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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

MORRE MATTHEW LIPMAN

Matthew Lipman, o pai da filosofia para crianças morreu no último domingo (26/12) em Nova Jersey.


Matthew Lipman (nascido em 24 de agosto de 1922, em Vineland, Nova Jersey , faleceu em 26 de dezembro de 2010, em West Orange, New Jersey ) é reconhecido como o fundador do programa de Filosofia para Crianças

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

POR QUE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO

Texto apresentado no dia 18 de dezembro de 2010 no Seminário Sociologia e Filosofia no Ensino Médio: Por quê? Para quê?  (Universidade Federal do Ceará)



Porque Sociologia e Filosofia no ensino médio


Prof. Dr. Amaury Cesar Moraes – FEUSP/SBS



Introdução

      Considero importante a presença dessas disciplinas por dois motivos: 1) porque elas, em si, têm muito a contribuir, quer porque trazem informações que os alunos não recebem de outras disciplinas (nem história, nem geografia, nem língua portuguesa – considerando aquelas que são as humanidades); quer porque elas oferecem modos de pensar - argumentos, perspectivas, metodologias - diversos de outras disciplinas. São disciplinas que conjugam uma tradição (filosofia mais longa, sociologia mais recente) e tratamento direto da realidade em que os alunos estão envolvidos: política, sociedade, artes, ética, economia, mídia, etc.; 2) porque a simples idéia de elas poderem estar nos currículos chega a provocar todo um debate sobre o currículo. Infelizmente, no entanto, esses debates no Brasil não acontecem com honestidade, nem dentro, nem fora da escola. Assim, sociologia e filosofia acabam parecendo intrusas e seus defensores corporativos, mas ninguém discute o que estão fazendo pela formação dos jovens estas outras disciplinas que, pelo que dizem os resultados de exames nacionais e internacionais, não têm contribuído muito. Eu esperava que fosse esta a oportunidade de todos discutirem o tal do currículo e não ficarem guardando o seu latifúndio improdutivo armados até os dentes.

Porque Sociologia no Ensino Médio

      Começamos por dizer que a disciplina escolar "Sociologia" consagrou um espaço para as outras Ciências Sociais, a Ciência Política e a Antropologia que, juntamente com a primeira, trazem uma ampliação do debate em torno dos fenômenos sociais. Não se pode ignorar que tanto a História como a Geografia vêm incorporando traços constituintes das ciências sociais. A geografia humana ou a história social são tributárias da Sociologia, da Antropologia ou da Ciência Política. E reconhecemos também que estudos como Casa Grande e Senzala ou Raízes do Brasil são obras que, originalmente produzidas no campo das Ciências Sociais, tornaram-se com o tempo referências para as ciências humanas como um todo, rompendo fronteiras. Sabemos também que as críticas ao ensino tradicional de História e Geografia só foram possíveis a partir de perspectivas transdisciplinares e, sobretudo, que as alternativas a essa forma de ensino decorreram também das relações menos preconceituosas ou corporativistas que historiadores e geógrafos foram mantendo com sociólogos, antropólogos e cientistas políticos.
      As razões pelas quais a Sociologia deve estar presente no currículo do ensino médio são diversas. A mais imediata é essa sobre o papel que essa disciplina desempenharia na formação do aluno e sua “preparação para o exercício da cidadania”, até para atender o disposto em lei (LDB 9394/96). Não se pode entender que entre 15 e 18 anos, após 8, 9, 10 anos de escolaridade, o jovem ainda fique sujeito a aprender “noções” ou a exercitar a mente em debates circulares, aleatórios e arbitrários. Parece que nesta fase de sua vida, a curiosidade vai ganhando certa necessidade de disciplinamento, o que demanda procedimentos mais rigorosos, que mobilizem razões históricas e argumentos racionalizantes acerca dos fenômenos – naturais ou culturais. Mesmo quando está em causa promover a tolerância ou combater os preconceitos, a par de um processo de persuasão que produza a adesão a valores, resta a necessidade de construir e demonstrar a “maior” racionalidade de tais valores diante dos costumes, das tradições e do senso comum.
      Por outro lado, na medida em que a escola é um espaço de mediação entre o privado – representado pela família, sobretudo – e o público – representado pela sociedade (Hannah Arendt, 1968) -, esta deve também favorecer, por meio do currículo, procedimentos e conhecimentos que façam essa transição. De um lado, o acesso a informações profissionais é uma das condições de existência do ensino médio; de outro, o acesso a informações sobre a política, a economia, o direito é fundamental para que o jovem se capacite para a continuidade nos estudos e para o exercício da cidadania, entendida estritamente como direito/dever de votar, ou amplamente como direito/dever de participar da própria organização de sua comunidade e País.
      Numa sociedade como a nossa, em que se acumularam formas tão variadas e intensas de desigualdades sociais - efetivadas por processos chamados por alguns de “exclusão social” e por outros de “inclusão perversa” -, em que a lentidão nas mudanças é uma constante, o acesso ao conhecimento científico sobre esses processos constitui um imperativo político de primeira ordem.
      Chegamos, então, à presença da Sociologia no nível médio. Aqui caberia transcrever as palavras de Florestan Fernandes, em artigo publicado nos anos 50 e que tratava justamente d’O ensino de Sociologia na escola secundária brasileira (ATAS do 1o Congresso Brasileiro de Sociologia, São Paulo: 1954) Parece que, atualizando as palavras, reorientando as intenções, valem os mesmos objetivos e justificativas ainda hoje. Fernandes diz:
“... a transmissão de conhecimentos sociológicos se liga à necessidade de ampliar a esfera dos ajustamentos e controles sociais conscientes, na presente fase de transição das sociedades ocidentais para novas técnicas de organização do comportamento humano.”
Citando Mannheim, ele acrescenta:
“as implicações desse ponto de vista foram condensadas por Mannheim sob a epígrafe ‘do costume às ciência sociais’ e formuladas de uma maneira vigorosa, com as seguintes palavras: ‘enquanto o costume e a tradição operam, a ciência da sociedade é desnecessária. A ciência da sociedade emerge quando e onde o funcionamento automático da sociedade deixa de proporcionar ajustamento. A análise consciente e a coordenação consciente dos processos sociais então se tornam necessárias”.
      Como se vê, as razões para que a Sociologia esteja presente no ensino médio no Brasil não só se mantêm como têm-se reforçado. As estruturas sociais estão ainda mais complexas, as relações de trabalho se atritam com as novas tecnologias de produção, o mundo está cada vez mais “desencantado”, isto é, cada vez mais racionalizado, administrado, dominado pelo conhecimento científico e tecnológico. No campo político os avanços da democratização têm sido simultâneos aos avanços das tecnologias de informação e comunicação, tendendo a corromper-se esse regime político em novas formas de populismos e manipulações. No campo social, o predomínio do discurso econômico tem promovido uma “renaturalização” das relações, reforçando aqui o caráter ambíguo (e perverso) da racionalidade contemporânea.
      O ensino médio pode ser entendido como momento final do processo de formação básica, uma passagem crucial na formação do indivíduo - para a escolha de uma profissão, para a progressão nos estudos, para o exercício da cidadania conforme diz a lei -, e para isso a Sociologia tem importantes contribuições a dar. Porque ela traz informações que os alunos não recebem de outras disciplinas (nem história, nem geografia, nem língua portuguesa – considerando aquelas que são as humanidades); quer porque ela oferece modos de pensar - argumentos, perspectivas, metodologias - diversos de outras disciplinas. É uma disciplina que conjuga uma tradição ao tratamento direto da realidade em que os alunos estão envolvidos: política, sociedade, artes, ética, economia, mídia, etc..
      Ao lado das propostas clássicas, temáticas e intervencionistas, podemos pensar o ensino das Ciências Sociais a partir de objetos: a literatura, a música popular, o cinema, os meios de comunicação, o teatro e a própria educação. Muitas vezes nos perguntam para que ensinar sociologia? Podemos perguntar: em que medida é possível discutir literatura, música popular, cinema, meios de comunicação, teatro e educação fora da influência esclarecedora das Ciências Sociais? Seria algo muito pobre e muito pouco útil discussões que negassem essa contribuição. E a confiar no que dizem sobre o homem globalizado, nenhuma ciência prepara melhor esse homem do que as Ciências Sociais: quer no sentido de compreender e atuar nesse mundo presente, quer no sentido de superá-lo oferecendo crítica e alternativas para um mundo futuro.

