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domingo, 31 de janeiro de 2010

Para Refletir



A filosofia nasce do nosso espanto 
acerca do mundo e da nossa própria existência, 
que se impõem ao nosso intelecto como um enigma, 
cuja solução não cessa, desde então, 
de preocupar a humanidade.
Schopenhauer

sábado, 30 de janeiro de 2010

Café filosófico

Idéias


Epicurismo: o prazer como missão

A doutrina da antiguidade clássica pregava

a satisfação (moderada) e zombava do destino.

por Liliane Prata*



Os gregos antigos estavam 
habituados a fazer uma 
série de especulações
místicas e filosóficas
a respeito da morte.
No campo supersticioso, 
a vontade dos deuses e 
os caprichos do destino
permeavam explicações 
para o fim da vida. 
Na filosofia, discutia-se
a ligação da alma com o
corpo e ensinavam-se 
maneiras de se lidar 
com o medo da morte.
Sócrates (470-399 a.C.), 
diante da preocupação acerca do tema, ensinava que “filosofar 
é aprender a morrer”. Mas, no fim do século IV a.C.,eis que uma 
escola inovadora abria suas portas ou, melhor dizendo, 
seus jardins, em Atenas. O mestre, Epicuro (341-270 a.C.), não só
considerava sem sentido as angústias em relação à morte, como
ria do destino e pregava que o sentido da vida era o prazer. 
Nascia o epicurismo.
O papel da filosofia, para Epicuro, é bem claro: cuidar da
saúde da alma. Assim como a medicina precisa se ocupar 
dos males do corpo, a filosofia só tem valor se cuidar dos 
da alma, longe de consistir num discurso vazio e abstrato. 
O discípulo Diógenes de Oenoanda resumiu a sabedoria 
do mestre em quatro “remédios” de cunho bem prático: 
1) Os deuses não devem ser temidos; 2) A morte não
deve amedrontar; 3) O bem é fácil de ser obtido; 
4) E o mal, fácil de suportar.
Comecemos pelo não temor aos deuses. Epicuro não 
era ateu, como foi acusado por alguns. Ele acreditava
na existência dos deuses, mas sustentava que estes 
eram indiferentes aos humanos. Serenos, as deidades 
habitariam um plano perfeito, não nutrindo nenhum
interesse pelas coisas que acontecem aqui embaixo. 
Assim, é inútil temê-los ou se preocupar com castigos. 
Ter medo do destino é igualmente desnecessário:ele 
não é tecido por forças divinas, mas escrito pelos humanos.

Voltemos, agora, ao tema da morte. Para os epicuristas, 
simplesmente não faz sentido se preocupar com ela. 
Acompanhe, leitor, o raciocínio: quando um ser humano 
existe, a morte não existe para ele. Quando ela existe,
ele é que não existe mais. Assim, nós nunca nos
encontramos com nossa morte – nossa existência
nunca se dá ao mesmo tempo da existência dela.
Logo, ocupemos nossas mentes com a vida e
desfrutemos dela. E qual é o maior bem que 
podemos usufruir? O prazer. Ah, o prazer!
Mas, calma lá. A noção de prazer, no epicurismo,
é extremamente refinada. Não se trata de uma busca
desenfreada pela fruição do momento presente, 
como era para outro grego, Aristipo de
Cirene (435-366 a.C.), conhecido por pregar 
o hedonismo. O prazer do epicurismo é calmo
e sereno. O sábio deve evitar a dor e as 
perturbações, levando uma vida isolada da
multidão, dos luxos e excessos. Colocando-se
em harmonia com a natureza, ele desfruta da paz. 
Epicuro condena a renovação a qualquer preço
e a ânsia pela mudança, pregando uma espécie 
de prazer tranquilo.
Para vivenciar esse prazer, é fundamental evitar 
a dor, como ensina o quarto remédio de Diógenes.
A tarefa não é difícil para Epicuro. Diferentemente
da postura desapegada em relação ao passado e
ao futuro, característica dos seguidores do 
estoicismo – corrente filosófica contemporânea 
e rival à de Epicuro –, os epicuristas afirmavam 
que, para amenizar momentos dolorosos, nada 
como se lembrar de alegrias passadas ou criar 
expectativas felizes em relação ao futuro. E não
pense que o mestre ensinava sem conhecimento 
de causa: ele mesmo sofria dores constantes, em
virtude de uma grave doença que o acompanhou 
em grande parte da vida.
Amizade nas escolas
Um dos valores defendidos pelos epicuristas é a amizade. 
O sábio, compreendido somente por outro sábio, vive 
melhor longe da multidão e da confusão da cidade, 
mas nem por isso deve seguir solitário: Epicuro 
considerava a amizade uma grande felicidade e
repreendia os que pretendiam passar a vida sem 
ela. Aliás, a própria escola, fundada em 306 a.C., era 
um espaço de convivência entre amigos. “Na Grécia
Antiga, as escolas eram bem diferentes das de hoje”, 
explica Marco Zingano, professor do departamento de
Filosofia da USP. “Lá, as pessoas viviam, dormiam, 
conversavam. Era um verdadeiro espaço de 
convivência.” Diferentemente de outras escolas, 
como o Pórtico, dos estóicos, a de Epicuro ficava
em um lugar afastado na cidade, funcionando como
um calmo retiro, como convinha aos ensinamentos 
da doutrina. Como a escola situava-se em um grande 
jardim, os discípulos, na época, ficaram conhecidos 
como “Filósofos do Jardim”.
*Liliane Prata é jornalista e graduanda em Filosofia pela Universidade de São Paulo.
Foto: Divulgação William-Adolphe Bouguereau 1825-1905 / The Day of the Dead 1859
http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/17/artigo133470-1.asp




terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ENTREVISTA


Pe. Manfredo - Referência da Filosofia no Brasil



Um dos principais nomes da filosofia no País, o padre Manfredo Oliveira se tornou referência internacional em estudos sobre ética. Ao aliar lógica e fé, ele defende que a crença em Deus parte da razão


Pe. Manfredo é cearense de Limoeiro do Norte.

      Viagens, só uma vez por mês. Mas nem sempre dá para cumprir a recomendação médica: os convites para palestras e conferências nas mais diversas universidades, tanto no Brasil como no exterior, muitas vezes ultrapassam essa cota para o cearense Manfredo Oliveira, 68 anos, cuja trajetória e obra o tornaram um dos mais renomados filósofos brasileiros da atualidade.
      Nascido em Limoeiro do Norte, Manfredo ultrapassou cedo as fronteiras do sertão cearense pelo acesso lá mesmo a diferentes idiomas, latim, grego, francês e inglês, ``coisa que hoje não existe mais em lugar nenhum``, como ele mesmo enfatiza. Pelas mãos da religião, ele chegou à filosofia, onde, na Alemanha, viveu todas as mudanças culturais de 1968 enquanto buscava respostas sobre a razão humana. E, pelo caminho da filosofia, retornou ao Ceará, mesmo ainda sem condições ideais de trabalho e tendo convites para lecionar nos mais importantes ambientes de estudo filosófico do País, por acreditar que tinha uma missão a cumprir em sua terra natal.
      É na síntese entre a razão e a fé que o filósofo, que também é padre, acredita estar a melhor explicação para o sentido da vida. Nas lembranças de sua própria trajetória e nas falas de diversos filósofos consagrados, Manfredo trouxe à luz, nesta entrevista dada ao O POVO na última quarta-feira, algumas de suas opiniões sobre a relação entre filosofia e fé, sobre os rumos da Igreja e sobre a política. Leia a seguir os principais trechos:
      O senhor é considerado uma sumidade intelectual. Ficar no Ceará foi uma opção pessoal?
Já naquela época eu tinha a ideia de que o intelectual, de alguma forma, tem que contribuir com a sociedade como um todo. As desigualdades regionais no Brasil são enormes e eu me via comprometido.
      Como foi sair de Limoeiro do Norte e se deparar com uma realidade tão distinta como a da Alemanha?
Embora eu tenha chegado à Alemanha depois de ter passado quatro anos na Itália, o choque foi muito forte. Choque cultural. Dei um prazo de três meses para mim. Se eu não entrasse naquele mundo, eu desistiria. Por coincidência, o terceiro mês era Natal. Eu fui passar com uma família e nesse momento eu comecei a ver que, mesmo com todas as diferenças, estamos no mesmo quadro da cultura ocidental. É só uma outra maneira de ser ocidental.
      Existe, na sua formação intelectual, alguma influência do contato com sua cidade natal?
Eu não saberia te dizer. Eu sempre fui uma pessoa meio estranha ao contexto. Desde muito cedo, botaram na cabeça que eu tinha vocação para o estudo. Tinha na família nomes que se destacaram. Lauro de Oliveira Lima é meu primo legítimo. Diatahy Bezerra de Menezes é meu primo. Havia um certo contexto. Meu irmão mais velho era professor de Engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eu fiquei um animal estudante, de forma que não houve aquele enraizamento ao Limoeiro. Claro que você não perde suas raízes. Mas hoje eu sou um ilustre desconhecido em Limoeiro.
      Hoje seria viável um estudante de Limoeiro chegar ao patamar que o senhor chegou?
Eu não tive uma formação de Limoeiro. Por quê? Porque eu entrei no seminário. No seminário de Limoeiro era a formação de padres holandeses. Se não fosse isso, eu não teria condições de fazer um doutorado na Alemanha. Por exemplo, na universidade de Munique, para o doutorado em Filosofia, se exigia três exames em latim e três em grego. Onde eu ia encontrar isso, se não tivesse sido no seminário? Da formação básica, eu acho que não existe mais isso em Limoeiro. É uma coisa diferente. Nós traduzimos toda a literatura clássica grega e latina, por escrito. No último ano, nós falávamos em inglês na sala de aula. Em canto nenhum mais do Brasil você encontra isso, não só em Limoeiro. Eu sou dinossauro, absolutamente dinossauro. Pertenço a uma raça que não existe mais (risos).
      O senhor sofreu muito preconceito por ser latino na Europa e por ser um filósofo nordestino no Brasil?
Ah, sim. Ainda existe preconceito nos dias de hoje. Existe uma luta para encontrar um lugar. Hoje, eu não sou famoso, mas sou pelo menos respeitado. Para isso, se fez necessário uma luta pela profissão. A ideia é que, de uma certa fronteira para cima, não existem mais mentes, filosofia, pensamento. Infelizmente isso acontece. Não só como latino, mas por vir de um país, naquela época, chamado de subdesenvolvido. Havia exemplos concretos, não era puro preconceito. Quando eu cheguei à Alemanha, havia um colega que estava há 16 anos tentando terminar um doutorado. A partir de exemplos, eles diziam que era uma coisa alta demais para um latino-americano. Para mim, isso constituiu um estímulo. Nosso problema não é falta de avanço civilizatório. Nosso problema é de desigualdade social gigantesca. Temos uma sociedade cindida ao meio. Quando eu recebia aqui amigos da Europa ou dos Estados Unidos, eu fazia questão de fazer uma viagem rápida da Aldeota ao Lagamar. E eles diziam: ``a gente saiu da Virgínia para Bangladesh?``. Isso é o Brasil.
      Como o senhor avalia a migração intelectual no País?
