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sábado, 7 de novembro de 2009

REVISTA DE FILOSOFIA

Há quarenta anos morria o filósofo da Escola de Frankfurt que se tornou famoso por sua crítica aos meios de comunicação de massa
POR SERGIO AMARAL SILVA *



Esse pequeno trecho da letra de "Televisão", composta por Arnaldo Antunes, Toni Bellotto e Marcelo Fromer, canção que deu título a um dos primeiros álbuns dos Titãs, em 1985, serve de epígrafe a esta matéria, que trata da visão do filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969), falecido há exatos quarenta anos, sobre a "cultura de massas", que ele preferia chamar de "indústria cultural". Adorno era marxista por formação e sua filosofia funda-se na análise dialética.

A expressão "indústria cultural", segundo consta, foi utilizada pela primeira vez no livro "Dialética do esclarecimento", escrito em colaboração com Horkheimer e publicado em Amsterdã, em 1947. O termo era empregado em substituição a "cultura de massas", conforme Adorno explicaria numa série de conferências radiofônicas proferidas em 1962, porque esta induziria ao erro de julgar que se trata de uma cultura emergindo espontânea e autonomamente, do seio das massas. Essa interpretação enganosa, segundo ele, serviria apenas aos interesses dos donos dos meios de comunicação.

Horkheimer

Adorno, a indústria cultural e a internet

Max Horkheimer (1895-1973) foi um importante filósofo alemão com trajetória, de certo modo, paralela à de seu amigo Adorno, com quem integrou a chamada Escola de Frankfurt. Nos anos 1940, escreveu com Adorno, a "Dialética do esclarecimento". Entre 1951 e 1953, foi reitor da Universidade de Frankfurt.

Consumidores
Em consonância com a teoria marxista, a filosofia adorniana considera que a indústria cultural transforma todos seus produtos em mercadoria, visando obter lucros pelo consumo. O próprio Adorno salientou: "O consumidor não é rei, como a indústria cultural gostaria de fazer crer; ele não é o sujeito dessa indústria, mas seu objeto."

Quanto à televisão, era o principal instrumento dentre os "meios de massa" conhecidos por Adorno há algumas décadas. Espécie de ponta-de-lança da indústria cultural, que, nas palavras do próprio autor, "impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e decidir conscientemente". Como se vê, os sintomas provocados fazem lembrar o "emburrecimento" de quem não consegue diferenciar os próprios pensamentos e acaba indo viver na jaula dos bichos, de que falam os Titãs.


Segundo Adorno, na indústria cultural tudo se transforma em negócio. Ele diz: "Enquanto negócios, seus fins comerciais são realizados por meio de sistemática e programada exploração de bens considerados culturais." Para ele, a indústria cultural só se importa com as pessoas enquanto empregados ou consumidores , não apenas adaptando seus produtos ao consumo, mas ditando o próprio consumo das massas. Portadora não só de todas as características do mundo industrial moderno mas também da ideologia dominante, seria a verdadeira origem da lógica do sistema capitalista. Conforme o autor, o homem liberto do medo da magia e do mito torna-se vítima de outro engano: o progresso da dominação técnica, que acaba sendo utilizado pela indústria cultural como arma contra a consciência das massas. Inclusive em seu tempo livre, o indivíduo é presa da mecanização provocada pela indústria cultural, com Adorno dizendo que "só se pode escapar ao processo de trabalho na fábrica e na oficina adequando-se a ele no ócio"

Assim, a indústria cultural estabelece uma espécie de comércio fraudulento, que promete a satisfação das vontades mas na verdade as frustra, num tipo de jogo perverso de oferecimento e privação, em que um exemplo nítido e atual pode ser dado pelas situações eróticas apresentadas pela internet. Ali, o desejo atiçado pelas imagens acaba encontrando apenas a rotina que o reprime, num mundo virtual. Embora antes do advento da rede mundial, Adorno observava que a situação une "à alusão e à excitação a advertência precisa de que não se deve, jamais, chegar a esse ponto".
Conforme resume o professor Francisco Rutiger, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e autor do livro "Th eodor Adorno e a crítica à indústria cultural" (Edipucrs, 2004): "A crítica à indústria cultural adorniana não perde sua atualidade perante os fenômenos de internet, visto que, enquanto plataforma da cibercultura, essa vem a ser um novo suporte por onde corre, agora em escala ainda mais massiva e imediata, o processo de conversão da cultura em mercadoria."
Fonte:http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/20/artigo151970-2.asp

Um comentário:

  1. Caro Nonato:
    Apesar de já ter colocado um comentário no seu post "O que é a arte?", quero registrar "formalmente" que estou acompanhando, a partir de agora, o seu blog, pelo interesse que este despertou em mim.
    Aliás, aproveito para agradecer pela sua presença no meu.
    Grande abraço.

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