Porque Filosofia no Ensino Médio

      Há várias razões pelas quais a Filosofia deve constar como disciplina no ensino médio. Sem pretender esgotar, apresentamos a seguir algumas, que não estão ordenadas segundo o grau de importância. A matéria-prima da Filosofia é a cultura, entendida esta no seu sentido mais amplo: artes, ciências, tecnologias, tradições, configurações políticas e sociais, comportamentos, manifestações religiosas, etc. Ora, se considerarmos o currículo escolar – que se quer cada vez mais próximo da vida real – em suas relações com a cultura, percebemos que as aulas de Filosofia são uma oportunidade imprescindível para um debate e aprendizado sobre esses elementos e sobre as formas de compreensão e intervenção nesse aspecto da vida. Nesse sentido, a Filosofia não é só uma parte da cultura, mas uma reflexão e ação sobre a cultura, e nenhuma outra disciplina pode realizar esse objetivo, senão muito parcial e assistematicamente. Se considerarmos as demais disciplinas do currículo e se é o caso de que o aprendizado não seja passivo, mas ativo e reflexivo, percebemos que a Filosofia tem muito a contribuir num debate que se pode instalar em sala de aula, ao tomarmos o próprio currículo – no todo ou na parte – como objeto da discussão filosófica.
      Aquilo que muitas vezes se tenta fazer, a fim de tornar o ensino das Ciências e Matemática menos maçante, ou não somente informativo, recorrendo-se à versões de história das ciências, de um modo geral pouco convincente, porque fora do lugar, a Filosofia, no seu ramo Filosofia da Ciência consegue fazê-lo de um modo ainda mais profundo: aqui não se trata de uma história só informativa ou só modelar – como se os cientistas tivessem um comportamento tão objetivo, teleológico, que pudessem se tornar modelos de ação para os jovens que pretendam ser cientistas... -, mas antes de tudo uma crítica histórica, a que se dá o nome de Filosofia da Ciência: nesse contexto, a história das Ciências e Matemática são analisadas de forma profunda, sem compromissos com os protocolos das Ciências e Matemática, senão com a busca da verdade que a Filosofia se propõe.
      Outra razão, podemos aventar, são as relações que se pode estabelecer entre a política e a ética enquanto questão fundamental para a formação para a cidadania e democracia. Não se trata, então, de uma discussão da política como fatos do dia, mas na busca de sentidos para a ação política, individual ou coletiva. A perspectiva histórica e a perspectiva sociológica (Ciência Política) trazem informações e reflexões importantes, mas estão sobretudo voltadas para a compreensão do como foi e do como é e como esses fenômenos mantêm relação com configurações políticas do e no passado e do e no presente. A Filosofia Política conjugada à Ética aprofunda as reflexões sobre o porquê, abrindo espaço para se pensar o como deveria ser, colocando a ação individual e coletiva no centro do debate: quais os fundamentos da ação política ética?
      Agora tomando as artes como um objeto do ensino da Filosofia, e dentre elas a literatura, a Filosofia teria muito a dizer e contribuir para a formação dos jovens, talvez favorecendo um resgate do próprio ensino da literatura, muita vez mitigado pelo ensino demandado da gramática ou corrompido por um ensino historicista (escolas literárias, resumo da obra, características do autor etc.); pode-se investir num debate eminentemente estético sobre a produção da obra-de-arte, princípios, contexto, sentido. Mas ainda podemos considerar os “conteúdos tradicionais” da Filosofia como sendo necessários para o ensino médio. Pode-se dizer que todos os conteúdos escolares de algum modo se relacionam com a Filosofia: alguns mais intensamente como História, Geografia, Sociologia e Língua e Literatura, referem-se à Filosofia como fonte ou como “cenário” onde muitas das ideias, teorias, fundamentos que as caracterizam foram forjados. Pensamos no iluminismo (Locke, Hume, Rousseau, Voltaire, Diderot, Montesquieu, D’Alembert, Kant), por exemplo, basicamente um fenômeno filosófico que teve repercussões na literatura (romantismo), na política (liberalismo), na história ( Revoluções Inglesas, Americana e Francesa) e na geografia (determinismo, Humboldt, Ritter). Ou pode-se tomar a História da Filosofia ou os ramos ou áreas da Filosofia como fontes de reflexão: é uma longa tradição em que se apresenta o debate sistemático e necessário sobre os mais variados problemas postos pela humanidade. Os alunos em contato com essa tradição ficam convidados a dialogar com os filósofos, aprendendo o que há de essencial no discurso filosófico: um repertório e argumentações. Nesse sentido, o ensino de Filosofia pode contribuir enormemente para o desenvolvimento da competência lingüística e do raciocínio lógico, porque a leitura e comentário de textos dos filósofos e a elaboração de pequenas dissertações sobre temas propostos pelo professor incorporam instrumental, repertório e procedimentos necessários para o domínio daquelas competências.

