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sábado, 24 de abril de 2010

DICA DE LIVRO



















O Incitamento ao DiscursoAo nível dos discursos e dos seus domínios, assiste-se a um fenómeno de incitamento ao discurso. É o poder que provoca este incitamento. Foucault fala-nos da Contra-Reforma que se esforça por acelerar o ritmo de confissão do povo. Tenta incutir regras de auto-exame, e deseja saber, em pormenor, o pecado dos pensamentos, desejos, imaginações e deleites da alma e do corpo, através do mecanismo da confissão. Impõe-se aqui como que uma coerção geral de incitamento ao discurso, um projecto de uma discursificação, que pressupõe a tarefa de se dizer a si próprio e de dizer a outro tudo o que se possa respeitar ao mecanismo dos prazeres, sensações, e pensamentos, que, através da alma e do corpo, têm qualquer afinidade com o sexo. O mesmo se passa na literatura, quando é escrito detalhadamente o escândalo dos actos consumados, as carícias sensuais, olhares impuros e palavras obscenas. Nasce então por volta do século XVIII, um incitamento político, económico, técnico, a que se fala do sexo: há um aumento constante e uma valorização cada vez maior do discurso sobre o sexo. Interessa sobretudo, aos agentes de poder, a forma de análise, de contabilidade, de classificação e de especificação do sexo em formas de pesquisas. Não interessa somente formular sobre ele um discurso moral, mas de racionalidade.“Deve-se falar dele como de uma coisa que não se tem simplesmente que condenar ou tolerar, mas que gerir, que inserir em sistemas de utilidade, que regular para o bem de todos, que fazer funcionar em ordem a um óptimo. O sexo não se julga apenas, administra-se. Ele tem a ver com o poder público; exige processos de gestão; o sexo no século XVIII, torna-se caso de polícia.” Assim, o que interessa é tornar mais firme e aumentar pela sabedoria dos seus regulamentos o poder interior do estado. Há uma necessidade de regulamentar o sexo por discursos úteis e públicos. Há uma necessidade de uma política natalista e antinatalista da população. Através de uma economia política da população forma-se toda uma grelha de observações sobre o sexo. Entre o século XVIII e XIX, pode-se falar de outros centros de discurso sobre o sexo. A medicina e a psiquiatria por intermédio da classificação das doenças e perversões sexuais, a justiça penal na sua jurisdição de atentados, ultrajes e perversões, a política, a religião. Por todo o lado, procura-se proteger, separar, prevenir; em torno do sexo, eles irradiam os discursos, intensificando a consciência de um perigo incessante, que por sua vez relança o incitamento a que dele se fale. Interroga-se com sobriedade a sexualidade das crianças, a sexualidade dos loucos e dos criminosos. Questionam-se aqueles que não gostam do outro sexo, classifica-se os seus devaneios, as obsessões, as manias. Nem por isso deixam de ser condenadas mas são escutadas. “Esta nova caça às sexualidades periféricas acarreta uma incorporação nas perversões e uma especificação nova dos indivíduos." A mecânica do poder que persegue toda esta variedade não pretende suprimi-la senão atribuindo-lhe uma realidade analítica, visível e permanente. Inaugura um princípio de classificação e de inteligibilidade, constitui-a como razão de ser e ordem natural da desordem. Por outras palavras, disseminando as personagens, pode semeá-las no real e de as incorporar no indivíduo. “Esta forma do poder exige, para se exercer, presenças constantes, atentas, curiosas; supõe proximidades; procede através de exames e de observações insistentes; requer uma troca de discursos, através de perguntas que vão extorquindo confissões e das confidências que ultrapassam as interrogações. Ela implica uma aproximação física e um funcionamento das sensações intensas.”O contacto desenfreado pelas formas do poder com os corpos e a sexualidade provocou em si o chamamento da sexualidade. Nasce aqui uma sensualização do poder e benefício de prazer, ao qual é conferida uma impulsão ao poder pelo seu próprio exercício. Por outras palavras, “o prazer difunde-se no poder que o persegue (…) prazer de exercer um poder que interroga, vigia, espreita, espia, rebusca, apalpa, traz à luz; e, do outro lado, prazer que se ateia por ter que escapar a esse poder, fugir-lhe, enganá-lo ou mascará-lo.” Foucault chama a este jogo sexual as espirais perpétuas do poder e do prazer. Assim, desta forma, será necessário abandonar a hipótese segundo a qual as sociedades industriais modernas inauguraram acerca do sexo uma idade de repressão. Pois verifica-se exactamente o inverso. A partir do século XVIII e século XIX até ao nosso século, nunca houve mais centros de poderes e jamais houve mais atenção manifesta, mais troca de informação, maior afinidade, maior curiosidade em relação ao sexo, maior laço de ligações, e sobretudo, maior entre cruzamento entre o prazer e o poder.
 
