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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ENTREVISTA


Pe. Manfredo - Referência da Filosofia no Brasil



Um dos principais nomes da filosofia no País, o padre Manfredo Oliveira se tornou referência internacional em estudos sobre ética. Ao aliar lógica e fé, ele defende que a crença em Deus parte da razão


Pe. Manfredo é cearense de Limoeiro do Norte.

      Viagens, só uma vez por mês. Mas nem sempre dá para cumprir a recomendação médica: os convites para palestras e conferências nas mais diversas universidades, tanto no Brasil como no exterior, muitas vezes ultrapassam essa cota para o cearense Manfredo Oliveira, 68 anos, cuja trajetória e obra o tornaram um dos mais renomados filósofos brasileiros da atualidade.
      Nascido em Limoeiro do Norte, Manfredo ultrapassou cedo as fronteiras do sertão cearense pelo acesso lá mesmo a diferentes idiomas, latim, grego, francês e inglês, ``coisa que hoje não existe mais em lugar nenhum``, como ele mesmo enfatiza. Pelas mãos da religião, ele chegou à filosofia, onde, na Alemanha, viveu todas as mudanças culturais de 1968 enquanto buscava respostas sobre a razão humana. E, pelo caminho da filosofia, retornou ao Ceará, mesmo ainda sem condições ideais de trabalho e tendo convites para lecionar nos mais importantes ambientes de estudo filosófico do País, por acreditar que tinha uma missão a cumprir em sua terra natal.
      É na síntese entre a razão e a fé que o filósofo, que também é padre, acredita estar a melhor explicação para o sentido da vida. Nas lembranças de sua própria trajetória e nas falas de diversos filósofos consagrados, Manfredo trouxe à luz, nesta entrevista dada ao O POVO na última quarta-feira, algumas de suas opiniões sobre a relação entre filosofia e fé, sobre os rumos da Igreja e sobre a política. Leia a seguir os principais trechos:
      O senhor é considerado uma sumidade intelectual. Ficar no Ceará foi uma opção pessoal?
Já naquela época eu tinha a ideia de que o intelectual, de alguma forma, tem que contribuir com a sociedade como um todo. As desigualdades regionais no Brasil são enormes e eu me via comprometido.
      Como foi sair de Limoeiro do Norte e se deparar com uma realidade tão distinta como a da Alemanha?
Embora eu tenha chegado à Alemanha depois de ter passado quatro anos na Itália, o choque foi muito forte. Choque cultural. Dei um prazo de três meses para mim. Se eu não entrasse naquele mundo, eu desistiria. Por coincidência, o terceiro mês era Natal. Eu fui passar com uma família e nesse momento eu comecei a ver que, mesmo com todas as diferenças, estamos no mesmo quadro da cultura ocidental. É só uma outra maneira de ser ocidental.
      Existe, na sua formação intelectual, alguma influência do contato com sua cidade natal?
Eu não saberia te dizer. Eu sempre fui uma pessoa meio estranha ao contexto. Desde muito cedo, botaram na cabeça que eu tinha vocação para o estudo. Tinha na família nomes que se destacaram. Lauro de Oliveira Lima é meu primo legítimo. Diatahy Bezerra de Menezes é meu primo. Havia um certo contexto. Meu irmão mais velho era professor de Engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eu fiquei um animal estudante, de forma que não houve aquele enraizamento ao Limoeiro. Claro que você não perde suas raízes. Mas hoje eu sou um ilustre desconhecido em Limoeiro.
      Hoje seria viável um estudante de Limoeiro chegar ao patamar que o senhor chegou?
Eu não tive uma formação de Limoeiro. Por quê? Porque eu entrei no seminário. No seminário de Limoeiro era a formação de padres holandeses. Se não fosse isso, eu não teria condições de fazer um doutorado na Alemanha. Por exemplo, na universidade de Munique, para o doutorado em Filosofia, se exigia três exames em latim e três em grego. Onde eu ia encontrar isso, se não tivesse sido no seminário? Da formação básica, eu acho que não existe mais isso em Limoeiro. É uma coisa diferente. Nós traduzimos toda a literatura clássica grega e latina, por escrito. No último ano, nós falávamos em inglês na sala de aula. Em canto nenhum mais do Brasil você encontra isso, não só em Limoeiro. Eu sou dinossauro, absolutamente dinossauro. Pertenço a uma raça que não existe mais (risos).
      O senhor sofreu muito preconceito por ser latino na Europa e por ser um filósofo nordestino no Brasil?
Ah, sim. Ainda existe preconceito nos dias de hoje. Existe uma luta para encontrar um lugar. Hoje, eu não sou famoso, mas sou pelo menos respeitado. Para isso, se fez necessário uma luta pela profissão. A ideia é que, de uma certa fronteira para cima, não existem mais mentes, filosofia, pensamento. Infelizmente isso acontece. Não só como latino, mas por vir de um país, naquela época, chamado de subdesenvolvido. Havia exemplos concretos, não era puro preconceito. Quando eu cheguei à Alemanha, havia um colega que estava há 16 anos tentando terminar um doutorado. A partir de exemplos, eles diziam que era uma coisa alta demais para um latino-americano. Para mim, isso constituiu um estímulo. Nosso problema não é falta de avanço civilizatório. Nosso problema é de desigualdade social gigantesca. Temos uma sociedade cindida ao meio. Quando eu recebia aqui amigos da Europa ou dos Estados Unidos, eu fazia questão de fazer uma viagem rápida da Aldeota ao Lagamar. E eles diziam: ``a gente saiu da Virgínia para Bangladesh?``. Isso é o Brasil.
      Como o senhor avalia a migração intelectual no País?