Tentando um resumo

      Quando pensamos na obrigatoriedade de Sociologia e Filosofia no ensino médio, pensamos em tudo isso, sobretudo numa competência crítica – para usar um jargão híbrido, de tempos e perspectivas diferentes – que essas disciplinas têm trazido à educação e à cultura – para retomar um binômio fundamental de nossa formação. Competência crítica em relação às artes, às ciências, aos costumes, ao poder, às instituições, à renaturalização das relações sociais, ao próprio homem que tanto a Filosofia quanto a Sociologia – sintetizando no ensino médio o campo das Ciências Sociais – têm cumprido: uma, desde a Antigüidade, renovada sempre porque sempre está em diálogo com o seu tempo; e a outra, desde as épocas Moderna e Contemporânea, circunscrevendo problemas e fertilizando saberes, com métodos, perspectivas e informações fundamentais.
      Quando pensamos em Filosofia e Sociologia para além do slogan – formar o cidadão -, reconhecemos-lhes o poder de preencher com concretude essa expectativa social. A Sociologia e a Filosofia detêm um repertório em termos de informação e abordagens significativos – tradições e repertórios – que podem contribuir para que a “preparação para o exercício da cidadania” se faça desde a sala de aula e ganhe maior expressão no cotidiano dos jovens. Mas, sobretudo porque tanto Sociologia quanto Filosofia oferecem “modos de pensar” ou, segundo a expressão de Weber, “métodos de pensamento, isto é, os instrumentos e uma disciplina” bases para o discernimento e as escolhas. É óbvio que nada disso é exclusivo dessas disciplinas, no entanto também não é de outras, e nem todas as outras juntas dão conta ou recobrem o vazio deixado na formação dos jovens quando há a ausência dessas disciplinas no currículo.
Fonte: http://filosofiaensina.blogspot.com/

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Café Filosófico

Domingo as 22h


28 de novembro
TV CULTURA

Tema: Família no cinema

A família sempre foi rica matéria prima para as artes. Através de trechos de filmes produzidos pelo cinema desde o século XIX até hoje, o crítico Sergio Rizzo apresenta um rico panorama sobre a família a partir das lentes de cineastas nacionais e internacionais.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Filosofia para Crianças

Alice, Alice, Alice!


por Jornal Comércio do Seixal e Sesimbra
Nos próximos domingos, 17, 24 e 31 de Outubro, pelas 16h00, sobe ao palco do Cinema S. Vicente a peça de teatro infantil «Alice, Alice, Alice», uma versão do clássico «Alice no País das Maravilhas» de Lewis Carroll.
Nesta viagem pelo País das Maravilhas, Alice encontra estranhas criaturas e vive aventuras incríveis que se transformam em palco numa colorida viagem com cenários e figurinos que constroem este fascinante mundo um tanto surrealista, onde surgem referências ao teatro do absurdo numa linguagem acessível às crianças.
Numa adaptação livre deste clássico do nonsense a Companhia de Teatro Magia e Fantasia aborda temáticas relacionadas com a filosofia para crianças, dando ao espectáculo, para além do cariz lúdico, a possibilidade de diálogo com os espectadores e estimulando a sua reflexão sobre temas como a diferença, a liberdade e o sonho.
«Alice, Alice, Alice» é uma viagem para crianças e adultos levando à cena um dos textos mais interessantes da história da literatura infantil. Com encenação de Paulo Lage e interpretação de Mónica Cunha e Pedro Sousa.

17 de outubro as 22h na TV CULTURA
Tema: Juventude, medo e violência 

      Hoje, parece que todos querem ser jovem. As crianças querem chegar logo à adolescência e os mais velhos querem congelar o relógio no tempo da juventude. 
Neste mundo em que a juventude se tornou um valor em si, o que almejam os jovens? Nesta sociedade que toma o jovem como modelo de perfeição, como eles podem expressar seus problemas, suas imperfeições?
      Neste Café Filosófico, o psicanalista Joel Birman e a socióloga e historiadora Vera Malaguti debatem sobre a juventude e o comportamento violento dos jovens de hoje.
 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010





Tema: Corpo de Saúde na contemporaneidade
Domingo 03 de outubro as 22h na TV Cultura

Cuidar do corpo, preservar a saúde e buscar a melhor forma física, estas são grandes inquietações do homem contemporâneo. Para falar sobre o conceito de saúde dos dias de hoje e sobre a nossa relação com o corpo, o Café Filosófico traz o filósofo Carlos José Martins e o psicanalista Nahman Armony. Os avanços da medicina e dos tratamentos estéticos nos apresentam cada vez mais possibilidades. E parece que nós também ficamos mais exigentes: queremos ter corpo perfeito e saúde plena. Mas entre tantos diagnósticos médicos e modelos estéticos o que de fato é fundamental para o nosso bem-estar?

sábado, 25 de setembro de 2010

Café com Schopenhauer

Influências de Schopenhauer

A sombra do pensamento do filósofo – 150 anos após sua morte – na psicanálise, nas letras e em outras artes foi abordada pelo caderno Suplemento Literário, do Estado, em 25 de junho de 1960