História da Sexualidade
Michel Foucault
Editora: Graal

quinta-feira, 22 de abril de 2010

OS SIMPSONS E A FILOSOFIA




Uma divertida maneira de se transmitir o conhecimento filosófico. O livro é voltado tanto para docentes de Filosofia quanto para o público não-filósofo – mas amantes do conhecimento ou dos Simpsons.
Antes de entrarmos no modo como o livro se escreve, cabe lembrar que o autor do desenho animado, Matt Groenning, também é filósofo e buscou, para montar os roteiros de Os Simpsons, apenas nerds e pessoas com um vastíssimo universo cultural e erudito, donde talvez se explique o enorme sucesso da série mesmo entre acadêmicos e a mantenha, já há quinze anos, no horário nobre das televisões de diversos países do mundo.
Os autores aproveitam os arquétipos dos personagens do desenho animado mais famoso da atualidade para transmitir um pouco das idéias de grandes filósofos, como Aristóteles e Kant, de uma forma que torna a leitura muito mais aprazível e interessante.
Apenas para dar uma idéia do que os aguarda, logo de início temos um estudo das virtudes aristotélicas utilizando-se como pano de fundo o jeito Homer de ser; em seguida vemos Lisa Simpson representada como a antítese da cultura norte-americana. Sobre o Bart... bem, nada mais óbvio, o relacionaram a Nietszche.
Esses e muitos outros ensaios compõem Os simpsons e a Filosofia: o D’oh de Homer, um livro escrito por filósofos, mas não apenas para filósofos. Mas este não é o único livro de ensaios filosóficos que toma como tema um seriado de televisão. Willian Irwin teve essa tresloucada idéia, inicialmente, com relação ao seriado Seinfield, de onde nasceu o livro Seinfield and the Philosophy: A Book about Everthing and Nothing. A partir daí, ao verem que a idéia pegou, não pararam mais: a seinfield, seguiu-se Os Simpsons, Friends, e até mesmo um livro analisando a Filosofia através de pontes com idéias e conceitos jogados na trilogia Matrix.
Talvez não seja o livro mais recomendado para se adotado como livro didático, talvez não seja um livro de cabeceira para acadêmicos da área, mas com certeza é um excelente livro de apoio às aulas e um excelente primeiro contato para o grande público com a Filosofia.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A difícil arte de filosofar depois dos 40

      Espera-se que adultos tenham certeza, que saibam guiar suas vidas por crenças bem enraizadas. Dá medo ter dúvidas e aí desconcentrar-se das tarefas que temos de tocar. 

      As crianças são filósofas espontâneas. Observe o que dizem. Fazem perguntas dificílimas que os adultos já desistiram de tentar responder. Se elas colocam essas questões, que são dú­­vidas naturais para os humanos, é porque ainda não sabem que é muito difícil encontrar respostas. Se é que há respostas...

      Um de meus filhos ouviu no Discovery Channel que um dia o planeta Terra vai acabar. Dias depois, do nada, me perguntou:
– Quando a Terra acabar, Deus ainda vai existir?
Na cabeça dele a existência de Deus está relacionada à existência do ser humano. E não me pareceu que estivesse insinuando que Deus é uma invenção nossa. Talvez não visse razão para Ele continuar existindo em um mundo sem aqueles que foram criados à sua imagem e semelhança.
Pelo menos em uma questão a opinião dos menores de 12 anos é levada em consideração pelos próprios filósofos. Existe uma tendência entre as crianças em acreditar em vida após a morte. Essa tendência é objeto de discussão porque há quem acredite que a fé dos pequenos vem do que lhes é ensinado e há quem diga que eles acreditam naturalmente, mesmo que ninguém lhes fale sobre vida após a morte. Para o segundo grupo, estudar a atitude das crianças em relação à vida após a morte é uma forma de entendermos a relação do ser humano com divindades.
Aquela pergunta do meu filho tem um frescor e uma sinceridade que são impossíveis de reproduzir. Se eu tentasse provocar um filósofo com uma questão qualquer, teria dificuldade para elaborar. O que me leva a me perguntar: será que tenho vergonha de pensar livremente ou de exprimir minhas dúvidas? Será que não estou bloqueando as dúvidas sobre questões abstratas? Acho que é isso mesmo que está acontecendo. Não sou mais criança e meu estilo de vida não está deixando espaço para divagações.
Espera-se que adultos te­­nham certeza, que saibam guiar suas vidas por crenças bem enraizadas. Dá medo ter dúvidas e aí desconcentrar-se das tarefas que temos de tocar. Ou parecer perdido demais. Além do mais, podemos nos perguntar: que diferença pensar nesses temas abstratos fará na minha vida? Aliás, esta é uma pergunta para os filósofos!
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?id=991358