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sábado, 30 de janeiro de 2010

Café filosófico

Idéias


Epicurismo: o prazer como missão

A doutrina da antiguidade clássica pregava

a satisfação (moderada) e zombava do destino.

por Liliane Prata*



Os gregos antigos estavam 
habituados a fazer uma 
série de especulações
místicas e filosóficas
a respeito da morte.
No campo supersticioso, 
a vontade dos deuses e 
os caprichos do destino
permeavam explicações 
para o fim da vida. 
Na filosofia, discutia-se
a ligação da alma com o
corpo e ensinavam-se 
maneiras de se lidar 
com o medo da morte.
Sócrates (470-399 a.C.), 
diante da preocupação acerca do tema, ensinava que “filosofar 
é aprender a morrer”. Mas, no fim do século IV a.C.,eis que uma 
escola inovadora abria suas portas ou, melhor dizendo, 
seus jardins, em Atenas. O mestre, Epicuro (341-270 a.C.), não só
considerava sem sentido as angústias em relação à morte, como
ria do destino e pregava que o sentido da vida era o prazer. 
Nascia o epicurismo.
O papel da filosofia, para Epicuro, é bem claro: cuidar da
saúde da alma. Assim como a medicina precisa se ocupar 
dos males do corpo, a filosofia só tem valor se cuidar dos 
da alma, longe de consistir num discurso vazio e abstrato. 
O discípulo Diógenes de Oenoanda resumiu a sabedoria 
do mestre em quatro “remédios” de cunho bem prático: 
1) Os deuses não devem ser temidos; 2) A morte não
deve amedrontar; 3) O bem é fácil de ser obtido; 
4) E o mal, fácil de suportar.
Comecemos pelo não temor aos deuses. Epicuro não 
era ateu, como foi acusado por alguns. Ele acreditava
na existência dos deuses, mas sustentava que estes 
eram indiferentes aos humanos. Serenos, as deidades 
habitariam um plano perfeito, não nutrindo nenhum
interesse pelas coisas que acontecem aqui embaixo. 
Assim, é inútil temê-los ou se preocupar com castigos. 
Ter medo do destino é igualmente desnecessário:ele 
não é tecido por forças divinas, mas escrito pelos humanos.

Voltemos, agora, ao tema da morte. Para os epicuristas, 
simplesmente não faz sentido se preocupar com ela. 
Acompanhe, leitor, o raciocínio: quando um ser humano 
existe, a morte não existe para ele. Quando ela existe,
ele é que não existe mais. Assim, nós nunca nos
encontramos com nossa morte – nossa existência
nunca se dá ao mesmo tempo da existência dela.
Logo, ocupemos nossas mentes com a vida e
desfrutemos dela. E qual é o maior bem que 
podemos usufruir? O prazer. Ah, o prazer!
Mas, calma lá. A noção de prazer, no epicurismo,
é extremamente refinada. Não se trata de uma busca
desenfreada pela fruição do momento presente, 
como era para outro grego, Aristipo de
Cirene (435-366 a.C.), conhecido por pregar 
o hedonismo. O prazer do epicurismo é calmo
e sereno. O sábio deve evitar a dor e as 
perturbações, levando uma vida isolada da
multidão, dos luxos e excessos. Colocando-se
em harmonia com a natureza, ele desfruta da paz. 
Epicuro condena a renovação a qualquer preço
e a ânsia pela mudança, pregando uma espécie 
de prazer tranquilo.
Para vivenciar esse prazer, é fundamental evitar 
a dor, como ensina o quarto remédio de Diógenes.
A tarefa não é difícil para Epicuro. Diferentemente
da postura desapegada em relação ao passado e
ao futuro, característica dos seguidores do 
estoicismo – corrente filosófica contemporânea 
e rival à de Epicuro –, os epicuristas afirmavam 
que, para amenizar momentos dolorosos, nada 
como se lembrar de alegrias passadas ou criar 
expectativas felizes em relação ao futuro. E não
pense que o mestre ensinava sem conhecimento 
de causa: ele mesmo sofria dores constantes, em
virtude de uma grave doença que o acompanhou 
em grande parte da vida.
Amizade nas escolas
Um dos valores defendidos pelos epicuristas é a amizade. 
O sábio, compreendido somente por outro sábio, vive 
melhor longe da multidão e da confusão da cidade, 
mas nem por isso deve seguir solitário: Epicuro 
considerava a amizade uma grande felicidade e
repreendia os que pretendiam passar a vida sem 
ela. Aliás, a própria escola, fundada em 306 a.C., era 
um espaço de convivência entre amigos. “Na Grécia
Antiga, as escolas eram bem diferentes das de hoje”, 
explica Marco Zingano, professor do departamento de
Filosofia da USP. “Lá, as pessoas viviam, dormiam, 
conversavam. Era um verdadeiro espaço de 
convivência.” Diferentemente de outras escolas, 
como o Pórtico, dos estóicos, a de Epicuro ficava
em um lugar afastado na cidade, funcionando como
um calmo retiro, como convinha aos ensinamentos 
da doutrina. Como a escola situava-se em um grande 
jardim, os discípulos, na época, ficaram conhecidos 
como “Filósofos do Jardim”.
*Liliane Prata é jornalista e graduanda em Filosofia pela Universidade de São Paulo.
Foto: Divulgação William-Adolphe Bouguereau 1825-1905 / The Day of the Dead 1859
http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/17/artigo133470-1.asp




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