Anatol Rosenfeld

      O centenario da morte de Arthur Schopenhauer não parece estar produzindo, por ora, repercussão digna de nota. Com efeito, de certo modo é dificil “notar” este filosofo: determinadas tendencias e teorias suas penetraram profundamente na cultura ocidental, amalgamando-se de tal forma aos habitos de pensar e sentir europeus e americanos, que mal se consegue distingui-las como tais. Estão no amago da nossa consciencia, talvez se diria melhor do nosso inconsciente, para respeitar a terminologia de dois dos discipulos de Schopenhauer – Eduard von Hartmann, o filosofo, e Freud, o psicologo do inconsciente. Parece, aliás, que Freud, em alguma parte, negou a influencia de Schopenhauer sobre seu pensamento. Sem duvida se trata, no caso, de uma atitude subjetivamente honesta. É que as concepções do pessimista, embora elaboradas e tornadas publicas no inicio do seculo passado, em plena época romantica, somente depois da abortada revolução alemã de 1848 encontraram clima propicio. Já pelos fins do século, na fase da formação de Freud, a atmosfera estava de tal modo impregnada daquele pensamento que não se podia evitar a “contaminação”.
      Freud é precisamente um dos intermediarios mais importantes entre nós e a epopéia filosofica da vontade irracional de Schopenhauer; vontade metafísica que, ao gerar a inteligencia humana (o “ego” freudiano), de inicio mero instrumento a serviço desse sinistro impulso de viver, cria ao mesmo tempo a força de auto-redenção que a libertará de seus conflitos e cegos anseios. Cabe ao princípio inteligente uma tarefa mística e redentora que na psicologia de Freud se tornará em função terapeutica, capaz de levar à cura dos conflitos inconscientes, pela sua elevação ao nivel da consciência.
      Teorias da psicologia moderna como as da fuga para a doença, da racionalização, do ressentimento, dos lapsos cotidianos já foram expostas por Schopenhauer. Freud, de alguma forma, parece ter “recalcado” edipianamente essa poderosa influencia do seu pai espiritual. A propria teoria do recalque, aliás, já havia sido formulada pelo solitario comilão de Francfort que até introduziu o termo alemão “verdrängen” (reprimir) para designar este mecanismo psiquico.
      O foco da vontade schopenhaueriana é o impulso sexual. É através desse impulso que se manifesta, da forma mais veemente, a inconsciente vontade de viver. A filosofia de Schopenhauer é a primeira e unica em que o sexo, concebido como o nucleo de todos os males, atinge a um “status” metafísico. O que neste contexto importa é a posição central que cabe à vontade (e ao seu foco sexual) e não a sua valorização positiva ou negativa. Basta uma “pequena” inversão dos valores para o pessimismo de Schopenhauer se converter no “otimismo heroico” de Nietzsche e para a vontade de viver – que deve ser negada e aniquilada – se transformar na vontade do poder, que deve ser afirmada e enaltecida.
      Considerando-se estes fatos, particularmente o destaque dado ao impulso sexual, é evidente a justeza do que afirma Thomas Mann: “Schopenhauer, como psicologo da vontade, é o pai de toda a psicologia moderna... A verificação... de que o intelecto (antes de se revoltar contra a vontade e assumir a sua função redentora. Nota do autor) só serve para obsequiar a vontade, justificando-a e munindo-a de motivos muitas vezes falazes e autoenganosos... contém toda uma psicologia ceticopessimista, teoria dirigida para o desmascaramento inexoravel e que não só prepara a psicanalise, mas que em verdade desde logo chega a sê-la”.
      É escusado falar da imensa influência que Schopenhauer exerceu sobre a literatura e arte modernas, quer diretamente, quer através de Nietzsche, Freud e seus adeptos, quer ainda suscitando em circulos amplos a ocupação mais ou menos séria com o Budismo e o pensamento hindu. Tal influencia, que atingiu não só artistas e escritores, mas também vastos setores da burguesia – ao passo que os filosofos especializados nunca o tiveram em alta conta – explica-se pelo fascinio morbido do seu pessimismo, pela atração do seu pansexualismo, pelo recurso ao pensamento exotico da India (de muito agrado ao esnobismo internacional) e, talvez, ainda pela função ideologica de um sistema que, eliminando a historia como mero véu de Maia, dá aos males sociais uma justificação metafísica, mercê da critica ao proprio universo já que não é – como para Leibniz – o melhor e sim o pior de todos os mundos possiveis. Entende-se porque Schopenhauer se tornou o filosofo querido dos circulos mais conservadores. Mas a imensa força de penetração deste pensamento explica-se, antes de tudo, pelo fato de seu autor ser, ao lado de Nietzsche, o maior entre os escritores filosoficos alemães. O Mundo como Vontade e Representação é uma verdadeira obra de arte, cuja composição rigorosa, em quatro partes, foi comparada aos quatro movimentos de uma sinfonia.
      O seu estilo, cuja retorica, de equilibrio classico, ama vestir-se de citações latinas e gregas, seduz pela tensão que se estabelece entre as sinistras estações percorridas pela vontade na sua paixão dolorosa e a elegante serenidade com que este inferno é apresentado. É dificil escapar à magia da severa ascese formal com que nesta obra se disciplina um sentimento de vida voluptuoso, de forte cunho sadomasoquista e surpreendente semelhança ao de Baudelaire. Há algo de selvagem na urbanidade, algo de triunfal na amargura com que descreve as infinitas misérias humanas. Quanto de “representação” sutil há no mundo deste desmascarador da vontade bruta – e quanto de superação, dominio e transfiguração da condição humana no dandismo mortificado deste estilo de simplicidade requintada. É grande a tentação de valorizar Schopenhauer antes de tudo como artista. Em termos filosoficos rigorosos, afigura-se insustentavel a teoria incoerente da vontade irracional que, embora sendo a unica realidade metafisica, gera o principio inteligente que se sublevará contra ela (como os filhos contra o patriarca na teoria freudiana), acabando por aniquilá-la e por estabelecer o reino do Nirvana. Mas essa contradição transforma-se, na prosa magistral da obra, em força estetica irresistivel. O artista demonstra o que o filosofo nega: a vitoria da ordem sobre o caos, sem que isso implique em Nirvana nenhum. Ao contrario, o niilismo e o proprio sistema do filosofo são constantemente desmentidos pelo estilo do escritor e pela magnifica composição da sua obra.
      Não admira que a estetica seja parte importante deste sistema. A exaltação da arte como redentora (embora apenas temporaria) do homem atribulado pela tortura da vontade nunca satisfeita ou, quando satisfeita, pelo vazio ainda mais torturante do tedio – essa exaltação propicia à arte um halo quase religioso. É precisamente essa função de “surrogato” da religião que a arte irá assumir entre os simbolistas e decadentes do “fim du siécle”. E se nem todos sofreram a influencia direta de Schopenhauer – como a sofreram por exemplo Mallarmé e Huysmans – é pelo menos através da musica de Wagner que se inebriam com a quintessencia do sentimento de vida schopenhaueriano; sentimento que Wagner exprimiu particularmente no seu “Tristão”, mercê de uma afinidade profunda, por mais que tenha falhado na interpretação do pensamento de Schopenhauer.
      A arte como redentora: é na contemplação estetica que o apreciador se liberta da sua individualidade enredada no mundo relacional dos desejos e interesses vitais, elevando-se à intuição das idéias platonicas, representações eternas da vontade metafisica nas suas diversas manifestações. Já não o prendem o Onde, Quando e Por que, nesta comunhão com a forma pura. De tal modo se abre, na serena visão estetica, ao belo que este como que lhe invade a consciencia até a borda. É um perder-se total no objeto e, decorrendo daí, o olvido absoluto da propria individualidade empirica. O apreciador, liberto de espaço, tempo e causalidade, transforma-se em puro sujeito da intuição, feito “claro espelho do objeto”. Não se pode mais separar o contemplador da contemplação e do objeto contemplado: tudo se confunde nesta identificação, nesta união mistica suscitada por uma inteligencia não precisamente voltairiana. Emancipado do “nefasto impulso da vontade”, o apreciador “celebra o sabado do trabalho forçado”, o chicote esclavagista dos desejos é abolido. Cessa a dor e reina aquela paz que Epicuro exaltou como sumo bem e estado dos deuses.
      Essa “manumissão schopenhaueriana” – na expressão de Augusto dos Anjos – é uma verdadeira “catarse”, num sentido mais primitivo e imediato do que o de Aristoteles: “catarse” orfica, “desencarnação”, ascensão da alma depois de liberta das amarras carnais. Eis a concepção mistica que, nas mãos deste estranho adepto de Kant, resultou da sobria formula do “prazer desinteressado” da estetica kantiana.
      Entende-se, a partir desta carga efetiva, a posição privilegiada que Schopenhauer concedeu à musica. Na estetica classica ela ocupa um lugar assaz apagado. Para Kant, a arte literaria é a maior de todas, ainda que atribua à musica a capacidade de produzir certo “prazer confortavel”. Mas seu efeito não é duradouro e, na sua função cultural, é julgada ainda inferior às artes plasticas, embora lhes seja superior na “agradabilidade”. Infelizmente lhe falta “urbanidade”: seu alcance acustico vai mais longe do que dela se exige, ao ponto de amolar os vizinhos e diminuir-lhes o mais precioso dos bens, a liberdade. Quanto a este ponto, as artes plasticas são mais delicadas: é apenas preciso desviar o olhar. Vê-se que a musica tem o defeito dos odores: “Aquele que tira seu lenço perfumado, afeta todos em torno, impondo-lhes – contra a vontade deles – o gozo quando apenas querem respirar”.
      Basta esta curiosa digressão “musical” de Kant para verificar a imensa distancia que vai da sua concepção dir-se-ia sensata da arte – de cuja importancia teve contudo noção profunda e equilibrada – aos excessos de Schopenhauer que atingem ao seu apice quando se refere à musica. Ao passo que todas as outras artes reproduzem apenas as idéias platonicas, sendo, portanto, só representações mediatas da vontade, a musica exprime de modo imediato o proprio ser do mundo. As outras artes “falam só da sombra, ela, porém, da propria essencia”, chegando a ser por isso um “exercicio metafísico”. Sua força redentora, seu poder de sedativo e magia mistica são inexcediveis. Tais concepções, típicas do romantismo, encontrariam entusiastica aceitação entre os simbolistas, tão desejosos de converter a propria palavra em musica.
      A concepção estetica de Schopenhauer é talvez a que de forma mais radical exalta, em termos filosoficos, a arte como “paliativo” em face das dores do mundo, como recurso de evasão e nirvanico “paradis artificiel”. É evidente que essa teoria suscitou não só exaltado aplauso e sim também duvidas e veemente oposição. Quando Thomas Mann, ocasionalmente, fala com ironia de certa “musica politicamente suspeita”, é contra o complexo Schopenhauer-Wagner que se dirige – complexo, todavia que era parte do seu proprio ser e por cuja superação e sublimação tanto lutou que toda a sua obra veio a ser expressão dessa luta. B. Brecht, quando exige seu famoso “afastamento”, no fundo faz apenas questão de “afastar-se” de Wagner e Schopenhauer. Nada de identificação mistica com idéias platonicas, num estado do extase beato. Muito mais que contra Aristoteles, o teatro epico de Brecht se volve contra uma concepção que visa a narcotizar a vontade, em vez de ativá-la. Em vez de ao sujeito puro da contemplação, a arte de Brecht pretende apelar ao espectador empirico, situado no espaço e tempo e sabendo das causas e dos efeitos. A arte, em vez de libertar o apreciador das dores do mundo, deve, ao contrario, torná-lo consciente delas e das suas causas. Pois o mal – diria Brecht – não é metafísico e intemporal; é historico e, portanto, irremediável.
      São duas concepções opostas da arte, ambas apoiadas em vetustas tradições, ambas tendo o merito da formulação radical, esclarecedora pela sua unilateralidade. Claro está que a estetica de Schopenhauer não está superada. Ela continua sendo uma presença viva, precisamente para aqueles que dela se acercam a fim de combatê-la.
VISÃO ALEMÃ
Arthur Schopenhauer nasceu na cidade de Dantzig, em 1788. Sua filosofia foi influenciada de modo significativo por Immanuel Kant e pelo pensamento de Platão. Seu principal trabalho é O Mundo Como Vontade e Representação (1808). Morreu em Frankfurt, no ano de 1860.
O berlinense Anatol Rosenfeld (1912-1973) era o responsável pela área de literatura alemã da seção Letras Estrangeiras do Suplemento Literário.
O Suplemento Literário circulou no Estado entre 1956 e 1974. Foi mantida aqui a ortografia original do artigo, de 25 de junho de 1960.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010