Veja bem, com esse problema eu já me deparei quando estava na Alemanha. Naquela época, existia a migração para os Estados Unidos, inclusive de filósofos. Os americanos foram muito sabidos, contrataram os filósofos europeus e também talentos de outras carreiras. Essa coisa é muito trágica. Isso me fez ficar aqui. Geralmente nas regiões onde mais há necessidade, o pessoal, por causa das condições de trabalho, resolve migrar. No nosso caso, há ainda um complexo de subdesenvolvimento muito arraigado inclusive na imprensa. Tudo que é de fora é chique e é bom. O daqui é relativamente problemático. Isso faz parte do povo. Uma falta de auto-estima que caracteriza regiões pouco desenvolvidas. Vocês me perguntam: eu, com essa formação, o que você faz aqui? No caso da Filosofia, eu sempre lembro no caso do (Immanuel) Kant. Ele morava no lugar mais afastado possível. Ele foi o filósofo mais importante do século XVIII na Alemanha, vivendo na extrema periferia, na Prússia Oriental. Se é pra ter valor, precisa mostrar que tem valor, não precisa morar aqui ou acolá.
      Como é, para um filósofo que trabalha autores que questionam até a existência de Deus, ser também padre, seguindo dogmas da religião? É um paradoxo?
Nenhum. Claro que talvez as religiões no mundo inteiro nunca tenham passado por uma crise tão profunda como hoje, porque é o sentido mesmo da religião que está em jogo, numa sociedade técnica-científica. Mas aí é que tá, é (um paradoxo) na medida que você considera o conhecimento científico o único conhecimento possível e sério na vida humana. Ora, essa afirmação não é mais científica, já está num outro nível, dogmático inclusive, porque você parte a priori. Agora, em relação especificamente à questão de Deus, eu defendo a tese que essa não é uma questão religiosa, é em primeiro lugar uma questão de razão humana. Agora, nesse sentido, as reações são ótimas. Uma vez o Sérgio Paulo Rouanet veio aqui lançar um livro meu, e pediu uma reuniãozinha com os professores. E naquela época estava muito em jogo a discussão sobre a pós-modernidade, e o Rouanet é um obsessivo defensor da modernidade, e eu, muito jeitosamente, fui falar de um jeito que os pós-modernos (não achassem ruim), pois já sabia que ele tinha falado de um jeito que tinha deixado o pessoal furioso na Faculdade de Direito. Aí, no dia seguinte, o Diatahy foi de uma falta de cortesia imensa: ele virou para o Sérgio e disse assim: ``olha, em primeiro lugar eu gostaria de me congratular com o meu primo, porque defendeu aqui coisas absolutamente fundamentais contra o Sérgio Paulo, que foi uma coisa terrível, um negócio inaceitável e insuportável``, e o Sérgio disse assim: ``olha, eu não vejo muita diferença da minha posição para o Manfredo, apenas ele é mais competente``, (e o Diatahy completou) ``Mas tem um problema, o Manfredo tem a cabeça dividida ao meio, para um lado é um homem inteligente, por outro lado faz parte de uma igreja estúpida, de um papa absurdo``. Eu não vejo nenhum problema nisso. Evidentemente que isso não significa dizer que eu aceito tudo e fico caladinho, mas significa dizer que eu tenho que contar com a finitude, a imperfeição e a limitação (das pessoas que fazem a igreja) e ser alguém vigilante para guardar a fidelidade ao grande horizonte.
      Está havendo uma guinada conservadora na Igreja?
Não é de hoje. Quando o João Paulo foi eleito, para mim isso já ia acontecer. Eu trabalhei durante três anos numa paróquia lá em Munique onde os poloneses tinham uma missa, e você imagina que depois de anos do Concílio Ecumênico II eles continuaram celebrando em latim. A missa deles vinha logo depois da minha, eu celebrava em alemão e logo depois vinha a deles em latim. O catolicismo polonês era uma espécie de refúgio de defesa cultural. Como eles se sentiam constrangidos e o socialismo real não teve um mínimo de tato para trabalhar o problema da religião, então a religião contribuiu como uma enorme força de resistência. Eu sabia que por causa exatamente dessa situação o catolicismo dos países do leste europeu era extremamente conservador, ele se conservava nas coisas tradicionais. E isso não sai da cabeça do papa Bento XVI, de alguma forma ele continua com essa história, embora saiba, claro, que vive num país extremamente moderno, e que a religião católica jamais voltará a ser aquele tipo de grupo que vai tutelar uma sociedade como um todo.
      Essa visão conservadora aumenta a crise da religião?
Para a juventude, sim. Na realidade, os países que se dizem cristãos na Europa não são mais cristãos, virou uma sociedade extremamente materializada e é esse o drama do papa. A religião deixou de ser fundamental na vida das pessoas, e como recuperar isso? A posição dos tradicionalistas é a volta à Igreja do passado, que tinha convicções e nada de grandes discussões. Assim você tem as ovelhinhas todas controladas pelo pastor, e o clericalismo volta com toda força. Essa é a solução deles para a crise da religião. E isso é muito difícil a meu ver, porque mesmo as ovelhinhas queridas não são mais tão ovelhinhas assim.
      Tem questões desse conservadorismo que extrapolam a Igreja e afetam o restante da sociedade, como a do aborto, a do uso de células tronco.
