordagens significativos – tradições e repertórios – que podem contribuir para que a “preparação para o exercício da cidadania” se faça desde a sala de aula e ganhe maior expressão no cotidiano dos jovens. Mas, sobretudo porque tanto Sociologia quanto Filosofia oferecem “modos de pensar” ou, segundo a expressão de Weber, “métodos de pensamento, isto é, os instrumentos e uma disciplina” bases para o discernimento e as escolhas. É óbvio que nada disso é exclusivo dessas disciplinas, no entanto também não é de outras, e nem todas as outras juntas dão conta ou recobrem o vazio deixado na formação dos jovens quando há a ausência dessas disciplinas no currículo.
Fonte: http://filosofiaensina.blogspot.com/