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sábado, 28 de agosto de 2010

A incerteza das verdades Científicas

A Ciência não abriu mão da meta de produzir verdades, mas já admite que o conhecimento pode ser circunstancial e restrito. Como sempre há margem para contestação de teorias, não há lugar para certezas


Alberto Oliva 


       O homem sempre procurou, de algum modo, explicar o mundo que o cerca. A Filosofia e a Ciência tiveram a pretensão de afastar as visões míticas ou fantasiosas e encontrar verdades universais e desinteressadas por meio da razão. Já houve um tempo em que a confiança nessa possibilidade de constatar verdades foi irrestrita, mas alguns pensadores contemporâneos apostam que essa meta é difícil de ser alcançada. Os conteúdos científicos passaram a ser vistos como subordinados a processos e estruturas sociais. Ou seja, o saber seria conjetural e os resultados científicos não definitivos. 
      Mas esse foi um longo caminho, que teve início lá atrás, ainda no surgimento da Filosofia. O conhecimento filosófico se forma renegando o senso comum. Dizendo- se escorado na autoridade da razão, mostra propensão a desqualificar o "ver", baseado nos sentidos, em nome do "compreender", que se dá de modo racional. A busca da episteme, da crença verdadeira e certa, parte da avaliação de que as aparências enganam, de que os sentidos nem sempre são confiáveis e de que a forma mítica de pensar está fadada a produzir pseudoexplicações. Por mais que em determinados períodos de sua história a confiança na força libertadora do conhecimento tenha sido maior, a Filosofia desde seus primórdios ambiciona livrar o homem das crenças infundadas, das ilusões e superstições. Em suma, das atitudes irracionais. Na figura de Galileu, a Ciência moderna enfrentou muita resistência para fazer valer alguns de seus resultados. O dogmatismo religioso, o conservadorismo intelectual e o apego cego a determinados sistemas filosóficos, tudo fizeram para impedir que o conhecimento baseado em cálculos e experimentos ganhasse o merecido destaque.
O homem busca um saber capaz não só de explicar
 os fenômenos naturais, mas também de controlá-los
      Tendo o filósofo Francis Bacon como pregoeiro, a era moderna passa a privilegiar a busca de um tipo de saber capaz de proporcionar ao homem controle - por meio, por exemplo, de predições - sobre o que investiga. O poder intelectual deixa de se exercer apenas sobre as consciências, pela formação de mundividências ou pela inoculação de ideologias políticosociais, para se estender ao domínio dos fenômenos naturais. Quando passa a ser encarada como habitada por forças cegas, em muitos casos ameaçadoras, a natureza começa a exigir um conhecimento capaz não só de explicar seus fenômenos, mas também de controlá-los. 
      A Ciência moderna acaba com a necessidade de invocar forças ocultas e propósitos divinos para tentar entender o que ocorre na natureza. Esta passa a ser vista, como sublinha Max Weber, como desprovida de mistérios abscônditos. Sendo as forças que a regem imanentes, o crucial para Bacon é identificá-las por meio da observação. Tomando por base o que é observacionalmente registrado, forjam-se teorias que nada mais são que generalizações atentas ao papel decisivo cumprido pela evidência negativa. A natureza deixa de ser um quebra-cabeça de um "Todo" a ser decifrado pela razão para ser um grande campo de observação segmentável em estudos setoriais. O Novum Organum, de Bacon, não é apenas a proposta de uma nova metodologia, é também traço distintivo da modernidade pelo destaque que confere ao saber instrumental. Deixando de ser contemplativo, o conhecimento é também testado pelo poder que propicia sobre o conhecido. O "saber de domínio", como o chama Scheller, é o que logra exercer controle, manipulativo ou corretivo, sobre aquilo que consegue explicar.
      Pelo poder que gera, o conhecimento deve para Bacon ser colocado a serviço do bem-estar humano. A tese baconiana de que scientia est potestas, de que o homem pode tanto quanto sabe, implica que os limites do poder que se pode exercer sobre o mundo são definidos pelo grau de conhecimento que sobre ele se consegue alcançar.
      Com sua tese de que o sujeito precisa se manter passivo para apreender os fatos como são em si mesmos, a retórica empirista serviu para conter os sempre indomáveis arroubos da imaginação. Por mais questionável, a ênfase na observação coloca um freio no especulativismo que ambiciona explicar dando as costas para o mundo dos fatos. Além do mais, torna humilde o pesquisador ao leválo a reconhecer que para explicar alguma coisa precisa se escravizar à observação de suas notas características.
      Por mais que a partir de Comte se passe a defender a tese de que toda observação se faz à luz de uma teoria, o empirismo merece o crédito de ter sublinhado o papel crucial das evidências empíricas nos processos de aceitação ou rejeição das teorias.