Eu vejo um mal entendido de ambos os lados. Primeiro, do ponto de vista da Igreja, que não poderia fazer lobbies e tem que reconhecer que vive numa sociedade autônoma. Pode propor, como em qualquer sociedade democrática, coisas que ela ache válidas não por causa da fé, mas por serem coisas humanas. Mas virou uma questão emotiva, ao invés de se tornar uma discussão real. Aborto não é um problema de quem tem religião, é um problema de qualquer ser humano. O que é que eu vou fazer com os embriões? São humanos ou não são humanos? Isso é uma questão que se põe tanto para um ateu como para um crente, e isso poderia permitir uma conversa humana, com critérios humanos em ambos os casos. A Igreja, em relação especificamente ao aborto e aos embriões, parte do princípio que ela não defende uma ideia religiosa, o que é correto, mas uma ideia científica, só que a ciência não tem unanimidade em relação a essas questões. Ela parte como se a teoria que diz que existe embrião desde o momento da concepção fosse a única teoria aceitável, e não é verdade, porque há outros que levantam dúvidas a respeito disso e que são tão cientificamente defensáveis como a primeira. Embora eu, pessoalmente, independente de qualquer fé, ache que é mais plausível que sim, pelas razões apresentadas, mas não tem nada a ver que seja a única. São coisas diferentes. Eu tenho a impressão de que essa se tornou uma discussão impossível.
      Diante da crise da religião, que tipo de teologia o senhor acredita que pode aproximá-la dos seres humanos?
Eu acho que a teologia tem que mostrar que o problema que as religiões tentam articular é o problema da resposta às questões mais fundamentais do ser humano. Uma religião hoje precisa ser capaz de falar aos seres humanos nesse sentido último, com uma proposta de resposta às grandes questões sobre o sentido da vida, o que afinal de contas nós temos a fazer nesse mundo, como enfrentar o problema do mal. E isso é uma das coisas que o papa diz com razão, ele diz que o mundo moderno criou coisas fantásticas, e que nós somos orgulhosos disso, mas deixamos em vazio as grandes questões do sentido. Para que essas coisas todas? Qual é o sentido de tudo isso em última instância? Nós estamos aqui para quê? Para onde nós vamos, há algum sentido englobante da vida humana ou o ser humano é uma paixão inútil, como dizia Sartre, cuja vida não tem o menor sentido e por mais que a gente lute, um dia tudo se acaba? Por isso a Igreja tem aqui (na América Latina) muito forte as questões sociais, porque é a vida que está sendo negada, é a dignidade da pessoa humana que está sendo absolutamente ameaçada, é a natureza que está sendo desrespeitada no seu ser.
      O senhor acha que o enfraquecimento da religião tem levado ao abandono de valores morais na sociedade atual?
É um grande problema. Eu não quero dizer que com isso a religião seja a única fonte da moralidade, de jeito nenhum, ela não é a primeira fonte, ela pode radicalizar, mas a primeira fonte é o próprio ser humano, a sua vida, as suas questões, é aí que ele reflete sobre valores. Agora, o grande problema é a motivação para a realização de valores éticos, porque a religião é uma motivação muito forte, aliás Hegel dizia isso. Ele dizia ``a modernidade tem razão quando procura uma moral autônoma, isto é, independente da religião, construída a partir da razão humana. Mas esqueceu que o ser humano não é só a capacidade de elaborar uma moral, ele precisa de motivações para agir, e a motivação religiosa é uma motivação enorme. Porque ela engloba a vida toda``.
      Ao falar da questão da moralidade, não dá para deixar de pensar na política, já que diariamente há escândalos.
Eu acho que essa discussão, por um lado, no Brasil é boa, mas por outro tremendamente unilateral, porque ela se concentrou nas ações individuais. Quer dizer, há políticos corruptos. Mas nunca se pensou com seriedade as estruturas políticas que tornam isso possível. Da forma como estão organizadas, por exemplo, as eleições no Brasil, é quase impossível não ter um caixa dois. Um frade beneditino candidato teria que fazer caixa dois, porque essa história do financiamento privado das campanhas, a não existência de partidos... Então esse é o elemento estrutural que devia ser atacado por uma reforma política, e quem fala isso? A estruturação política brasileira é toda apta a possibilitar corrupção.
      O senhor já foi filiado a algum partido?
Não, nunca pensei nisso. Eu, pessoalmente, acho que não devo fazer, até porque eu morro de medo de pensamento único. Eu defendo fortemente a ideia de que as igrejas, do ponto de vista político, deveriam ser lugares onde se poderia discutir livremente propostas diferenciadas. Eu me lembro que eu tinha uma colega das ciências sociais que de vez em quando me dizia: ``por que é que o partido político da Igreja é o PT?``. Há um perigo aí, porque, se você não votar com esse partido, é porque você é um traidor, você é direita. Isso é um dogmatismo de outra forma. As religiões já correm o perigo sempre, porque tratam do absoluto, de se considerarem absolutas, mas se ainda nas questões puramente técnicas, políticas, de valores e ideologias, você vai criar uma situação de direção única, você vai criar totalitarismos insuportáveis, e é isso que sempre me impressionou muito no socialismo real. Você não podia discordar nem sendo marxista que era tido como persona non grata.
      A ciência pode ser ainda mais dogmática que a religião?
Muito mais. Eu conheço um colega professor da Alemanha que uma vez, dando uma conferência em Moscou, fez críticas a Lênin, e um professor russo se levantou e disse: ``como é que o senhor ousa, neste lugar sagrado onde passou Lênin, criticar Lênin?``, e o alemão respondeu com calma ``eu não sabia que aqui tinha lugar sagrado`` (risos). Ironia fina. Quer dizer, essa mentalidade do século XIX, mentalidade dogmática, que é presente ainda muito nas igrejas, é presente também nos movimentos sociais, que surgiram nessa época e que a guardaram sem ter uma experiência democrática. Isso é ruim.