Domingo dia 26 de setembro as 22h 
na TV Cultura


Tema: Corpo e Cultura: A grande saúde

Cuidar do corpo, preservar a saúde, buscar a melhor forma física, estas são grandes inquietações do homem contemporâneo. Para falar sobre o conceito de saúde dos dias de hoje e sobre a nossa relação com o corpo, o Café Filosófico traz o filósofo Carlos José Martins e o psicanalista Nahman Armony. Os avanços da medicina e dos tratamentos estéticos nos apresentam cada vez mais possibilidades. E parece que nós também ficamos mais exigentes: queremos ter corpo perfeito e saúde plena. Mas entre tantos diagnósticos médicos e modelos estéticos o que de fato é fundamental para o nosso bem-estar?
 

domingo, 19 de setembro de 2010

DICA DE LIVRO

Sinopse (da editora): Muitos descrentes pensam que há algo de errado em crer em Deus sem provas; muitos crentes pensam que não há nada de errado. Quem tem razão? Este é o problema central de uma área importante da filosofia da religião chamada ética da crença. Este livro apresenta três textos sobre o tema: os clássicos deW. K. Clifford e de William James, que deram origem à discussão actual, e um texto de Alvin Plantinga, um dos mais importantes filósofos da religião. O quarto texto, do organizador, fornece os instrumentos necessários para que forme a sua própria opinião, assim como uma análise do conceito de Fé. De máximo interesse para professores e para estudantes de Filosofia, e também de Religião, este livro é de leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em reflectir cuidadosamente sobre a crença religiosa.

AutoresW. K. Clifford (1845-1879) foi um dos mais importantes intelectuais da Grã-Bretanha vitoriana. Matemático e educador, abordou também temas filosóficos, defendendo a ilegitimidade da crença sem provas.
William James (1842-1910) foi um dos mais importantes filósofos norte-americanos do século XIX, tendo-se destacado por defender o pragmatismo comJohn Dewey e com C. S. Peirce. Defendeu a legitimidade da crença sem provas.
Alvin Plantinga (n. 1932) é um dos mais importantes filósofos da religião contemporâneos. Com trabalhos de grande importância publicados nas áreas da metafísica e da teoria do conhecimento, defende a legitimidade da crença sem provas.
Desidério Murcho (n. 1965) é professor de Filosofia e autor de Essencialismo Naturalizado(2002), O Lugar da Lógica na Filosofia (2003), Pensar Outra Vez (2006) e Viver Para Quê?(2009), entre outros livros.

TITULO: A Ética da Crença
AUTOR: W. K. Clifford, William James, Alvin Plantinga, Desidério Murcho
EDITORA: Bizâncio
PREÇO: 12,50 €

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Domingo dia 19 de setembro
 as 22h na TV Cultura




Tema: Corpo e intensidade

No mundo de hoje, para alcançar os exigentes padrões de beleza estamos constantemente buscando a perfeição estética, a juventude eterna. Mas o que aquela imagem que vemos refletida no espelho revela? Neste programa, a psicanalista Hélia Borges fala sobre a nossa relação com o corpo e a nossa construção como sujeitos. Como o nosso jeito de ser se expressa no corpo? E como as transformações do corpo mudam o nosso jeito de pensar, de sentir? Também participa deste debate sobre corpo, aparência e saúde o filósofo André Martins, curador desta série do Café Filosófico que vai discutir o futuro do corpo.

sábado, 4 de setembro de 2010

Café Filosófico





Domingo na TV Cultura



5 de setembro as 22h na TV Cultura



Tema:
Consumo: Predatório ou consciente?


Nos dias de hoje a sedução para o consumo é enorme. Com tantas propagandas, ofertas de produto e facilidades de pagamento fica cada vez mais difícil determinar o que de fato precisamos ter para viver. Por outro lado, a preocupação com os o meio ambiente, recursos naturais, com a enorme quantidade de lixo que produzimos, tem nos colocado para pensar sobre o modo como consumimos. Ter ou não ter? Esta passou a ser a questão do nosso tempo. Neste programa, o consultor de branding Ricardo Guimarães e Samyra Crespo, curadora desta série do Café Filosófico, nos ajudam a refletir sobre os nossos hábitos de consumo.