Veja bem, com esse problema eu já me deparei quando estava na Alemanha. Naquela época, existia a migração para os Estados Unidos, inclusive de filósofos. Os americanos foram muito sabidos, contrataram os filósofos europeus e também talentos de outras carreiras. Essa coisa é muito trágica. Isso me fez ficar aqui. Geralmente nas regiões onde mais há necessidade, o pessoal, por causa das condições de trabalho, resolve migrar. No nosso caso, há ainda um complexo de subdesenvolvimento muito arraigado inclusive na imprensa. Tudo que é de fora é chique e é bom. O daqui é relativamente problemático. Isso faz parte do povo. Uma falta de auto-estima que caracteriza regiões pouco desenvolvidas. Vocês me perguntam: eu, com essa formação, o que você faz aqui? No caso da Filosofia, eu sempre lembro no caso do (Immanuel) Kant. Ele morava no lugar mais afastado possível. Ele foi o filósofo mais importante do século XVIII na Alemanha, vivendo na extrema periferia, na Prússia Oriental. Se é pra ter valor, precisa mostrar que tem valor, não precisa morar aqui ou acolá.
      Como é, para um filósofo que trabalha autores que questionam até a existência de Deus, ser também padre, seguindo dogmas da religião? É um paradoxo?
Nenhum. Claro que talvez as religiões no mundo inteiro nunca tenham passado por uma crise tão profunda como hoje, porque é o sentido mesmo da religião que está em jogo, numa sociedade técnica-científica. Mas aí é que tá, é (um paradoxo) na medida que você considera o conhecimento científico o único conhecimento possível e sério na vida humana. Ora, essa afirmação não é mais científica, já está num outro nível, dogmático inclusive, porque você parte a priori. Agora, em relação especificamente à questão de Deus, eu defendo a tese que essa não é uma questão religiosa, é em primeiro lugar uma questão de razão humana. Agora, nesse sentido, as reações são ótimas. Uma vez o Sérgio Paulo Rouanet veio aqui lançar um livro meu, e pediu uma reuniãozinha com os professores. E naquela época estava muito em jogo a discussão sobre a pós-modernidade, e o Rouanet é um obsessivo defensor da modernidade, e eu, muito jeitosamente, fui falar de um jeito que os pós-modernos (não achassem ruim), pois já sabia que ele tinha falado de um jeito que tinha deixado o pessoal furioso na Faculdade de Direito. Aí, no dia seguinte, o Diatahy foi de uma falta de cortesia imensa: ele virou para o Sérgio e disse assim: ``olha, em primeiro lugar eu gostaria de me congratular com o meu primo, porque defendeu aqui coisas absolutamente fundamentais contra o Sérgio Paulo, que foi uma coisa terrível, um negócio inaceitável e insuportável``, e o Sérgio disse assim: ``olha, eu não vejo muita diferença da minha posição para o Manfredo, apenas ele é mais competente``, (e o Diatahy completou) ``Mas tem um problema, o Manfredo tem a cabeça dividida ao meio, para um lado é um homem inteligente, por outro lado faz parte de uma igreja estúpida, de um papa absurdo``. Eu não vejo nenhum problema nisso. Evidentemente que isso não significa dizer que eu aceito tudo e fico caladinho, mas significa dizer que eu tenho que contar com a finitude, a imperfeição e a limitação (das pessoas que fazem a igreja) e ser alguém vigilante para guardar a fidelidade ao grande horizonte.
      Está havendo uma guinada conservadora na Igreja?
Não é de hoje. Quando o João Paulo foi eleito, para mim isso já ia acontecer. Eu trabalhei durante três anos numa paróquia lá em Munique onde os poloneses tinham uma missa, e você imagina que depois de anos do Concílio Ecumênico II eles continuaram celebrando em latim. A missa deles vinha logo depois da minha, eu celebrava em alemão e logo depois vinha a deles em latim. O catolicismo polonês era uma espécie de refúgio de defesa cultural. Como eles se sentiam constrangidos e o socialismo real não teve um mínimo de tato para trabalhar o problema da religião, então a religião contribuiu como uma enorme força de resistência. Eu sabia que por causa exatamente dessa situação o catolicismo dos países do leste europeu era extremamente conservador, ele se conservava nas coisas tradicionais. E isso não sai da cabeça do papa Bento XVI, de alguma forma ele continua com essa história, embora saiba, claro, que vive num país extremamente moderno, e que a religião católica jamais voltará a ser aquele tipo de grupo que vai tutelar uma sociedade como um todo.
      Essa visão conservadora aumenta a crise da religião?
Para a juventude, sim. Na realidade, os países que se dizem cristãos na Europa não são mais cristãos, virou uma sociedade extremamente materializada e é esse o drama do papa. A religião deixou de ser fundamental na vida das pessoas, e como recuperar isso? A posição dos tradicionalistas é a volta à Igreja do passado, que tinha convicções e nada de grandes discussões. Assim você tem as ovelhinhas todas controladas pelo pastor, e o clericalismo volta com toda força. Essa é a solução deles para a crise da religião. E isso é muito difícil a meu ver, porque mesmo as ovelhinhas queridas não são mais tão ovelhinhas assim.
      Tem questões desse conservadorismo que extrapolam a Igreja e afetam o restante da sociedade, como a do aborto, a do uso de células tronco.