Perfil
Manfredo Araújo de Oliveira, 68, é padre e filósofo com mestrado em teologia pela Pontifícia Universidade Católica Gregoriana de Roma e doutorado pela Universidade München Ludwig Maximilian de Munique, na Alemanha. Tem 22 livros publicados, entre eles Ética e Sociabilidade (Loyola, 1997) e Dialética Hoje - Lógica, Metafísica e Historicidade (Loyola, 2004), além de dezenas de artigos que integram outras publicações. É professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Ceará (UFC), presidente da Fundação Marcos de Bruin e ministra missas aos domingos na igreja Nossa Senhora da Saúde, no Mucuripe.

      Ele se aposentou da UFC, mas continua a lecionar como professor voluntário e este semestre terá disciplinas.
      O curso de Filosofia da Universidade Federal do Ceará teve uma trajetória às avessas: iniciou com um mestrado e só depois a graduação. Agora luta pelo doutorado.
      Além das aulas, Manfredo atua no Lagamar, na Fundação Marcos de Bruin.
      Fundada em 1992 pelas comunidades eclesiais de base, a fundação dá apoio a crianças, jovens e adultos, especialmente para a formação profissional.
      Manfredo já foi regente de cantochão e gosta muito de cantar nas missas que reza todo domingo na igreja de Nossa Senhora da Saúde, no Mucuripe.
Fonte: Jornal O Povo

domingo, 10 de janeiro de 2010

Notícias

Açores formam «filósofos» de palmo e meio

Angra do Heroísmo: projecto pioneiro a nível nacional «ensina» Filosofia a crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo


      As crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo de uma escola nos Açores estão a aprender a desenvolver o raciocínio filosófico. A Escola Tomás de Borba, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, está a desenvolver um projecto pioneiro a nível nacional que «ensina» Filosofia aos alunos do ensino básico.
      Uma vez por semana, durante 45 minutos, cerca de 100 crianças, contactam com a Filosofia através de jogos, adivinhas e contos. Estas actividades permitem «estimular, de forma simples e lúdica, técnicas básicas de raciocínio filosófico», revela Mário Cabral, coordenador do projecto, em declarações à Lusa.
      «Não ensino Filosofia, a minha preocupação é treinar os alunos para o raciocínio com regras», salienta o docente. Para atingir esse objectivo, o professor envolve as crianças em jogos e brincadeiras que permitem «descodificar conceitos filosóficos e estruturar o pensamento».
      «Um dia mostrei aos meus alunos uma semente de jacarandá, que tem a capacidade de dar origem a uma árvore, o que serviu para chegar ao conceito de potência e acto», salienta Mário Cabral. O professor recorda que essa foi uma das aulas que «correram melhor».
      «É como se fosse uma ginástica mental, que é feita através de jogos e contos. Ao contrário do que se possa pensar, as crianças estão aptas, por natureza, à grande vantagem da filosofia, que é saber pensar», sublinha.
      O projecto arrancou no ano lectivo de 2008/2009 com três turmas do primeiro ciclo do ensino básico. O «entusiasmo» das crianças «cresceu» de tal forma que, neste ano lectivo, abrange também uma turma do pré-escolar.
Fonte:
http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/acores-ensino-filosofia-criancas-primeiro-ciclo-tvi24/1114578-4071.html




NOTÍCIAS/SOCIEDADE

Alunos do pré-escolar aprendem Filosofia na Terceira
Por: António Gil
Platão

      Podem ainda não saber quem foi Platão ou Aristóteles, mas 20 alunos de uma turma do pré-escolar da Escola Tomás de Borba, na Terceira, estão a aprender a descodificar conceitos filosóficos e a estruturar o pensamento.
      O projecto pioneiro no panorama educativo açoriano arrancou no ano lectivo 2008/2009 com três turmas do 1º ciclo do ensino básico e este ano estendeu-se a uma turma da pré-escolar.
      “Filosofar é pensar com regras”, afirmou o professor Mário Cabral, coordenador do projecto que visa ensinar de forma simples técnicas básicas de raciocínio filosófico a crianças de tenra idade.
      Segundo o docente, ensinar Filosofia às crianças pode ajudar, por exemplo, a introduzir e explicar valores como o altruísmo, a higiene e desenvolver o pensamento lógico, dedutivo e argumentativo através de jogos, textos ou uma simples conversa.
      “A história da Filosofia será estudada quando chegar a altura certa. Nesta fase inicial trata-se de estimular o raciocínio lógico, poder argumentativo e introduzir valores”, sustentou Mário Cabral, para quem existe um sem número de razões para começar a ensinar Filosofia às crianças, mesmo antes de se saber ler e escrever.
      “Ao contrário do que se possa pensar as crianças estão aptas, por natureza, à grande vantagem da Filosofia, ou seja, saber pensar. Ao fim ao cabo estas aulas fornecem instrumentos para os alunos saberem pensar. Tudo surge de forma natural. O que fazemos é desenvolver o que naturalmente elas já têm”, sustentou o docente, acrescentando que todo o material didáctico utilizado nas aulas foi concebido na escola.
      A grande diferença entre a filosofia para crianças e para adultos reside no bom senso da escolha das metodologias e linguagens adequadas à idade dos intervenientes.
      Este projecto, de inovação pedagógica e curricular da Escola Tomás de Borba, decorre semanalmente, com aulas de 45 minutos, embora a Filosofia seja transversal a todas as disciplinas
      No total estão envolvidos neste projecto cerca de 100 alunos, do pré-escolar ao primeiro ciclo do ensino básico.
      Além do trabalho directo com os alunos, o projecto contempla formação específica para os professores responsáveis pelas turmas, enquanto membros integrantes das aulas, e para a generalidade dos docentes da escola Tomás de Borba que assim queiram.
      Para a Secretaria Regional da Educação e Formação este projecto pioneiro constitui “mais um exemplo da dinâmica e empenho das escolas açorianas em proporcionar aos alunos um ensino de excelência centrado na formação integral das crianças e jovens açorianas”.
António Gil com GaCS
Fonte: http://ww1.rtp.pt/acores/index.php?article=12351&visual=3&layout=10&tm=7

sábado, 2 de janeiro de 2010

NOTÍCIAS

Pequenas grandes crianças


Pequenas somente no tamanho. Esse é cada vez mais o panorama que define as crianças desse início de século XXI. Com uma disponibilidade de informações e ferramentes sensivelmente superior ao que tinham as crianças do século passado, os pequenos se desenvolvem cada vez mais cedo, com uma capacidade de discernimento, armazenamento de informações e raciocínio, cada vez maior. O fenômeno é percebido tanto por pais quanto por professores e especialistas e vem dando início à necessidade de que os pais também aprendam a lidar com esse novo mundo.