Domingo na TV Cultura


12 de setembro as 22h na TV Cultura


Tema:
Sustentabilidade ao nosso alcance


Cotidianamente nos deparamos com notícias nada otimistas sobre a crise ecológica, a preocupação com o fim dos recursos renováveis, a poluição do planeta. Todas essas questões nos preocupam. Porém, diante do tamanho desses problemas, muitas vezes ficamos com a impressão que está fora do nosso alcance resolvê-los. Nesta série, Samyra Crespo discutiu com seus convidados formas de aproximar as práticas sustentáveis do nosso cotidiano. Como podemos transformar nossos hábitos de consumo? É possível planejar uma educação para o consumo consciente? Este Café Filosófico mostra algumas das reflexões destes encontros.



sábado, 28 de agosto de 2010

A incerteza das verdades Científicas

A Ciência não abriu mão da meta de produzir verdades, mas já admite que o conhecimento pode ser circunstancial e restrito. Como sempre há margem para contestação de teorias, não há lugar para certezas


Alberto Oliva 


       O homem sempre procurou, de algum modo, explicar o mundo que o cerca. A Filosofia e a Ciência tiveram a pretensão de afastar as visões míticas ou fantasiosas e encontrar verdades universais e desinteressadas por meio da razão. Já houve um tempo em que a confiança nessa possibilidade de constatar verdades foi irrestrita, mas alguns pensadores contemporâneos apostam que essa meta é difícil de ser alcançada. Os conteúdos científicos passaram a ser vistos como subordinados a processos e estruturas sociais. Ou seja, o saber seria conjetural e os resultados científicos não definitivos. 
      Mas esse foi um longo caminho, que teve início lá atrás, ainda no surgimento da Filosofia. O conhecimento filosófico se forma renegando o senso comum. Dizendo- se escorado na autoridade da razão, mostra propensão a desqualificar o "ver", baseado nos sentidos, em nome do "compreender", que se dá de modo racional. A busca da episteme, da crença verdadeira e certa, parte da avaliação de que as aparências enganam, de que os sentidos nem sempre são confiáveis e de que a forma mítica de pensar está fadada a produzir pseudoexplicações. Por mais que em determinados períodos de sua história a confiança na força libertadora do conhecimento tenha sido maior, a Filosofia desde seus primórdios ambiciona livrar o homem das crenças infundadas, das ilusões e superstições. Em suma, das atitudes irracionais. Na figura de Galileu, a Ciência moderna enfrentou muita resistência para fazer valer alguns de seus resultados. O dogmatismo religioso, o conservadorismo intelectual e o apego cego a determinados sistemas filosóficos, tudo fizeram para impedir que o conhecimento baseado em cálculos e experimentos ganhasse o merecido destaque.
O homem busca um saber capaz não só de explicar
 os fenômenos naturais, mas também de controlá-los
      Tendo o filósofo Francis Bacon como pregoeiro, a era moderna passa a privilegiar a busca de um tipo de saber capaz de proporcionar ao homem controle - por meio, por exemplo, de predições - sobre o que investiga. O poder intelectual deixa de se exercer apenas sobre as consciências, pela formação de mundividências ou pela inoculação de ideologias políticosociais, para se estender ao domínio dos fenômenos naturais. Quando passa a ser encarada como habitada por forças cegas, em muitos casos ameaçadoras, a natureza começa a exigir um conhecimento capaz não só de explicar seus fenômenos, mas também de controlá-los. 
      A Ciência moderna acaba com a necessidade de invocar forças ocultas e propósitos divinos para tentar entender o que ocorre na natureza. Esta passa a ser vista, como sublinha Max Weber, como desprovida de mistérios abscônditos. Sendo as forças que a regem imanentes, o crucial para Bacon é identificá-las por meio da observação. Tomando por base o que é observacionalmente registrado, forjam-se teorias que nada mais são que generalizações atentas ao papel decisivo cumprido pela evidência negativa. A natureza deixa de ser um quebra-cabeça de um "Todo" a ser decifrado pela razão para ser um grande campo de observação segmentável em estudos setoriais. O Novum Organum, de Bacon, não é apenas a proposta de uma nova metodologia, é também traço distintivo da modernidade pelo destaque que confere ao saber instrumental. Deixando de ser contemplativo, o conhecimento é também testado pelo poder que propicia sobre o conhecido. O "saber de domínio", como o chama Scheller, é o que logra exercer controle, manipulativo ou corretivo, sobre aquilo que consegue explicar.
      Pelo poder que gera, o conhecimento deve para Bacon ser colocado a serviço do bem-estar humano. A tese baconiana de que scientia est potestas, de que o homem pode tanto quanto sabe, implica que os limites do poder que se pode exercer sobre o mundo são definidos pelo grau de conhecimento que sobre ele se consegue alcançar.
      Com sua tese de que o sujeito precisa se manter passivo para apreender os fatos como são em si mesmos, a retórica empirista serviu para conter os sempre indomáveis arroubos da imaginação. Por mais questionável, a ênfase na observação coloca um freio no especulativismo que ambiciona explicar dando as costas para o mundo dos fatos. Além do mais, torna humilde o pesquisador ao leválo a reconhecer que para explicar alguma coisa precisa se escravizar à observação de suas notas características.
      Por mais que a partir de Comte se passe a defender a tese de que toda observação se faz à luz de uma teoria, o empirismo merece o crédito de ter sublinhado o papel crucial das evidências empíricas nos processos de aceitação ou rejeição das teorias.
      De 1620, data da publicação do Novum Organum de Bacon, aos dias de hoje, o poder explicativo, e mais ainda o instrumental, da Ciência tem se consolidado de forma incontrastável. Em condições normais, o poder sobre fenômenos naturais é cada vez mais consequência do saber sobre eles obtido.
      A visão de que para conhecer é necessário se livrar das ilusões do pensamento puro que vira as costas para a realidade foi crucial para que se passasse a ter a humildade de observar o que se quer explicar. Sem dúvida, a Filosofia foi fundamental para o surgimento da Ciência. Só que, diferentemente desta, produz desde suas origens teorias que nutrem a ambição de explicar de forma definitiva o que é o mundo sem abraçar a penosa tarefa de observar humildemente os fatos. As grandes teorias filosóficas sempre preferiram a especulação à observação, o desvelamento do "Todo" ao acompanhamento minucioso das partes. O empirismo, a despeito de suas limitações e debilidades, foi revolucionário ao decretar que o conhecimento só é alcançável caso o pesquisador evite se antecipar à realidade por meio de grandiloquentes teorias. O pesquisador deve se tornar servo dos fatos para ser senhor daquilo que conseguir explicar.
      Depois do longo predomínio da concepção empirista, imagens opostas de Ciência foram propostas. Há quem a veja como fruto da razão pura, livre de preconceitos, voltada para a construção de embasadas explicações pela aplicação de metodologias seguras. E quem a encare como um subproduto da vida cultural ou social. Schlick, um dos destacados membros do movimento empirista lógico, encarna à perfeição a primeira posição quando define conhecimento como um puro jogo do espírito. Em sua opinião, a busca da verdade científica é um fim em si mesmo, já que o cientista se deleita em medir forças contra os enigmas que a realidade lhe propõe independentemente dos benefícios que disso possam advir. Considerar a razão científica autônoma e incontaminada equivale a supor que não se envolve com superstições, ideologias, antecipações, precipitações, etc. E que quando se envolve tem como vir a expurgá-las por ser uma atividade capaz de se autocorrigir. Está, desse modo, habilitada a apreender os fatos da natureza ou da sociedade como são em si mesmos para poder entendê-los e, sendo possível e desejável, modificá-los em nome de objetivos humanos ou simplesmente de melhores funcionalidades.
      O extremo oposto do cognitivismo expresso por Schlick é encarnado pela Sociologia que encara a substância da Ciência, a explicatividade de suas teorias, como socialmente determinada. Por essa óptica, as teorias científicas são construções sociais tanto quanto as posições ideológicas e os posicionamentos políticos. É explicável por meio de causas sociais não apenas a gênese, mas também o conteúdo das teorias científicas. O socioconstrutivismo, no fundo, propõe que se abandone a concepção de conhecimento como teoria verdadeira justificada em favor da de crença socialmente causada. Com isso, se insurge contra a predominância da visão internalista de Ciência que, do Novum Organum até meados do século passado, sustentava que a funcionalidade da atividade científica pode ser em parte explicada por fatores a ela extrínsecos, mas não sua racionalidade.
      Da segunda metade do século passado em diante houve um crescente questionamento do que Schffler chamou de standard view ("visão padrão"). À luz da concepção tradicional de cientificidade, identificar os procedimentos metodológicos por meio dos quais são os resultados da Ciência aferidos seria suficiente para caracterizar sua racionalidade. A investigação dos componentes extracognitivos - dos psicológicos aos biológicos, passando pelos político-econômicos e os histórico-culturais - se prestaria, quando muito, à elucidação de como se deu a formação e a difusão das teorias científicas. Sendo de pouca ou nenhuma serventia no esclarecimento de por que são acolhidas como confirmadas ou rejeitadas como refutadas.
      Enquanto a Ciência tendeu a ser vista como produto da razão monitorada pela evidência empírica, não era importante acompanhar o que se situa - ou o que se passa - fora de suas fronteiras para determinar em que se fundamentam suas práticas teóricas. A visão de que a reconstrução da racionalidade científica pode ser feita atentando-se apenas aos chamados imperativos lógico-empíricos passou a receber cerradas críticas de metacientistas como Kuhn e Feyerabend. Deixou de ser amplamente aceita a tese de que a Ciência constrói teorias cujo endosso ou rechaço se dá com base apenas em requisitos como o da consistência lógica e da correspondência aos fatos.
Fonte:
http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/Edicoes/49/artigo179761-5.asp

