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sábado, 26 de junho de 2010

Amizade: o outro lado da filosofia

      Você lerá neste artigo um esboço de um projeto maior, que terá o objetivo de mostrar a importância do filosofar nos dias de hoje, por incrível que pareça. É senso comum ouvirmos que a filosofia e os filósofos não são desse mundo e que habitam lugares além do humano. A frase mais conhecida é: os filósofos vivem numa torre de marfim, que designaria um mundo ou atmosfera onde intelectuais se envolvem em questionamentos desvinculados das preocupações práticas do dia-a-dia. Como tal, tem uma conotação pejorativa, indicando uma desvinculação deliberada do mundo cotidiano.       Pois bem. Isso não é verdade. Se não fosse os assuntos humanos a filosofia nem existiria. Sócrates andava pelas ruas de Atenas conversando com as pessoas abordando temas que tocavam diretamente a vida delas. Queria saber, conhecer e indagar sobre o que somos, como vivemos, o que é mais importante na vida, etc. Deste modo, o tipo de saber que buscava não era e nem estava distante das questões que colocamos a nós mesmos nos dias atuais.
      Na verdade, em Sócrates vemos uma prática do pensar que proporcionasse um tipo de sabedoria que conduzisse a algo prazeroso, porém sem desconsiderar o caráter dramático que é existir. E essa coisa boa pretendida poderia estar nas relações que travamos com os outros. Enfim, no diálogo que construímos com as pessoas, sem nenhum desmerecimento a alguém. É daí que emerge um novo modo de filosofar e, também, de viver.
      Filosofia é uma palavra grega originária de duas outras: philo (amizade, amor, respeito) e sóphos (saber, sabedoria). Vemos na história da filosofia um maior destaque ao sóphos, ao saber, ao conhecer teórico e contemplativo, daí a idéia de Torre de Marfim. Nem a idéia de sabedoria é evidenciada. Mas quero concluir com a primeira parte: philo, philia, amizade.
      É a amizade que nos aproxima mais ainda da realidade, dos assuntos humanos, pois nela revela-se a convivência, as olhadas, as escutas, os sabores que a vida na relação com o outro nos oferece. Se assim é, pensar deixar de ser algo meramente transcendente, mas que nos levaria a nos encostar nos odores, nas texturas, nas cores e nos paladares da existência, muitas vezes intraduzíveis e inenarráveis em palavras e conceitos.
      O filósofo apenas faz tentativas, apostas, aproximações, ao ponto de chegar a situações paradoxais e plenas de impasses, pois não pode e nem consegue compreender tudo sobre o que pensa.
      Olhando para nós hoje, falta-nos o tempo, a paciência e o cuidado de ir à praça pública, como Sócrates, para dialogar, pensar, fazer amigos, de maneira que modifique as nossas maneiras de ser e supere as individualidades, ou melhor, os individualismos que nos distancia e forma pessoas violentas, indiferentes, frias e quase desumanas.
      Assim, filosofar é também fazer amigos, é garantir um espaço público que nos transforme e nos abra para a convivência coletiva. A amizade, sem ignorar as tensões humanas, pode ser o caminho para novos modos de vida, para uma verdadeira vida filosófica. Filosofe!

Alonso Bezerra de Carvalho é professor da Unesp.
E-mail: alonsoprofessor@yahoo.com.br

Fonte: http://www.diariodemarilia.com.br/Noticias/84437/Amizade-o-outro-lado-da-filosofia

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morre o escritor José Saramago

O escritor português José Saramago morreu aos 87 anos em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, nesta sexta-feira (18).