Marcelo Barroso

Com uma gama de informações à disposição delas, as crianças de hoje se desenvolvem cada vez mais cedo, aprimorando o senso crítico e o raciocínio ainda na infânciaA reportagem da TRIBUNA DO NORTE conversou com crianças, pais e educadores e percebeu que os meninos e meninas têm cada vez mais voz: tanto no que diz respeito à abertura dos pais quanto na capacidade de se expressar e “participar” do mundo dos adultos de forma saudável. Heitor, Artur, Bernardo e Milena são bons exemplos dessa nova forma de crescer e se desenvolver sem perder a infância.

Toda criança é um prisioneiro político. A afirmação categórica do filósofo francês Gilles Deleuze data de meados da década de 70 e se refere ao fato de que as crianças, pelo menos até aquela data, não tinham direito à voz e estavam sempre sujeitas à vontade do adulto. Mesmo ainda não sendo senhores e senhoras de si, as crianças do século XXI experimentam uma maior abertura de diálogo, consequência de sua capacidade de raciocínio e compreensão, bem maiores do que de crianças do “século passado”. O fenômeno é perceptível tanto entre especialistas quanto no cotidiano dos pequenos.

Heitor Pereira Paiva tem nove anos e já tem esposa, além de dois filhos. Impossível na vida real, a experiência de casado é viável virtualmente. Trata-se do jogo Habbo Hotel, disponível na internet, e que simula a vida real com várias nuances, como comprar mobília, fazer amigos, ganhar dinheiro, etc. Cada participante cria um personagem e interage entre si. Daí, surgem amizades virtuais, casais virtuais, vidas virtuais. Para desfrutar da diversão, é preciso seguir uma série de passos, alguns até complicados, como cadastro, escolha das características do personagem, etc. O que para muitos adultos seria difícil de manipular e entender, não parece complicar a diversão de Heitor.

Os dois pontos – facilidade para se comunicar e se relacionar com o mundo adulto e o acesso a tecnologias e modos de vida cada vez mais modernos – encontram um ponto comum quando se pensa na amplitude de informações disponíveis para crianças em tempos de internet. “Hoje as crianças já se desenvolvem com muita rapidez de pensamento, reflexo e capacidade de raciocínio. Isso traz a possibilidade de uma nova relação com os pais e com o mundo porque elas passam a entender mais coisas e se expressar com mais facilidade”, opina a psicóloga Ádria Tabosa.

Para conferir ao vivo a facilidade de processamento e compreensão das crianças, a reportagem da TRIBUNA DO NORTE conversou com quatro crianças, entre elas o já citado Heitor. Todas elas irão completar 10 anos em 2010. Todas representam bem o que um dia irá se chamar geração 2000. A conversa com as crianças impressiona, a priori, justamente pela fluidez das palavras: as crianças falam e falam bem.

Artur Mulatinho, por exemplo, filho do jornalista Alexandre Mulatinho, consegue se expressar e se explicar de forma tão “adulta” que chega a impressionar o pai. “Lembro que na minha época existia uma diferença clara entre conversa de adulto e conversa de criança. Hoje, a criança fala sobre tudo”, diz. Não é exagero. A forma como Artur e seu amigo Bernardo, ambos de nove anos, discorrem sobre futebol é uma evidência. O assunto pode parecer infantil, mas o tratamento é de um profissional. “Prefiro o Messi ao Cristiano Ronaldo e ao Kaká. O Messi dribla melhor na maioria das vezes e faz gols em jogos mais decisivos”, diz Artur. Na conversa, as duas crianças são capazes de lembrar a trajetória de jogadores e a escalação de clubes com uma diferença do que era mais comum há 10 anos atrás: a preferência é por times estrangeiros. Artur e Bernardo, por exemplo, são capazes de citar pelo menos três clubes em cada um dos principais países da Europa. Não é todo adulto que sabe.

Por outro lado, a facilidade e a rapidez da criança cria uma necessidade a mais no pai e na mãe. “É preciso que os adultos saibam compreender o contexto em que vivem essas crianças, que muitas vezes é bastante do que o pai e mãe cresceram. Hoje, a criança já sabe falar com mais clareza, já questiona e demanda uma atenção maior”, diz Ádria Tabosa. As diferenças também são visíveis para os pais. “Eu percebo que hoje existe muito mais diálogo do que quando eu era criança. O pai precisa estar atento porque ao mesmo tempo em o acesso às informações é amplo, isso pode ser usado para o bem ou para o mal”, diz Mulatinho.

Computadores fazem parte da rotina

No meio da tarde, Milena Fernandes não tem dúvidas. Se a mãe, Anne Fernandes, não atende o celular, a menina corre para o MSN. “Quando eu tento falar com meu pai e minha mãe e eles não atendem, eu tento pelo MSN. Quase sempre dá certo”, afirma a menina, que também tem nove anos, acrescentando que usa o serviço de mensagens instantâneas para conversar com as amigas do colégio e a família. “Minha mãe não me deixa conversar com estranhos”, diz.