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

FIQUE LIGADO!





Domingo 15 de agosto na TV Cultura as 23h30




Tema: Eu que aprenda a levantar

As perdas e separações compreendidas pelo ponto de vista da arte. A arte e a poesia podem ser instrumentos para lidarmos com os nossos lutos. Temos que aprender a usar a leveza da arte pra atravessar os trechos pesados da vida.

sábado, 7 de agosto de 2010

FIQUE LIGADO!






Domingo na TV Cultura



O amor que se vai

No mundo contemporâneo, os relacionamentos são menos definitivos e as separações ficaram tão cotidianas. Mas ainda sempre muito doloridas. Diante da perda de algo ou alguém importante, impossível não sentir que “meu mundo caiu”. E já que estamos passando por uma epidemia de separações geradas pela crise mundial, (perda de emprego, perda de bens, mudança de país, e separações amorosas propriamente ditas), talvez seja mesmo a hora de falarmos desse assunto indesejado. Diante dos efeitos catastróficos de uma separação, é preciso ter também um lado prático. Se meu mundo caiu, como vou reconstruí-lo?


Dia: 08 de agosto


Horário: 23h30


Local: TV Cultura


http://www.tvcultura.com.br/cafefilosofico/?sid=1703

sexta-feira, 6 de agosto de 2010










“A vida precisa de ilusões, isto é, de não-verdades tidas por verdadeiras”. Nietzsche

sábado, 31 de julho de 2010

PALESTRAS PÚBLICAS

PALESTRAS PÚBLICAS:  Grandes Obras Filosóficas

Período de 6 de agosto a 3 de dezembro de 2010 - Todas as Sextas-Feiras
Horário: das 18 h as 20 h.
Local: Auditório José Albano (Universidade Federal do Ceará)

Maiores informações
Secretaria do Mestrado de Filosofia da UFC
Fone: 33667890
33667436
Inscrições até 5 de agosto de 2010.

Acesse o endereço e veja a programação completa
http://www.filosofia.ufc.br/images/arquivos_pos/cartazdefinitivo.pdf

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O FIM DOS JORNAIS IMPRESSOS?

      O anúncio feito nesta semana sobre a migração do Jornal do Brasil para plataforma totalmente digital reacendeu as discussões sobre a substituição dos meios impressos de comunicação por conteúdos digitais. A partir de setembro, o periódico surgido em 1891, no Rio de Janeiro, e considerada uma das mais tradicionais publicações da imprensa nacional, estará disponível apenas através da internet, mediante pagamento de uma assinatura mensal. Uma das motivações da reformulação consiste na adequação do famoso JB ao iPad e similares.
      Diante do fato, opiniões contrastantes surgiram: alguns afirmam que se trata de um caso isolado, decorrente de problemas organizacionais da empresa carioca. Outros, mais apocalípticos, acreditam ser este mais um sinal de que os jornais impressos, assim como livros e conteúdos culturais físicos, não continuarão existindo por muito tempo.
      No início do ano, o semiologista e escritor Umberto Eco lançou um livro – em parceria com os franceses Jean Claude Carrière e Jean-Philippe de Tonac, roteirista de cinema e jornalista, respectivamente. Intitulada Não contem com o fim do livro, a obra tem distribuição no Brasil pela Editora Record e é traduzida por André Talles. Nela, os três autores dialogam e sugerem alguns argumentos para mostrar que o papel dificilmente será substituído de forma total por tecnologias digitais.