       De acordo nota oficial, deixada pela família no site do escritor, Saramago morreu em consequência de falência múltipla dos órgãos. O autor sofria de problemas respiratórios. "O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila", disse o comunicado oficial.
      A informação foi dada em primeira mão à agência de notícias EFE pela família do escritor, que era um dos maiores nomes da literatura contemporânea e vencedor de um prêmio Nobel de Literatura e um prêmio Camões.
      Entre as obras publicadas por Saramago estão: "Manual de Pintura e Caligrafia" (1977), "Levantado do Chão" (1980), "Memorial do Convento" (1982), "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1986), "A Jangada de Pedra" (1986), "História do Cerco de Lisboa" (1989), "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991),"Todos os Nomes" (1997), "O Homem Duplicado" (2003), "As Intermitências da Morte" (2005) e "Caim" (2009).
      Em 2008, a obra "Ensaio sobre a Cegueira" (1995) foi transformada em filme pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles. O longa teve Julianne Moore e Mark Ruffalo como protagonistas. 
      Em janeiro deste ano, José Saramago lançou uma nova edição de "A Jangada de Pedra" e toda a renda arrecadada com as vendas foi revertida para as vítimas do terremoto no Haiti. O preço total do livro, 15 euros, foi doado ao fundo de emergência da Cruz Vermelha do país.
      Durante o lançamento de seu último livro "Caim", em 2009, o escritor disse "que não se pode confiar em Deus".

Fonte: www.yahoo.com.br/notícias

domingo, 13 de junho de 2010

Futebol e Filosofia



      Nestes dias falar de outra coisa que não seja de futebol é condenar-se à irrelevância. É que o futebol comparece como realidade seminal. Mobiliza todos os chacras, desde aquele dos instintos mais primários até aquele do êxtase. Por isso, além de ser o esporte mais apreciado do mundo, representa uma metáfora poderosa para coisas da maior importância. Nas minhas matutações descobri, entre outras, três dimensões fundamentais.
      Em primeiro lugar, enquanto jogo, o futebol surge como a metáfora mais adequada para entendermos o universo. Pois é assim que a maioria dos cosmólogos como Reeves e os físicos quânticos como Bohr falam. Os antigos imaginavam o universo uma pirâmide estática, culminando em Deus. Os modernos à la Newton e Galilei o representavam como um relógio que obedece a leis determinísticas. Os contemporâneos, vindos das ciências do caos e da complexidade, o projetam como um jogo onde todos os vetores e fatores se inter-retro-relacionam, constituindo um jogo que obedece ao princípio da indeterminação de Heisenberg. Do vácuo quântico, saturado de energia primordial, emergem, como num jogo incessante, energias que se consolidam umas, e então se chamam de matéria, ou que formam campos energéticos ou mórficos e então se denominam função de onda. No futebol não há assistentes passivos. Todos participam ou jogando ou torcendo. Como no universo, assim também no futebol, não se pode prever o desfecho. O mais fraco, Senegal, pode vencer o mais forte, a França.
      Mais ainda. O futebol nos lembra a lei suprema do universo. Esta não é a seleção natural com a vitória do mais forte como queria Darwin. Se assim fora, os dinossauros estariam ainda por aqui. A lei suprema do universo, nos atestam os que pensam o universo todo em evolução e não apenas os organismos vivos, é a cooperação de todos com todos. A sinergia e a simbiose, vale dizer, a capacidade de consociar- se, de adaptar-se um ao outro, de estabelecer redes de solidariedade entre todos para que todos, também os mais fracos, possam viver e ser incluidos: eis o eixo articulador de tudo. Para se convencer disso, basta ler o livro de John F. Haugt, Deus após Darwin(José Olympio,2002) onde se faz a refutação convincente das teses neodarwinistas. Ora, o futebol é a arte e a técnica de articular sinfonicamente onze jogadores, formando um time e não a soma de craques cada um por si buscando o gol. Sem a cooperação criativa entre todos, jogadores, técnico e torcida, o gol não sai e não irrompe como um vulcão das gargantas dos torcedores.
      Por fim, o futebol configura o ideal de toda economia sã com a qual sonhamos: o livre comércio com igualdade, coisa que o capitalismo continuamente nega. Ele quer o livre comércio mas dentro da mais veroz competitividade. Essa sim é puramente darwiniana: só reconhece a vitória do mais forte, gerando desigualdade. Liquidando a igualdade acaba também com a liberdade dos outros para reservá-la só ao vencedor. Para manter a igualdade se faz mister regras e disciplina que limitam a voracidade da competição. Isso o futebol ensina. Cada jogador é igualmente importante. A regra é clara e a disciplina permite o jogo fluir. Só dentro deste acerto prévio o gol é válido.
      Será que ao torcer e ao celebrar nossas vitórias, não cabe pensar nisso tudo e alimentar nossos sonhos maiores?

* Leonardo Boff, Escritor. http://alainet.org/active/2147%26lang%3Des