Orkut, MSN, Twitter, informação on line. Tudo isso é aprendido desde cedo. No caso de Artur e Bernardo, os dois “especialistas” em futebol internacional, a lista de contatos no MSN é ampla. Cada um tem cerca de 30 pessoas como amigos virtuais. Ambos também fazem parte da rede social mais famosa do Brasil (não é demais lembrar que o Orkut é permitido apenas para maiores de 18 anos, embora seja uma regra muito pouco respeitada). “Uso mais para conversar com meus amigos e primos. Não tenho amigos somente virtuais. Conheço todos pessoalmente”, explica Artur.

Ao mesmo tempo, se o videogame poderia, até um passado recente, ser considerado uma novidade, hoje os jogos de computador, muitos jogados apenas na internet, ganham cada vez mais espaço. Bernardo e Artur preferem o videogame e o último, inclusive, tem dois deles: um Playstation II e um Nitendo Wii. Contudo, Heitor já embarcou na onda dos jogos on line. O garoto joga vários títulos além de Habbo, onde conversa com amigos e cuida de sua “esposa e filho”. “Gosto de jogar todo tipo de jogo, muitos deles na internet. Gosto de futebol, lego, boxe, jogos de avião e luta. Sou bem eclético”, aponta.

Mais uma vez, a amplitude de ferramentas pede uma atenção especial dos pais, que são obrigados a se preocuparem com os efeitos, positivos ou negativos, que a avalanche de eletrônica pode ocasionar. No caso das ferramentas de comunicação, o perigo é justamente expor os pequenos a contatos indesejáveis, na internet. “Na minha casa não há filtro de conteúdo na internet, mas costumo acompanhar os contatos no MSN e Orkut e as páginas visitadas. É uma coisa que pode ser boa ou ruim e precisa ter alguém para orientar”, diz Alexandre Mulatinho. Cledivânia Pereira, jornalista, e mãe de Heitor, vai mais além. “Não deixo o Heitor ter Orkut, MSN, nada disso. A criança fica suscetível a conhecer gente estranha, mal intencionada. Deixo para mais tarde”, encerra.

Brincadeiras tradicionais não são esquecidas

A forma de se comunicar e de se divertir é um ponto fascinante quando se pensa nas mudanças velozes que o mundo tem passado. Tudo o que diz respeito ao virtual, ao digital e à tecnologia impressiona. Tanto que a primeira idéia que se tem é que essas novas formas de diversão e comunicação, virtuais, podem substituir de uma vez por todas o velho e bom contato direto. Ledo engano. A meninada curte o videogame, mas não abre mão de brincar na rua ou no playground.

Das quatro crianças entrevistadas pela TRIBUNA DO NORTE, todas demonstraram que a quantidade de tempo dedicado ao videogame e ao computador é praticamente igual ao vivido jogando bola, brincando de boneca, polícia e ladrão, entre outras. Algumas brincadeiras de fato ficam no passado – existem apenas na saudade dos pais – mas outras sobrevivem ao passar dos anos.

Milena Fernandes não esconde que adora jogar no computador e no videogame, mas é no quarto repleto de barbies que ela e suas amigas realmente se encantam. A menina de nove anos confessa que já perdeu as contas de quantas bonecas têm – são muitas, de todas as cores, roupas, para todas as “ocasiões”. “É o que mais gosto de brincar, se pudesse brincava todo dia, mas minha mãe não deixa durante a semana porque preciso estudar”, conta. As barbies são tão importantes na vida de Milena que têm direito a um quarto só para elas.

Como Milena mora em um condomínio de casas, o velho costume de brincar na rua permanece vivo no cotidiano da menina. O pé imobilizado por conta de uma torção é a prova viva. “Torci o pé brincando de correr na rua”, conta. Os jogos que Milena e seus amigos brincam são os mesmos que se brincam há dezenas de anos: esconde-esconde, pega-pega (hoje chamado de tica-tica), bandeirinha, etc.

Para os meninos, a “paixão nacional” ainda é campeã. Jogar bola na rua, uma tradicional e saudável mania brasileira, sobrevive como principal fonte de diversão da maioria. Contudo, uma curiosa mudança é bem perceptível: a rejeição de brincadeiras mais violentas.

“Cuzcuz” é uma das mais famosas. Consiste em ir retirando a terra que segura um pedaço de pau em pé até que ele caia. Quando o graveto vai ao chão, o autor da proeza precisa correr para a mancha e até lá vai apanhando do resto da meninada. Artur e Bernardo, quando ouvem o repórter falar na brincadeira, franzem o rosto. Conhecem o jogo, é claro, mas não brincam de jeito nenhum. “Já me explicaram como é, mas nunca joguei”, diz Bernardo. Heitor, da mesma forma, não gosta. “Não gosto de jogo violento, já ouvi falar como é, mas nem eu nem meus amigos gostamos”, encerra.
Fonte:
http://tribunadonorte.com.br/noticia/pequenas-grandes-criancas/136539