Rotina e intimidade

      Ainda assim, deve-se destacar o surgimento de novos e-readers, que tentam deixar a leitura de formatos digitais mais intimistas e sem os tradicionais inconvenientes, possibilitando que jornais e livros consigam ser acompanhados com conforto no aparelho. O Kindle, da gigante de vendas online Amazon, por exemplo, chama a atenção por sua tela, que não cansa a vista – utiliza uma espécie de tinta que "corre" sobre o visor.
      É fato que tentar traçar qualquer tipo de prognóstico sobre um tema cujas influências mudam a cada dia é praticamente impossível. O próprio Umberto Eco, apesar de não acreditar que essa extinção do uso do papel acontecerá tão brevemente, deixa claro sua incerteza: "Tudo pode acontecer. Amanhã, os livros podem vir a interessar apenas a um punhado de irredutíveis que irão saciar sua curiosidade nostálgica em museus e bibliotecas."
      De qualquer forma, é interessante observar como no curso de toda a história humana documentada as novas mídias, na maioria dos casos, não substituíram as anteriores. Pode-se dizer que cada tipo de meio de comunicação envolve uma diferente experiência, tanto sensorial quanto social, e que se trata de um agregamento de novas formas de se obter informação e conhecimento. O cinema, por exemplo, não foi substituído pelo surgimento da televisão, dos videocassetes, DVDs e nem mesmo pelos downloads na internet. O ato de ir ao cinema não acontece puramente por questões de entretenimento, mas envolve toda a mística e o fetiche que envolvem uma sessão –o cheiro de pipoca e outras guloseimas, a companhia, a organização do espaço da sala e até o próprio fato de, por muitas vezes, ser um pretexto para sair de casa e esquecer, por algumas horas, os problemas da vida pós-moderna. O mesmo acontece com o jornal impresso e com os livros, que frequentemente extrapolam suas funções comunicativas para serem partes de uma certa rotina e intimidade, de efetivo contato físico. (Quem nunca tomou um café da manhã com um jornal aberto?)

Uma revista em formato de jornal

      Essa perda de intimidade pode ser descrita a seguir:"O que ganharemos com esses novos livrinhos brancos e, principalmente, o que perderemos? Hábitos ancestrais, talvez. Certa sacralidade com que o livro foi aureolado no contexto de uma civilização que o instalara no altar. Uma intimidade especial entre o autor e seu leitor que a noção de hipertextualidade irá necessariamente constranger. A ideia de `cercado´ que o livro simbolizava e, justamente por isso, evidentemente, algumas partes de leitura", afirma Tonac, no prefácio de Não contem com o fim do livro.
      É inegável que a internet, principalmente por seu caráter colaborativo, é talvez a forma mais rápida de se obter informações sobre fatos relevantes que estão acontecendo no momento da leitura. Também é impossível deixar de afirmar que essa talvez seja a maior revolução e democratização do conhecimento livre da história, se tornando uma ferramenta fantástica. Ainda que grande parte dos leitores dos periódicos tradicionais deixem de acompanhá-los, é possível manter uma base sólida de assinantes, dando ao jornalismo impresso um caráter mais reflexivo, opinativo, denso – com grandes reportagens (tendência que já vem acontecendo desde o surgimento da televisão e do rádio, mas que deve se fortalecer nos próximos anos).
      Um bom exemplo é o semanário alemão Die Zeit (O tempo). Em um formato de papel grande para o que estamos acostumados no Brasil, mas comumente utilizado nos países nórdicos, a publicação resiste e mantém a média de 500 mil exemplares vendidos por edição. Talvez a sua vendagem não tenha sofrido quedas devido ao fato de a publicação contar com abordagens densas dos temas considerados mais relevantes na semana, por muitas vezes quase filosóficas, quando há o envolvimento de questões políticas, culturais e comportamentais; atingindo quase o status de uma revista, em formato de jornal. Se esse será o destino de boa parte da mídia impressa, nos resta aguardar.
ECO, Umberto; CARRIÈRE, Jean-Claude; DE TONNAC, Jean-Philippe. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Por Francisco Beltrame Trento. Observatório da Imprensa
Fonte: http://www.adnews.com.br/artigos/106504.html

sábado, 26 de junho de 2010

Amizade: o outro lado da filosofia

      Você lerá neste artigo um esboço de um projeto maior, que terá o objetivo de mostrar a importância do filosofar nos dias de hoje, por incrível que pareça. É senso comum ouvirmos que a filosofia e os filósofos não são desse mundo e que habitam lugares além do humano. A frase mais conhecida é: os filósofos vivem numa torre de marfim, que designaria um mundo ou atmosfera onde intelectuais se envolvem em questionamentos desvinculados das preocupações práticas do dia-a-dia. Como tal, tem uma conotação pejorativa, indicando uma desvinculação deliberada do mundo cotidiano.       Pois bem. Isso não é verdade. Se não fosse os assuntos humanos a filosofia nem existiria. Sócrates andava pelas ruas de Atenas conversando com as pessoas abordando temas que tocavam diretamente a vida delas. Queria saber, conhecer e indagar sobre o que somos, como vivemos, o que é mais importante na vida, etc. Deste modo, o tipo de saber que buscava não era e nem estava distante das questões que colocamos a nós mesmos nos dias atuais.
      Na verdade, em Sócrates vemos uma prática do pensar que proporcionasse um tipo de sabedoria que conduzisse a algo prazeroso, porém sem desconsiderar o caráter dramático que é existir. E essa coisa boa pretendida poderia estar nas relações que travamos com os outros. Enfim, no diálogo que construímos com as pessoas, sem nenhum desmerecimento a alguém. É daí que emerge um novo modo de filosofar e, também, de viver.
      Filosofia é uma palavra grega originária de duas outras: philo (amizade, amor, respeito) e sóphos (saber, sabedoria). Vemos na história da filosofia um maior destaque ao sóphos, ao saber, ao conhecer teórico e contemplativo, daí a idéia de Torre de Marfim. Nem a idéia de sabedoria é evidenciada. Mas quero concluir com a primeira parte: philo, philia, amizade.
      É a amizade que nos aproxima mais ainda da realidade, dos assuntos humanos, pois nela revela-se a convivência, as olhadas, as escutas, os sabores que a vida na relação com o outro nos oferece. Se assim é, pensar deixar de ser algo meramente transcendente, mas que nos levaria a nos encostar nos odores, nas texturas, nas cores e nos paladares da existência, muitas vezes intraduzíveis e inenarráveis em palavras e conceitos.
      O filósofo apenas faz tentativas, apostas, aproximações, ao ponto de chegar a situações paradoxais e plenas de impasses, pois não pode e nem consegue compreender tudo sobre o que pensa.
      Olhando para nós hoje, falta-nos o tempo, a paciência e o cuidado de ir à praça pública, como Sócrates, para dialogar, pensar, fazer amigos, de maneira que modifique as nossas maneiras de ser e supere as individualidades, ou melhor, os individualismos que nos distancia e forma pessoas violentas, indiferentes, frias e quase desumanas.
      Assim, filosofar é também fazer amigos, é garantir um espaço público que nos transforme e nos abra para a convivência coletiva. A amizade, sem ignorar as tensões humanas, pode ser o caminho para novos modos de vida, para uma verdadeira vida filosófica. Filosofe!

Alonso Bezerra de Carvalho é professor da Unesp.
E-mail: alonsoprofessor@yahoo.com.br

Fonte: http://www.diariodemarilia.com.br/Noticias/84437/Amizade-o-outro-lado-da-filosofia