Eu vejo um mal entendido de ambos os lados. Primeiro, do ponto de vista da Igreja, que não poderia fazer lobbies e tem que reconhecer que vive numa sociedade autônoma. Pode propor, como em qualquer sociedade democrática, coisas que ela ache válidas não por causa da fé, mas por serem coisas humanas. Mas virou uma questão emotiva, ao invés de se tornar uma discussão real. Aborto não é um problema de quem tem religião, é um problema de qualquer ser humano. O que é que eu vou fazer com os embriões? São humanos ou não são humanos? Isso é uma questão que se põe tanto para um ateu como para um crente, e isso poderia permitir uma conversa humana, com critérios humanos em ambos os casos. A Igreja, em relação especificamente ao aborto e aos embriões, parte do princípio que ela não defende uma ideia religiosa, o que é correto, mas uma ideia científica, só que a ciência não tem unanimidade em relação a essas questões. Ela parte como se a teoria que diz que existe embrião desde o momento da concepção fosse a única teoria aceitável, e não é verdade, porque há outros que levantam dúvidas a respeito disso e que são tão cientificamente defensáveis como a primeira. Embora eu, pessoalmente, independente de qualquer fé, ache que é mais plausível que sim, pelas razões apresentadas, mas não tem nada a ver que seja a única. São coisas diferentes. Eu tenho a impressão de que essa se tornou uma discussão impossível.
      Diante da crise da religião, que tipo de teologia o senhor acredita que pode aproximá-la dos seres humanos?
Eu acho que a teologia tem que mostrar que o problema que as religiões tentam articular é o problema da resposta às questões mais fundamentais do ser humano. Uma religião hoje precisa ser capaz de falar aos seres humanos nesse sentido último, com uma proposta de resposta às grandes questões sobre o sentido da vida, o que afinal de contas nós temos a fazer nesse mundo, como enfrentar o problema do mal. E isso é uma das coisas que o papa diz com razão, ele diz que o mundo moderno criou coisas fantásticas, e que nós somos orgulhosos disso, mas deixamos em vazio as grandes questões do sentido. Para que essas coisas todas? Qual é o sentido de tudo isso em última instância? Nós estamos aqui para quê? Para onde nós vamos, há algum sentido englobante da vida humana ou o ser humano é uma paixão inútil, como dizia Sartre, cuja vida não tem o menor sentido e por mais que a gente lute, um dia tudo se acaba? Por isso a Igreja tem aqui (na América Latina) muito forte as questões sociais, porque é a vida que está sendo negada, é a dignidade da pessoa humana que está sendo absolutamente ameaçada, é a natureza que está sendo desrespeitada no seu ser.
      O senhor acha que o enfraquecimento da religião tem levado ao abandono de valores morais na sociedade atual?
É um grande problema. Eu não quero dizer que com isso a religião seja a única fonte da moralidade, de jeito nenhum, ela não é a primeira fonte, ela pode radicalizar, mas a primeira fonte é o próprio ser humano, a sua vida, as suas questões, é aí que ele reflete sobre valores. Agora, o grande problema é a motivação para a realização de valores éticos, porque a religião é uma motivação muito forte, aliás Hegel dizia isso. Ele dizia ``a modernidade tem razão quando procura uma moral autônoma, isto é, independente da religião, construída a partir da razão humana. Mas esqueceu que o ser humano não é só a capacidade de elaborar uma moral, ele precisa de motivações para agir, e a motivação religiosa é uma motivação enorme. Porque ela engloba a vida toda``.
      Ao falar da questão da moralidade, não dá para deixar de pensar na política, já que diariamente há escândalos.
Eu acho que essa discussão, por um lado, no Brasil é boa, mas por outro tremendamente unilateral, porque ela se concentrou nas ações individuais. Quer dizer, há políticos corruptos. Mas nunca se pensou com seriedade as estruturas políticas que tornam isso possível. Da forma como estão organizadas, por exemplo, as eleições no Brasil, é quase impossível não ter um caixa dois. Um frade beneditino candidato teria que fazer caixa dois, porque essa história do financiamento privado das campanhas, a não existência de partidos... Então esse é o elemento estrutural que devia ser atacado por uma reforma política, e quem fala isso? A estruturação política brasileira é toda apta a possibilitar corrupção.
      O senhor já foi filiado a algum partido?
Não, nunca pensei nisso. Eu, pessoalmente, acho que não devo fazer, até porque eu morro de medo de pensamento único. Eu defendo fortemente a ideia de que as igrejas, do ponto de vista político, deveriam ser lugares onde se poderia discutir livremente propostas diferenciadas. Eu me lembro que eu tinha uma colega das ciências sociais que de vez em quando me dizia: ``por que é que o partido político da Igreja é o PT?``. Há um perigo aí, porque, se você não votar com esse partido, é porque você é um traidor, você é direita. Isso é um dogmatismo de outra forma. As religiões já correm o perigo sempre, porque tratam do absoluto, de se considerarem absolutas, mas se ainda nas questões puramente técnicas, políticas, de valores e ideologias, você vai criar uma situação de direção única, você vai criar totalitarismos insuportáveis, e é isso que sempre me impressionou muito no socialismo real. Você não podia discordar nem sendo marxista que era tido como persona non grata.
      A ciência pode ser ainda mais dogmática que a religião?
Muito mais. Eu conheço um colega professor da Alemanha que uma vez, dando uma conferência em Moscou, fez críticas a Lênin, e um professor russo se levantou e disse: ``como é que o senhor ousa, neste lugar sagrado onde passou Lênin, criticar Lênin?``, e o alemão respondeu com calma ``eu não sabia que aqui tinha lugar sagrado`` (risos). Ironia fina. Quer dizer, essa mentalidade do século XIX, mentalidade dogmática, que é presente ainda muito nas igrejas, é presente também nos movimentos sociais, que surgiram nessa época e que a guardaram sem ter uma experiência democrática. Isso é ruim.