      De 1620, data da publicação do Novum Organum de Bacon, aos dias de hoje, o poder explicativo, e mais ainda o instrumental, da Ciência tem se consolidado de forma incontrastável. Em condições normais, o poder sobre fenômenos naturais é cada vez mais consequência do saber sobre eles obtido.
      A visão de que para conhecer é necessário se livrar das ilusões do pensamento puro que vira as costas para a realidade foi crucial para que se passasse a ter a humildade de observar o que se quer explicar. Sem dúvida, a Filosofia foi fundamental para o surgimento da Ciência. Só que, diferentemente desta, produz desde suas origens teorias que nutrem a ambição de explicar de forma definitiva o que é o mundo sem abraçar a penosa tarefa de observar humildemente os fatos. As grandes teorias filosóficas sempre preferiram a especulação à observação, o desvelamento do "Todo" ao acompanhamento minucioso das partes. O empirismo, a despeito de suas limitações e debilidades, foi revolucionário ao decretar que o conhecimento só é alcançável caso o pesquisador evite se antecipar à realidade por meio de grandiloquentes teorias. O pesquisador deve se tornar servo dos fatos para ser senhor daquilo que conseguir explicar.
      Depois do longo predomínio da concepção empirista, imagens opostas de Ciência foram propostas. Há quem a veja como fruto da razão pura, livre de preconceitos, voltada para a construção de embasadas explicações pela aplicação de metodologias seguras. E quem a encare como um subproduto da vida cultural ou social. Schlick, um dos destacados membros do movimento empirista lógico, encarna à perfeição a primeira posição quando define conhecimento como um puro jogo do espírito. Em sua opinião, a busca da verdade científica é um fim em si mesmo, já que o cientista se deleita em medir forças contra os enigmas que a realidade lhe propõe independentemente dos benefícios que disso possam advir. Considerar a razão científica autônoma e incontaminada equivale a supor que não se envolve com superstições, ideologias, antecipações, precipitações, etc. E que quando se envolve tem como vir a expurgá-las por ser uma atividade capaz de se autocorrigir. Está, desse modo, habilitada a apreender os fatos da natureza ou da sociedade como são em si mesmos para poder entendê-los e, sendo possível e desejável, modificá-los em nome de objetivos humanos ou simplesmente de melhores funcionalidades.
      O extremo oposto do cognitivismo expresso por Schlick é encarnado pela Sociologia que encara a substância da Ciência, a explicatividade de suas teorias, como socialmente determinada. Por essa óptica, as teorias científicas são construções sociais tanto quanto as posições ideológicas e os posicionamentos políticos. É explicável por meio de causas sociais não apenas a gênese, mas também o conteúdo das teorias científicas. O socioconstrutivismo, no fundo, propõe que se abandone a concepção de conhecimento como teoria verdadeira justificada em favor da de crença socialmente causada. Com isso, se insurge contra a predominância da visão internalista de Ciência que, do Novum Organum até meados do século passado, sustentava que a funcionalidade da atividade científica pode ser em parte explicada por fatores a ela extrínsecos, mas não sua racionalidade.
      Da segunda metade do século passado em diante houve um crescente questionamento do que Schffler chamou de standard view ("visão padrão"). À luz da concepção tradicional de cientificidade, identificar os procedimentos metodológicos por meio dos quais são os resultados da Ciência aferidos seria suficiente para caracterizar sua racionalidade. A investigação dos componentes extracognitivos - dos psicológicos aos biológicos, passando pelos político-econômicos e os histórico-culturais - se prestaria, quando muito, à elucidação de como se deu a formação e a difusão das teorias científicas. Sendo de pouca ou nenhuma serventia no esclarecimento de por que são acolhidas como confirmadas ou rejeitadas como refutadas.
      Enquanto a Ciência tendeu a ser vista como produto da razão monitorada pela evidência empírica, não era importante acompanhar o que se situa - ou o que se passa - fora de suas fronteiras para determinar em que se fundamentam suas práticas teóricas. A visão de que a reconstrução da racionalidade científica pode ser feita atentando-se apenas aos chamados imperativos lógico-empíricos passou a receber cerradas críticas de metacientistas como Kuhn e Feyerabend. Deixou de ser amplamente aceita a tese de que a Ciência constrói teorias cujo endosso ou rechaço se dá com base apenas em requisitos como o da consistência lógica e da correspondência aos fatos.
Fonte:
http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/Edicoes/49/artigo179761-5.asp

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