Perfil
Manfredo Araújo de Oliveira, 68, é padre e filósofo com mestrado em teologia pela Pontifícia Universidade Católica Gregoriana de Roma e doutorado pela Universidade München Ludwig Maximilian de Munique, na Alemanha. Tem 22 livros publicados, entre eles Ética e Sociabilidade (Loyola, 1997) e Dialética Hoje - Lógica, Metafísica e Historicidade (Loyola, 2004), além de dezenas de artigos que integram outras publicações. É professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Ceará (UFC), presidente da Fundação Marcos de Bruin e ministra missas aos domingos na igreja Nossa Senhora da Saúde, no Mucuripe.

      Ele se aposentou da UFC, mas continua a lecionar como professor voluntário e este semestre terá disciplinas.
      O curso de Filosofia da Universidade Federal do Ceará teve uma trajetória às avessas: iniciou com um mestrado e só depois a graduação. Agora luta pelo doutorado.
      Além das aulas, Manfredo atua no Lagamar, na Fundação Marcos de Bruin.
      Fundada em 1992 pelas comunidades eclesiais de base, a fundação dá apoio a crianças, jovens e adultos, especialmente para a formação profissional.
      Manfredo já foi regente de cantochão e gosta muito de cantar nas missas que reza todo domingo na igreja de Nossa Senhora da Saúde, no Mucuripe.
Fonte: Jornal O Povo

Um comentário:

  1. Caro colega de turma Nonato,Parabéns pelo blog! muito interessante essa entrevista, não o conhecia, mais pelo jeito ele é um filosofo renomado e leva o nome do nossa estado mundo afora.

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